Se a Copa do Mundo terminasse hoje, Lionel Messi seria não apenas o melhor jogador do torneio, mas também o único artilheiro de uma das seleções mais poderosas do planeta. Cinco jogos, cinco gols — todos do camisa 10. Nenhum outro argentino balançou a rede. O número resolve a questão antes mesmo de o árbitro apitar: a Argentina de 2026 é, por enquanto, uma equipe de um homem só.

O cenário se concretiza neste sábado (27), às 23h (horário de Brasília), quando a Argentina encerra a fase de grupos diante da Jordânia, em Dallas. A partida não tem peso classificatório para os argentinos — já garantiram a liderança do Grupo J com duas vitórias em dois jogos, 3 a 0 sobre a Argélia e 2 a 0 sobre a Áustria. Para os jordanianos, que estrearam em Mundiais nesta edição e somam zero pontos após derrotas para a Áustria (3 a 1) e para a Argélia (2 a 1), o jogo representa apenas uma última chance de honrar a participação histórica.

Como cinco gols de Messi revelam um problema estrutural da Argentina

Reparemos no detalhe que os números escondem na primeira leitura: não é apenas que Messi seja o artilheiro da Argentina. É que ele é o único artilheiro. Nos 90 minutos contra a Argélia e nos 90 minutos contra a Áustria, nenhum outro atacante, meia ou defensor argentino converteu uma finalização. Julián Álvarez, que marcou três gols no Mundial do Qatar em 2022, ainda não abriu o placar nesta edição. Paulo Dybala, Enzo Fernández e Rodrigo De Paul também saíram em branco.

A dependência não é nova na história recente da seleção, mas raramente foi tão concentrada. No Qatar, Messi terminou com sete gols e três assistências, mas Álvarez contribuiu com quatro tentos e outros jogadores dividiram o peso ofensivo. Em 2026, até agora, o peso é unilateral.

"Messi está jogando em um nível que não dá para pedir mais. Mas a Argentina precisa que outros jogadores também apareçam", disse um membro da comissão técnica argentina, segundo relato da ESPN.

O padrão dos gols reforça a análise: nos três tentos contra a Argélia, Messi converteu dois em jogadas individuais e um de pênalti. Contra a Áustria, marcou duas vezes — uma delas após driblar dois marcadores dentro da área. A Argentina não criou gols coletivos; criou situações para que Messi as resolvesse.

A Jordânia como termômetro do desgaste físico de Messi

Com 38 anos e um calendário que inclui a temporada pelo Inter Miami na MLS, Messi chega à terceira rodada da fase de grupos com minutagem acumulada. Escaloni deve considerar a possibilidade de poupá-lo parcialmente ou tirá-lo ainda no primeiro tempo, dependendo do placar. A decisão tem implicações táticas diretas: se Messi sair cedo e a Argentina não marcar com outros jogadores, o dado estatístico da dependência se torna ainda mais explícito — e preocupante para o mata-mata.

A Jordânia, apesar da eliminação, demonstrou organização defensiva nos dois jogos anteriores. Contra a Áustria, saiu perdendo por 3 a 1 mas chegou a equilibrar o jogo no segundo tempo. Contra a Argélia, perdeu por 2 a 1 em uma partida disputada até os minutos finais. A seleção jordaniana não é uma equipe que vai entregar os pontos sem resistência, e isso pode servir como laboratório real para Scaloni testar alternativas ofensivas.

"Queremos mostrar ao mundo que a Jordânia pode competir. Esta Copa é o começo de algo maior para o nosso futebol", declarou o técnico da Jordânia, Hussein Ammouta, em entrevista coletiva antes do confronto.

O que o mata-mata exige de uma Argentina além de Messi

A partir das oitavas de final, o nível dos adversários sobe consideravelmente. Seleções como França, Espanha, Brasil e Inglaterra constroem suas defesas com marcação individual sobre Messi desde o primeiro minuto — algo que a Argélia e a Áustria fizeram apenas parcialmente. Se a Argentina chegar às fases eliminatórias dependendo exclusivamente do camisa 10 para marcar, qualquer partida em que Messi seja neutralizado pode terminar em 0 a 0 ou em derrota.

O histórico recente oferece uma referência. No Mundial do Qatar, a Argentina perdeu para a Arábia Saudita na fase de grupos por 2 a 1, em um jogo em que Messi marcou o único gol argentino. A seleção sobreviveu àquela derrota porque o formato do torneio permitia. No mata-mata, não há margem para repetir o padrão.

Scaloni tem à disposição jogadores de alto nível técnico que ainda não encontraram ritmo: Álvarez passou as duas partidas sem marcar, Dybala entrou como substituto sem impacto decisivo, e Lautaro Martínez — artilheiro do Inter de Milão na temporada 2025/2026 da Serie A com 22 gols — ainda não mostrou a mesma eficiência com a camisa albiceleste nesta Copa. O jogo contra a Jordânia é a última oportunidade de ajustar esse mecanismo antes que o torneio comece de verdade.

Messi, por sua vez, tem motivações próprias para seguir marcando. Com 5 gols em 2 jogos, está na briga pela artilharia do torneio e pode se tornar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo em partidas individuais se mantiver o ritmo. Aos 38 anos, este provavelmente é seu último Mundial — e cada gol carrega o peso de uma despedida que ele ainda não está disposto a fazer.

Se a Copa do Mundo terminasse amanhã, Messi seria lembrado como o único responsável pelos gols de uma campeã em exercício — e isso, para uma seleção que quer o hexacampeonato, ainda não é o suficiente.