Voltou. Gabriel Mercado está à disposição de Paulo Pezzolano para o confronto deste sábado (16), às 18h30, no Beira-Rio, contra o Vasco pela 16ª rodada do Brasileirão — e a notícia foi recebida pelo ambiente colorado como se o clube tivesse reforçado o elenco com uma contratação de última hora. Há algo de revelador nessa reação: ela diz menos sobre a qualidade de Mercado e muito mais sobre o estado atual da defesa do Internacional.
A narrativa do salvador e o que os números do Inter sem Mercado realmente mostram
A versão que circulou nos últimos dias enquadra o retorno do argentino como a peça que faltava para estabilizar o sistema defensivo colorado. Mercado, 39 anos, campeão pelo clube, experiente, líder — o roteiro parece pronto. O problema é que os dados do período em que ele ficou fora complicam essa leitura simplificada.
Nos cinco jogos em que Mercado desfalcou o Inter — após sofrer lesão muscular de grande extensão na coxa direita no dia 22 de abril, na vitória por 2 a 1 sobre o Athletic pela Copa do Brasil —, o Colorado venceu três partidas e empatou duas. Em termos de resultado, portanto, o time não desabou. O que desabou foi o comportamento defensivo: sete gols sofridos nesses cinco jogos, com apenas uma partida sem ser vazado, a vitória por 2 a 0 sobre o Fluminense.
O próprio Pezzolano reconheceu as falhas estruturais após a classificação sobre o Athletic na terça-feira (12):
"Tivemos erros individuais e coletivos, sem dúvida, com coisas para melhorar. Não é fácil na Copa do Brasil vencer os dois jogos seja contra quem for. Hoje nos complicamos um pouco, com pequenos erros, mas já estamos pensando no sábado."A frase do técnico uruguaio revela que o diagnóstico existe — a cura ainda está em construção.
Por que a ausência de Félix Torres e Victor Gabriel agrava tudo contra o Vasco
Se o retorno de Mercado era aguardado como alívio, a suspensão simultânea de Félix Torres e Victor Gabriel — ambos atingiram o terceiro cartão amarelo no empate em 2 a 2 com o Coritiba, no sábado (9) — transforma o cenário de recuperação em gerenciamento de crise. A dupla era a zaga titular de Pezzolano, e os dois ficam de fora justamente num confronto direto contra um adversário que chega em crescimento.
O Vasco de Renato Gaúcho inicia a rodada na 8ª posição com 20 pontos — dois a mais que o Inter, que ocupa o 14º lugar. O time carioca vem de cinco jogos de invencibilidade no Brasileirão, com três vitórias e dois empates, além de ter avançado na Copa do Brasil ao eliminar o Paysandu. Quem vai operar ao lado de Mercado na zaga é Juninho, com Clayton Sampaio como terceira opção. A inexperiência do parceiro é um fator tático real num jogo de pressão.
A análise do SportNavo sobre os gols sofridos pelo Inter durante a ausência de Mercado aponta padrão preocupante: nos dois gols do Athletic na vitória por 3 a 2, a defesa colorada cedeu espaço por falha de marcação coletiva — Victor Gabriel e Félix Torres foram superados por um passe de calcanhar na área, e o segundo gol chegou com a defesa permitindo entrada livre do adversário. Trata-se de erro de posicionamento, não de qualidade individual.
O que Mercado agrega taticamente e o limite do que a experiência pode fazer
Há uma comparação histórica que ajuda a contextualizar o papel de um veterano como Mercado numa zaga em reformulação. No Brasileirão de 1998, o Internacional contou com Valdir Bigode — então com 35 anos — como âncora defensiva numa equipe que mesclava jovens e experientes. Bigode não era o mais rápido, mas seu posicionamento e leitura de jogo reduziram os erros de marcação dos parceiros mais jovens. O Inter daquele ano terminou com a defesa menos vazada do segundo turno. A lógica é semelhante: Mercado não vai resolver o problema com velocidade ou força física — vai tentar resolvê-lo com antecipação e comunicação.
O argentino — camisa 25, formado nas categorias de base do River Plate e profissionalizado ainda adolescente na Argentina antes de chegar ao futebol europeu — acumula passagens por Sevilla e Racing Club antes de chegar ao Beira-Rio. Sua contribuição ao setor é de liderança e posicionamento: ele ocupa espaços antes de o adversário chegar, reduzindo a exposição dos parceiros. Segundo o técnico Pezzolano, a decisão de não utilizá-lo contra o Athletic foi preventiva:
"Mercado está bem. Podia jogar, mas, se eu o colocasse e ocorresse alguma coisa com Mercado, Juninho ou Clayton... Procuramos que todos estejam bem fisicamente para o próximo jogo. Pensamos em 10, 15 minutos, mas podia ocorrer algo."
O problema — e aqui está o ponto que a narrativa do retorno heroico tende a omitir — é que Mercado, aos 39 anos, joga com limitações físicas reais. A lesão muscular de "grande extensão" sofrida em abril não é detalhe menor. Um zagueiro que retorna de contusão desse tipo contra um Vasco que tem Robert Renan e Cuesta sólidos atrás, mas que projeta Puma Rodríguez e Lucas Piton com liberdade nas laterais, precisará de ritmo que só partidas dão.
O Inter chega ao confronto com a maior sequência invicta da temporada — seis jogos —, mas o número esconde a fragilidade defensiva que o próprio Pezzolano admite. Uma vitória neste sábado pode levar o Colorado até a 7ª posição; uma derrota, no pior cenário, empurra o time para a zona de rebaixamento. O Grêmio, primeiro clube dentro do Z-4, está a apenas um ponto do Inter na classificação atual.
O Vasco, por sua vez, chega com desfalques próprios: Thiago Mendes e Rojas estão suspensos, Cuiabano não tem condições ideais de jogo, e Spinelli, Adson e Paulo Henrique também ficam de fora. A equipe provável de Renato Gaúcho deve ter Léo Jardim; Puma Rodríguez, Cuesta, Robert Renan e Lucas Piton; Cauan Barros, Hugo Moura e Tchê Tchê; Nuno Moreira, Andrés Gómez e David. O Inter, de seu lado, deve escalar Rochet; Bruno Gomes, Mercado, Juninho e Matheus Bahia; Villagra, Bruno Henrique, Allex e Bernabei; Carbonero e Alerrandro. A bola rola às 18h30, com transmissão exclusiva pelo Amazon Prime Video — e a defesa do Colorado vai precisar de muito mais do que a volta de um nome experiente para convencer.










