— Você viu o Mensik caindo no chão depois do jogo?
— Vi. Parecia que o corpo dele simplesmente desligou.
— Quatro horas e meia com 30°C. Isso não é tênis, é sobrevivência.

A cena se repetiu nas telas e nos bares de todo o mundo na tarde desta quarta-feira, 28 de maio: Jakub Mensik, 19 anos, derrubou o argentino Mariano Navone após 4 horas e 41 minutos de batalha nas quadras de saibro parisiense — e então o saibro o derrubou de volta. O tcheco foi ao chão com cãibras severas, incapaz de sustentar o próprio peso, enquanto a equipe médica corria para cobrir sua cabeça, pescoço e peito com bolsas de gelo. Termômetros em Paris marcavam 30°C. O sol batia direto na quadra. E o relógio, implacável, já passava das quatro horas e meia de partida.

O que o corpo de Mensik revelou sobre Roland Garros

Mensik ficou deitado no piso por vários minutos. Levantou-se, caminhou alguns passos em direção ao vestiário — e voltou a ter dificuldades para andar. Uma cadeira de rodas foi necessária para levá-lo para dentro. O episódio não foi um colapso dramático de fim de filme: foi o relato fisiológico preciso do que acontece quando um atleta de alto rendimento é submetido a quase cinco horas de esforço máximo sob calor extremo sem estrutura de resfriamento adequada.

"Quando acertei a última bola, as emoções se dissiparam e meu corpo simplesmente desligou. É uma loucura jogar com esse tempo, especialmente sob o sol. Ficar lá por mais de quatro horas e meia é simplesmente insano", disse Mensik na coletiva de imprensa.

A palavra escolhida pelo tcheco — insano — não foi retórica. Foi diagnóstico. E o que torna o episódio ainda mais revelador é a frieza com que ele descreveu os mecanismos que deveriam protegê-lo e não protegeram.

O que o corpo de Mensik revelou sobre Roland Garros Mensik desaba após 4h41 sob
O que o corpo de Mensik revelou sobre Roland Garros Mensik desaba após 4h41 sob
"Mesmo com as pausas, você não tem muito tempo. Os apanhadores de bola não podem trazer sua toalha e, durante a troca de lados, você tem apenas um minuto. Antes de se sentar, já se passaram 30 segundos e não há muito tempo para se refrescar", completou o tenista.

Trinta segundos perdidos antes mesmo de sentar. Um minuto inteiro — que na prática se transforma em trinta segundos úteis — para um atleta que acabou de disputar um game sob sol direto com temperatura de 30°C. A matemática do protocolo atual de Roland Garros simplesmente não fecha.

O que as regras atuais permitem e o que elas ignoram

A ATP e a WTA possuem o chamado Extreme Heat Policy — uma política de calor extremo que permite pausas adicionais ou suspensão de partidas quando as condições climáticas ultrapassam determinados limites. O problema é que Roland Garros, diferentemente do Australian Open, não opera com um sistema de medição padronizado e automaticamente acionado. Em Melbourne, o Wet Bulb Globe Temperature — índice que combina temperatura, umidade e radiação solar — é monitorado em tempo real e pode paralisar o torneio de forma objetiva. Em Paris, a decisão depende de avaliação dos árbitros e da organização, um processo que historicamente peca pela subjetividade.

A apuração do SportNavo mostra que este não é um caso isolado em Roland Garros. Ao longo dos últimos anos, múltiplos tenistas relataram exaustão extrema em partidas disputadas no período da tarde — justamente quando a temperatura atinge o pico e a exposição solar é mais intensa nas quadras externas, onde não há teto retrátil como na Philippe-Chatrier e na Suzanne-Lenglen. Mensik jogou em uma quadra sem cobertura. Com 30°C e sol direto, a temperatura percebida na superfície do saibro pode superar 45°C.

O protocolo de troca de lados — um minuto, com restrições ao que os apanhadores de bola podem fazer — foi desenhado para partidas de condições normais. Quando a temperatura sobe 10°C acima da média histórica de maio em Paris, esse protocolo se torna inadequado. Não existe versão de emergência acionada automaticamente. Existe apenas a esperança de que o árbitro perceba o problema a tempo.

O que Roland Garros pode mudar antes que seja tarde demais

Há soluções concretas que outros Grand Slams e torneios de nível ATP já testaram com sucesso. A primeira — e mais imediata — seria a adoção formal de um sistema de medição de Wet Bulb Globe Temperature com limiares objetivos para acionamento de pausas estendidas, eliminando a subjetividade do árbitro. A segunda seria a criação de uma pausa de resfriamento de dez minutos — o chamado heat break — ao final do terceiro set em partidas masculinas disputadas acima de determinado índice térmico, modelo que o Australian Open já aplica desde 2019.

A terceira solução — mais estrutural e politicamente delicada — seria a revisão dos horários de quadras externas em dias de calor extremo. Programar partidas de cinco sets para o período da manhã, antes das 11h, ou para o fim da tarde, após as 17h, reduziria drasticamente a exposição solar direta. O argumento contra essa medida costuma ser logístico: Roland Garros tem 18 quadras e um calendário apertado. O argumento a favor é mais simples: um tenista em cadeira de rodas após 4h41 de jogo é a imagem que nenhum Grand Slam deveria querer associada à sua marca.

A quarta mudança possível seria permitir que apanhadores de bola entreguem toalhas e bebidas durante a troca de lados — algo que parece trivial mas que, multiplicado pelos 90 segundos de descanso efetivo disponíveis, representa a diferença entre reidratação funcional e reidratação simbólica. Mensik foi explícito sobre isso. A organização de Roland Garros ainda não respondeu.

O tcheco terá até sexta-feira para se recuperar e enfrentar o australiano Alex De Minaur — adversário que avançou após a desistência por lesão do belga Alexander Bockx. Um jogador que precisou de cadeira de rodas na quarta-feira terá menos de 48 horas para estar em condições de disputar uma oitava de final. O corpo de Mensik já disse o que pensa sobre isso. Agora Roland Garros precisa responder.

O que as regras atuais permitem e o que elas ignoram Mensik desaba após 4h41 sob
O que as regras atuais permitem e o que elas ignoram Mensik desaba após 4h41 sob

O saibro parisiense é lindo. Mas não pode ser uma armadilha.