27 partidas. Esse é o número que separa Lionel Messi de Miroslav Klose na única estatística que ainda os iguala: os 16 gols em Copas do Mundo. Na noite de terça-feira (16), no Arrowhead Stadium de Kansas City, o camisa 10 da Argentina despachou a Argélia com um hat-trick impecável — o primeiro desta edição do torneio — e alcançou o alemão no topo de uma lista que existe desde que Jules Rimet criou a competição, em 1930. O recorde isolado, porém, exigirá pelo menos mais um gol. E a Argentina tem compromisso marcado.
A régua que Klose deixou em 2014
Para entender o peso do que aconteceu em Kansas City, é preciso voltar ao Estádio Mineirão, em 4 de julho de 2014. Klose entrou como reserva na semifinal contra o Brasil, marcou o segundo gol da Alemanha no histórico 7 a 1 e chegou a 16 tentos em Mundiais, superando os 15 de Ronaldo Fenômeno. O feito parecia intocável: Klose precisou de exatos 24 jogos para construir essa artilharia ao longo de quatro Copas — 2002, 2006, 2010 e 2014. Uma média de 0,67 gol por jogo, eficiência notável para um centroavante que nunca foi do tipo que desequilibrava sozinho.
Gerd Müller, com 14 gols em apenas 13 partidas entre 1970 e 1974, tem média superior. Just Fontaine marcou 13 em uma única Copa, 1958, recorde absoluto de gols por edição. Mas nenhum deles chegou aos 16. A marca de Klose sobreviveu a Ronaldo, a Zidane, a Ronaldinho, a uma geração inteira de craques que pareciam predestinados a derrubá-la. Sobreviveu, inclusive, a Messi — até esta terça-feira.
Como Messi construiu 16 gols em seis Copas
A trajetória de Messi na Copa do Mundo é uma curva de aprendizado que levou 20 anos para atingir seu pico. Em 2006, na Alemanha, ele tinha 18 anos e marcou apenas 1 gol — contra a Sérvia e Montenegro, em partida que a Argentina venceu por 6 a 0. Em 2010, na África do Sul, zero gols e a eliminação nas quartas de final contra a Alemanha de Klose. Em 2014, no Brasil, 4 gols e o vice-campeonato doloroso. Em 2018, na Rússia, 1 gol e eliminação nas oitavas. Em 2022, no Qatar, 7 gols e o título. Agora, em 2026, já são 3 na estreia.
A conta fecha em 27 jogos para 16 gols — três a mais que Klose precisou. A diferença de eficiência bruta existe: Klose marcou a 0,67 gol por partida; Messi está em 0,59. Mas esse número esconde uma variável fundamental: Klose era um centroavante clássico, cuja função principal era marcar. Messi construiu a maior parte de sua carreira como meia-atacante ou falso 9, distribuindo assistências, criando jogadas, sendo o organizador do jogo. Que ele tenha chegado a 16 gols em Mundiais com esse perfil é, em termos históricos, tão impressionante quanto a própria marca.
"Me encontro bem, depois de ganhar uma partida difícil como essa. Nunca é fácil uma primeira partida de Copa. O primeiro tempo foi difícil e no segundo tempo fomos bem", analisou Messi após o apito final.
A sequência dos gols desta terça também conta uma história. O primeiro, aos 17 minutos do primeiro tempo, veio após passe de Rodrigo De Paul: Messi arrancou pelo meio, arriscou de fora da área e o goleiro Luca Zidane — filho de Zinedine — falhou. O segundo saiu aos 14 minutos do segundo tempo, quando Messi apareceu para completar um rebote após defesa do mesmo Zidane. O terceiro, aos 30 minutos da etapa final, foi o mais bonito: recebeu na entrada da área e mandou no cantinho. Hat-trick. Dezesseis gols. Klose alcançado.
A reverência dos que estiveram lá
Thomas Müller, que jogou ao lado de Klose nas Copas de 2010 e 2014, acompanhou a partida e não precisou de muitas palavras. "Esse cara...", escreveu o atacante alemão em suas redes sociais — uma frase curta que diz tudo sobre o peso do momento. Erling Haaland, que horas antes havia marcado dois gols na goleada da Noruega sobre o Iraque, publicou no Snapchat, já no avião de volta de Boston: "Messi é um absurdo", seguido de uma coroa.
"Comemoro com minha família, meus companheiros, com quem sempre está comigo. Foi um momento muito lindo, poder começar a Copa do Mundo desse jeito. Estou muito feliz, vou desfrutar com o vestiário, que é muito unido e forte", disse Messi.
Em Kansas City, Patrick Mahomes — quarterback do Kansas City Chiefs e dono de três títulos do Super Bowl — assistiu ao jogo no mesmo estádio onde costuma brilhar pela NFL e publicou a imagem de uma cabra nas redes sociais. O acrônimo GOAT (Greatest Of All Time) raramente foi tão literalmente representado. Antonella Rocuzzo, mulher de Messi, que esteve presente no Arrowhead Stadium ao lado dos filhos Thiago, Mateo e Ciro, escreveu: "Com você sempre, Lionel Messi. Você é incrível."
Em Buenos Aires, onde os termômetros marcavam 14°C na noite de terça, centenas de argentinos se reuniram na Plaza Seeber, em Palermo, para acompanhar a partida no telão da Fan Fest da Fifa. Quando o terceiro gol entrou, a praça explodiu. "Diziam que em algumas partidas ele poderia superar e já igualou em um", disse Andrés Chavez, 42 anos, entregador presente na praça. "Ele é único. Depois de Maradona, é ele."
O que falta para Messi ser o maior sozinho
A aritmética é simples. Um gol separa Messi do recorde isolado. A oportunidade mais próxima é no dia 21 de junho, quando a Argentina enfrenta a Eslovênia pela segunda rodada do Grupo J — conforme registrado por SportNavo ao longo da cobertura desta Copa. A seleção de Scaloni lidera o grupo com 3 pontos após a vitória sobre a Argélia e entra em campo com a vantagem psicológica de uma estreia dominante.
O ranking histórico de artilheiros de Copas ficou assim após a rodada de terça: Messi e Klose com 16, Ronaldo Fenômeno com 15, Gerd Müller e Kylian Mbappé com 14, Just Fontaine com 13 e Pelé com 12. Mbappé, que marcou duas vezes na vitória da França sobre o Senegal na mesma rodada, segue na perseguição — mas está a dois gols do topo. A corrida continua, mas Messi largou na frente.
Há um dado que poucos mencionam neste momento de euforia: Messi é o primeiro atleta a disputar seis Copas do Mundo. Nenhum outro jogador na história acumulou tantas aparições no torneio. Isso significa que, mesmo com 27 jogos, ele chegou a 16 gols ao longo de um período de participação sem precedente. A pergunta que ficará para a história não é só quantos gols ele marcou — mas quantas gerações de torcedores ele atravessou para chegar até aqui. A resposta é 21 de junho, contra a Eslovênia, às 16h (horário de Brasília).












