Mil metros quadrados de tinta seca em menos de 24 horas. Esse é o dado central para entender o que aconteceu na madrugada de terça-feira (5) na Via Ápia, principal artéria da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro: 80 voluntários e 35 pintores locais converteram o asfalto e as paredes num corredor artístico de escala raramente vista em iniciativas comunitárias espontâneas. Para fins de comparação, essa área equivale a quase dois campos de futebol oficiais — uma superfície que, se fosse contratada em qualquer agência de comunicação paulistana, custaria centenas de milhares de reais em mídia out-of-home.
A tradição que o mercado não conseguiu domesticar na Rocinha
As Copas do Mundo sempre produziram murais na Rocinha. O que muda em 2026 é a escala e o contexto econômico em que essa manifestação ocorre. A pesquisadora Vera Magalhães, especializada em economia criativa periférica, observou em estudo de 2024 que iniciativas culturais autogestionadas em favelas cariocas cresceram 34% em frequência após a pandemia, exatamente porque preencheram um vácuo deixado pela retração dos equipamentos culturais públicos. O mural da Via Ápia não é nostalgia — é resposta estrutural a uma ausência.
A coordenação do projeto envolveu artistas locais que deliberadamente incluíram personagens representando diferentes gerações, diversidade étnica e cenas do cotidiano da favela. Nas palavras de um dos organizadores consultados pelos guias turísticos que já registram aumento de fluxo na região, a proposta foi criar "identificação com quem vive ali e, ao mesmo tempo, apresentar uma imagem positiva para visitantes". A Associação de Moradores da Rocinha respondeu pela logística, limpeza e interdição temporária da via — infraestrutura que o poder público raramente oferece gratuitamente para manifestações culturais em territórios periféricos… e aí vem o problema.
Voluntarismo comunitário diante da omissão do investimento público
O orçamento federal para o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) em 2025 foi de aproximadamente R$ 1,1 bilhão — volume expressivo, mas historicamente concentrado em instituições do eixo Rio-São Paulo com capacidade burocrática para acessar editais. Iniciativas como o mural da Rocinha operam à margem desse sistema: dependem de voluntarismo, doação de materiais e trabalho não remunerado. O SportNavo já documentou esse padrão em coberturas anteriores sobre o impacto social de megaeventos esportivos no Brasil, e a Copa de 2026 não parece alterar a equação.
O projeto gerou renda direta para 35 pintores locais e movimentou a cadeia de comerciantes e influenciadores da região com o aumento do fluxo turístico. Guias de turismo relatam procura crescente de visitantes interessados em fotografar o espaço. Esse fenômeno, que a literatura sociológica chama de tourism gentrification, carrega uma ambiguidade: visibilidade econômica para a comunidade e, simultaneamente, risco de espetacularização de um território que ainda carece de saneamento básico pleno e mobilidade urbana digna.
O mural como termômetro do senso de pertencimento
Para muitos moradores jovens da Rocinha, esta é a primeira Copa do Mundo vivenciada com esse tipo de manifestação coletiva de rua. O projeto trouxe crianças para brincar na calçada e famílias para os registros fotográficos compartilhados nas redes sociais — comportamentos que os estudos de coesão social associam diretamente à redução de conflitos intracomunitários em períodos de alta tensão urbana. A socióloga Jessé Souza argumenta que a festa popular no Brasil não é alienação: é produção ativa de identidade coletiva num país em que o Estado historicamente nega reconhecimento simbólico às periferias.
O que o legado deste mural exige que aconteça depois da Copa
A Copa do Mundo começa em junho de 2026. O mural da Via Ápia estará lá nos jogos do Brasil, servindo de pano de fundo para transmissões ao vivo e stories de turistas. A pergunta que fica — e que merece resposta das secretarias municipais de cultura e esporte do Rio — é se haverá política pública para preservar e expandir iniciativas como essa depois que as câmeras forem embora. A Prefeitura do Rio tem até o encerramento do Mundial para apresentar um programa de fomento às artes de rua em territórios periféricos que não dependa do calendário da FIFA para existir.








