Não, Lionel Messi não é apenas o maior artilheiro da história das Copas do Mundo. Ele é o único atleta do futebol masculino a disputar seis edições do torneio com contribuição ofensiva relevante em quatro delas — e o primeiro a superar os 16 gols de Miroslav Klose depois de 12 anos de espera. O recorde, porém, é só o pano de fundo. A pergunta que importa agora é outra: com 916 gols em jogos oficiais e 84 de distância da marca de 1.000 atribuída a Pelé, Messi consegue chegar lá antes de pendurar as chuteiras?

Vinte anos de Copa para construir 17 gols

A trajetória começou em 27 de junho de 2006, na Allianz Arena de Munique, quando um garoto de 18 anos entrou aos 75 minutos do segundo tempo contra Sérvia e Montenegro e marcou o sexto gol da goleada argentina. Era o camisa 19, não o 10. Quatro anos depois, na África do Sul, Messi jogou todos os sete jogos da campanha e não marcou nenhum gol — sua pior Copa, e a única em que terminou sem contribuição direta no placar.

O Brasil de 2014 foi o oposto: quatro gols na fase de grupos, todos pelo camisa 10. Contra a Bósnia, um golaço de fora da área no Maracanã no dia 15 de junho. Contra o Irã, o gol nos acréscimos que garantiu o 1 a 0 no dia 21 de junho. E dois tentos no 3 a 2 sobre a Nigéria, incluindo uma falta direta, no dia 25 de junho. No mata-mata, porém, o silêncio voltou: nenhum gol nas quatro partidas seguintes, culminando na derrota para a Alemanha na prorrogação da final.

Em 2018, na Rússia, apenas um gol — contra a Nigéria, no dia 26 de junho, o que garantiu a classificação após a derrota por 3 a 0 para a Croácia. A campanha terminou nas oitavas de final, com uma eliminação para a França por 4 a 3, em jogo no qual Messi marcou e ainda assim saiu derrotado. O Qatar de 2022 veio como redenção: sete gols e três assistências no caminho ao tricampeonato argentino, incluindo dois na final contra a França, decidida nos pênaltis. Agora, em 2026, o gol número 17 — contra a Áustria, nesta segunda-feira, 22 de junho — isolou definitivamente o argentino no topo da história.

916 gols e uma média que desafia a aritmética da idade

O número 916 em jogos oficiais, acumulado ao longo de 22 anos de carreira profissional, representa uma média de 0,78 gol por partida. Para quem começou a contar em 2004 pelo Barcelona B e segue marcando em 2026 pelo Inter Miami, a consistência é estatisticamente anormal. Klose, o ex-recordista das Copas, encerrou a carreira com 69 gols pela seleção alemã. Pelé, cujos 1.000 gols incluem partidas não oficiais e amistosos, tem sua marca contestada por historiadores — mas foi adotada como referência simbólica pelo próprio Santos FC e pela FIFA.

A projeção matemática, mantida a média atual, aponta para o milésimo gol entre o fim de 2027 e o início de 2028. Messi completará 39 anos em 24 de junho de 2026 — dois dias após o gol histórico desta Copa. A questão não é capacidade técnica, que segue intacta: é a decisão de seguir em campo por mais duas temporadas completas após o Mundial.

"A regularidade, capacidade técnica e longevidade do argentino indicam que o recorde segue ao seu alcance, desde que o craque veterano decida prolongar a carreira por mais algumas temporadas", apontou análise publicada pelo Lance!.

Para contextualizar: Ronaldo Fenômeno encerrou a carreira aos 34 anos. Zidane, aos 34. Ronaldinho Gaúcho disputou seu último jogo profissional aos 37. Messi, aos 38, acaba de marcar o gol mais importante de sua trajetória em Mundiais. A longevidade dele já é, por si só, um recorde sem precedente histórico direto.

Os recordes que ainda estão ao alcance e o que define o prazo

Com 17 gols em Copas, Messi tem margem para ampliar ainda mais a marca neste torneio — a Argentina avança na competição e cada fase é uma oportunidade adicional. Se a seleção chegar à final, ele pode disputar mais quatro partidas em 2026. Nos 84 gols que faltam para o milésimo, o Inter Miami é o palco principal: a MLS oferece calendário regular de 34 rodadas por temporada, além de playoffs, Leagues Cup e torneios internacionais de clube.

Há também o recorde de gols pela seleção argentina, onde Messi já é o maior artilheiro histórico com 112 tentos em 191 jogos — marca que ele mesmo construiu e pode ampliar enquanto a Argentina permanecer em competição. Nenhum outro jogador na história chegou a 100 gols por uma seleção sul-americana antes dele.

"O gol marcado por Lionel Messi sobre a Áustria, além de isolar o atacante como maior artilheiro da história das Copas, também aproxima, ainda que só um pouco mais, o argentino à marca do milésimo em sua carreira", registrou a cobertura do Lance! após a partida desta segunda-feira.

A variável decisiva não é física nem técnica: é contratual e motivacional. O vínculo de Messi com o Inter Miami vai até dezembro de 2026. A renovação — ou não — definirá se o milésimo gol acontece numa arena da MLS, num estádio da Copa América de 2027 ou simplesmente não acontece. Messi nunca antecipou publicamente seus planos de aposentadoria, mas sua presença nesta sexta Copa, aos 38 anos, é a resposta mais eloquente que qualquer declaração poderia dar. A decisão sobre o contrato com o Inter Miami deve ser anunciada até janeiro de 2027 — e com ela, saberemos se o milésimo gol é meta ou epitáfio.