Se pedíssemos a qualquer analista de futebol, em 2018, que imaginasse Messi marcando em cinco edições consecutivas de Copa do Mundo, a resposta mais generosa seria um sorriso cético. Naquele ano, na Rússia, o argentino encerrou o torneio sem convencer, eliminado pela França nas oitavas de final, com apenas um gol — de pênalti. Oito anos depois, na noite de 16 de junho de 2026, em Kansas City, o camisa 10 abriu o placar contra a Argélia e fez o que nenhum jogador na história havia conseguido antes dele: marcou em cinco edições diferentes da Copa do Mundo, igualando Cristiano Ronaldo, o único que até então habitava esse território.

O gol que fecha um círculo de vinte anos

A trajetória de Messi nas Copas é, em si mesma, uma narrativa de redenção em capítulos. Em 2006, na Alemanha, ele tinha 18 anos e marcou contra a Sérvia e Montenegro — um gol de garoto prodígio que o mundo ainda não sabia como classificar. Em 2010, na África do Sul, passou em branco em cinco jogos, carregando o peso de uma Argentina que dependia dele como se dependesse de oxigênio. Em 2014, no Brasil, chegou à final com quatro gols e o Prêmio de Melhor Jogador, mas voltou para casa sem a taça. Em 2018, apenas aquele pênalti contra a Islândia. E então veio 2022, no Catar: sete gols, três assistências, o título, a redenção. Agora, em 2026, aos 39 anos, o hat-trick sobre a Argélia — sim, ele não parou no primeiro gol — elevou sua conta para 17 gols em Copas do Mundo, tornando-o o maior artilheiro da história do torneio, ultrapassando definitivamente o alemão Miroslav Klose, que havia encerrado a carreira com 16.

Reparemos no detalhe que a estatística bruta não captura: Messi marcou seus três gols contra a Argélia sem precisar de uma arrancada sequer. Dois foram construídos a partir de movimentações curtas na área, leituras de jogo que substituem com precisão cirúrgica aquilo que a velocidade dos 25 anos já não oferece mais.

Como um jogador de 39 anos redefiniu o próprio futebol

A adaptação de Messi ao envelhecimento esportivo é um fenômeno que merece estudo separado dos manuais de fisiologia. Desde que chegou ao Inter Miami, em julho de 2023, o argentino foi sistematicamente reconstruindo seu papel dentro de campo. A velocidade que o tornava incontrolável no Barcelona — aquelas arrancadas de 30 metros que deixavam zagueiros parados — foi gradualmente substituída por um jogo de posicionamento que lembra, em alguns momentos, o Xavi Hernández dos últimos anos no Camp Nou: poucos toques, decisões antecipadas, economia de energia para os momentos que importam.

O técnico Lionel Scaloni percebeu essa transformação antes de qualquer analista externo. Na Copa de 2026, a Argentina foi a campo contra a Argélia com Messi operando numa posição híbrida entre o segundo atacante e o meia-enganche clássico, com liberdade para recuar e construir jogadas, mas também com a incumbência de aparecer na área nas situações de finalização. O resultado foi um desempenho que misturou seis assistências potenciais — passes que terminaram em chutes ou cruzamentos — com os três gols que entraram para a história.

"Ele não precisa mais correr para ser o melhor em campo", disse um dos membros da comissão técnica argentina, em declaração reproduzida pela imprensa local após a partida. "Ele simplesmente sabe onde a bola vai chegar antes de todo mundo."

Essa capacidade de antecipar o jogo — tecnicamente chamada de "visão espacial" pelos preparadores físicos — tende a se intensificar com a experiência, mesmo quando o corpo perde atributos atléticos. Messi, que completou 39 anos em junho de 2026, é hoje um caso de estudo sobre como a inteligência tática pode compensar, e em alguns aspectos superar, a potência física da juventude.

Messi, Ronaldo e um recorde que pertence a dois

Há uma ironia histórica na partilha deste recorde. Messi e Cristiano Ronaldo passaram duas décadas sendo comparados, separados, opostos em tudo — estilo de jogo, personalidade pública, clubes, continentes. E agora, na Copa do Mundo de 2026, os dois habitam juntos o mesmo patamar que nenhum outro ser humano pisou: o de jogadores que marcaram gols em cinco edições distintas do torneio mais assistido do planeta. Ronaldo marcou em 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. Messi marcou em 2006, 2014, 2018, 2022 e agora em 2026 — com a diferença de que o argentino chegou a esta Copa como campeão em exercício, enquanto o português encerrou a participação em 2022 nas quartas de final, eliminado por Marrocos.

"Quando você pensa que já viu tudo que Messi pode fazer, ele vai lá e faz mais", afirmou o jornalista Martín Liberman, especialista em futebol sul-americano, em comentário transmitido logo após o apito final em Kansas City.

A diferença entre os dois recordistas, porém, vai além da cronologia. Messi chega a 17 gols em Copas — três a mais que Ronaldo, que encerrou sua participação mundial com 14. E os 17 gols do argentino foram distribuídos ao longo de apenas 26 jogos disputados no torneio, uma média de 0,65 gols por partida que nenhum outro jogador com mais de dez jogos em Copas conseguiu sustentar.

A Argentina e a busca pelo bicampeonato

A vitória sobre a Argélia — por 3 a 0, com hat-trick de Messi — colocou a Argentina na liderança do Grupo C com três pontos e saldo positivo de três gols logo na estreia. A seleção de Scaloni chega ao torneio com seis dos onze titulares que ergueram a taça no Catar em dezembro de 2022: além de Messi, Rodrigo De Paul, Nicolás Otamendi, Leandro Paredes, Ángel Di María — que anunciou que esta será sua última Copa — e o goleiro Emiliano Martínez integram o grupo de veteranos que sustentam o projeto. O próximo compromisso da Argentina no Grupo C está marcado para 20 de junho, contra o México, em Dallas — um adversário historicamente incômodo para os argentinos, que perderam para os mexicanos em 2006 e precisaram de prorrogação para eliminar a equipe de El Tri em 2022, com gol de Messi e assistência de Di María.

Aos 39 anos, Messi não corre mais como antes. Mas, como ficou evidente em Kansas City, ele não precisa. A Copa do Mundo de 2026 já tem seu personagem central — e esse personagem, mais uma vez, atende pelo nome de Lionel Andrés Messi Cuccittini.