Confesso: eu achei que Neymar não entraria mais nessa conversa. Achei que o silêncio de quase dois anos pela Seleção e as lesões acumuladas tinham encerrado o debate antes da Copa. Errei. E a fala de Lionel Messi nesta semana me fez rever o peso que o nome do camisa 10 ainda carrega no futebol mundial.

O que Messi disse e por que isso importa além do afeto

Em entrevista ao canal argentino Lo Del Pollo, Messi foi questionado sobre a presença de Neymar na Copa do Mundo. A resposta foi honesta ao ponto de ser cirúrgica:

FLAMENGO VAI LEVAR OS 3 PONTOS? ENTENDA!; TRETAS NO REAL MADRID!; EXISTE PANELA NA SELEÇÃO ?
"Eu não posso ser muito direto. Neymar é um amigo e obviamente que eu gostaria que ele fosse. Que coisas boas aconteçam com ele, porque ele merece. Nas Copas do Mundo sempre queremos que estejam os melhores e o Ney, enquanto estiver em atividade, sempre vai ser um deles. Seria lindo ver ele no mundial, por tudo que ele significa ao Brasil e ao futebol. Tomara que ele possa estar lá."

Messi ainda completou com algo que vai além do elogio de companheiro de Barcelona: disse que Neymar "vive a sua vida como ela é, é feliz e natural" — uma defesa de caráter num momento em que o atacante é alvo de críticas constantes fora de campo. Não é pouca coisa vir de quem é considerado o melhor jogador da história.

O que Messi disse e por que isso importa além do afeto Messi pediu Neymar na Cop
O que Messi disse e por que isso importa além do afeto Messi pediu Neymar na Cop

Messi não está sozinho nesse coro. Endrick, em entrevista recente à PLACAR, também foi perguntado sobre o tema e demonstrou apoio ao veterano. Casemiro, nas últimas semanas, reforçou o peso da experiência de Neymar em Copas. A pressão sobre Carlo Ancelotti vem de dentro do próprio vestiário.

O que os números do Santos dizem sobre Neymar em 2026

Reparemos no detalhe que a maioria das manchetes está pulando: Neymar não atua pela Seleção Brasileira desde outubro de 2023 — quando se lesionou gravemente contra o Uruguai, em Montevidéu, rompendo o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. Sua volta ao Santos em 2026 gerou expectativa enorme, mas os números ainda são tímidos para justificar uma convocação baseada em performance.

Para contextualizar o que Ancelotti precisa ver antes de colocar o nome dele na lista, vale olhar as métricas que realmente importam no futebol moderno:

  • xG (expected goals): mede a qualidade das chances criadas, não apenas os gols marcados. Um atacante de Copa precisa gerar xG consistente — algo acima de 0,4 por 90 minutos é referência para um camisa 10 de alto nível.
  • xA (expected assists): capta o impacto criativo mesmo quando o passe decisivo não vira gol. Neymar no auge tinha xA entre os três maiores do mundo; agora, a janela de minutos no Santos ainda é curta demais para uma leitura confiável.
  • Progressive passes: passes que avançam o jogo em direção ao gol, indicador de presença real no terço final. É aqui que o Neymar pré-lesão era absurdo — e onde a Seleção mais sente falta de alguém com esse perfil.

O problema não é talento. O problema é volume. Com poucos jogos no Santos em 2026, a amostra estatística é insuficiente para Ancelotti tomar uma decisão técnica embasada — e o italiano é exatamente o tipo de treinador que não convoca por saudade.

A concorrência na faixa de Neymar e o dilema real de Ancelotti

A vaga que Neymar disputaria não é genérica. Estamos falando de um atacante de lado esquerdo com liberdade para centralizar, criar e finalizar — perfil que Vinicius Jr. já ocupa com autoridade, deixando Neymar brigando por uma segunda função ofensiva no esquema.

Raphinha, Savinho e Estêvão também estão nessa disputa por espaço criativo. Todos com dados recentes, todos com minutagem relevante em 2026. A convocação de Ancelotti, prevista para o dia 18 de maio, vai precisar equilibrar experiência e forma atual — e esse é um trade-off que nenhum elogio de Messi resolve sozinho.

O que acontece depois do dia 18

A decisão de Ancelotti sai no dia 18 de maio. O Brasil estreia na Copa do Mundo contra Marrocos em 13 de junho, com amistosos preparatórios contra o Panamá em 31 de maio e o Egito em 6 de junho. Se Neymar for convocado, terá menos de três semanas para mostrar que aguenta 90 minutos em ritmo de Copa. Se ficar de fora, a narrativa de Messi vai ecoar por muito tempo — e vai cobrar resposta de Ancelotti em cada entrevista coletiva até o fim do torneio. É o mesmo cenário que Ronaldo Fenômeno viveu em 2006, quando chegou ao Mundial com a forma questionada e carregou o peso das expectativas de um país inteiro — só que agora a aposta envolve um jogador que ainda não provou que está fisicamente pronto para aquele nível.