O Arrowhead Stadium, em Kansas City, estava tomado pelo azul e branco quando uma batida de longa distância atravessou a área e encobriu Luca Zidane. Era o 16º minuto do primeiro tempo, 16 de junho de 2026, exatamente 20 anos depois do dia em que Lionel Messi havia marcado seu primeiro gol em uma Copa do Mundo. A coincidência de datas não era o mais relevante: o que aquele chute inaugurava era o hat-trick que colocaria o argentino ao lado — e logo acima — de Miroslav Klose no topo da artilharia histórica do torneio.

A narrativa que circulou nas redes sociais após a vitória da Argentina por 3 a 0 sobre a Argélia foi a de um recorde conquistado num único jogo, numa única noite mágica. A leitura mais precisa, porém, exige olhar para os 20 anos que separaram o primeiro do 16º gol — e para o que cada Copa revelou sobre um jogador que chegou a elas como coadjuvante e as encerrou como personagem único na história do futebol.

O garoto de 18 anos que entrou no segundo tempo em Gelsenkirchen

Em 2006, na Alemanha, Messi era o talento mais promissor da delegação argentina, mas longe do protagonismo. O elenco de José Pékerman tinha Riquelme, Hernán Crespo, Saviola e Carlos Tévez. O jovem de 18 anos foi reserva durante quase todo o torneio: não saiu do banco na estreia contra a Costa do Marfim nem na eliminação nas quartas contra a Alemanha. Foi titular apenas no jogo sem pressão contra a Holanda.

O primeiro gol veio na segunda partida, contra a Sérvia e Montenegro, no dia 16 de junho — data que se repetiria duas décadas depois. Messi entrou aos 30 minutos do segundo tempo, no lugar de Maxi Rodríguez, com a Argentina já vencendo. Aos 43 minutos, após tabela entre Crespo e Tévez, recebeu na direita da área e bateu com o pé direito, tirando do goleiro. A Argentina venceu por 6 a 0. O gol número 1 foi marcado com camisa 19 e cabelos compridos, por um adolescente que mal havia começado a jogar.

Seis Copas, 16 gols e o que os números escondem sobre a evolução do artilheiro

Entre 2006 e 2022, Messi acumulou gols em ritmos muito diferentes a cada edição. Em 2010, na África do Sul, terminou sem marcar — o torneio mais frustrante de sua trajetória com a seleção. Em 2014, no Brasil, chegou a quatro gols e levou a Argentina à final, perdida para a Alemanha por 1 a 0 na prorrogação. Em 2018, na Rússia, fez apenas um. Em 2022, no Catar, foram sete — incluindo dois na final contra a França —, com o título que encerrou a última grande lacuna de sua carreira.

Quando chegou à Copa do Mundo de 2026, aos 38 anos, Messi já havia se tornado o primeiro atleta a disputar seis edições do torneio. Tinha 13 gols na bagagem e precisava de três para alcançar Klose. O hat-trick contra a Argélia entregou os três em uma única partida. Segundo dados compilados pela imprensa argentina, Messi alcançou ainda a 17ª vitória em jogos de Copa, igualando outra marca do ex-centroavante alemão.

Os detalhes do hat-trick revelam um jogador que adaptou o estilo, não o instinto. O primeiro gol foi de longe, aproveitando falha de Luca Zidane — filho de Zinédine, que acompanhava das arquibancadas e virou personagem involuntário da noite. O segundo saiu após rebote do mesmo goleiro em chute de Alexis Mac Allister: Messi empurrou com o pé direito. O terceiro foi na entrada da área, batido no canto. Três formas distintas de marcar, três situações táticas diferentes.

"Com você sempre. Você é incrível", escreveu Antonela Roccuzzo, esposa de Messi, ao publicar foto com os filhos Thiago (14), Mateo (11) e Ciro (8) usando a camisa da Argentina no Arrowhead Stadium.

O que o recorde de Messi reescreve na história das Copas

A comparação com Klose é inevitável, mas merece contexto. O alemão marcou seus 16 gols em quatro Copas (2002, 2006, 2010 e 2014), jogando como centroavante de referência em seleções construídas para alimentá-lo. Messi chegou ao mesmo número em seis edições, frequentemente como único criador e finalizador de uma Argentina que, em várias fases, dependia quase exclusivamente de sua inspiração individual.

A noite em Kansas City também teve um detalhe que passou despercebido no barulho das redes sociais: a partida começou com dois gols anulados por impedimento — um de cada lado — antes de Messi abrir o placar. A arbitragem validou os três gols do argentino. Do outro lado, Luca Zidane sofreu críticas por lances decisivos, enquanto seu pai assistia das arquibancadas a uma noite que as imagens transformaram rapidamente em assunto global.

O garoto de 18 anos que entrou no segundo tempo em Gelsenkirchen Messi marca 3 c
O garoto de 18 anos que entrou no segundo tempo em Gelsenkirchen Messi marca 3 c
"Até o seu último dia conosco, o Leo continuará nos ensinando. Agradeço a ele por tudo o que deu à seleção e ao futebol", disse Lautaro Martínez, em declaração que circulou na imprensa argentina após o jogo, em matéria do SportNavo.

Com a vitória, a Argentina assumiu a liderança do Grupo J ao lado da Áustria, que derrotou a Jordânia por 3 a 1. O próximo compromisso dos argentinos é justamente contra a Jordânia, quando Messi terá a chance de ampliar o recorde e confirmar a classificação antecipada para a fase eliminatória. Luca Zidane e a Argélia enfrentam a Áustria precisando pontuar para sobreviver no torneio.

Vinte anos depois do garoto de camisa 19 que entrou no segundo tempo em Gelsenkirchen, o camisa 10 saiu do Arrowhead Stadium com 16 gols em Copas e os três filhos na arquibancada — Thiago usando a camisa argentina no mesmo estádio onde o pai reescreveu a história.