Diz-se que o Milan de Allegri tem a quarta posição confortavelmente assegurada na Serie A 2025/26. Na verdade, não tem — e a margem de dois pontos sobre o quinto colocado, a apenas duas rodadas do fim, torna este domingo no Luigi Ferraris uma das tardes mais tensas da temporada rossonera.
A Serie A que chegou ao limite e ainda não terminou
Quando se acompanha o futebol italiano de perto — e quem passou anos entre Barcelona e Londres aprende a calibrar o peso específico de cada liga europeia —, percebe-se que a Serie A tem uma crueldade particular na reta final. Não é a brutalidade física da Premier League nem a elegância tática da La Liga; é uma espécie de suspense cinematográfico que se estende até a última rodada. Nesta temporada, o enredo chegou ao capítulo penúltimo com o Milan precisando confirmar matematicamente o que ainda não está garantido: uma vaga na Champions League 2026/27.
Com 68 pontos em 36 rodadas, os Rossoneri dividem a quarta colocação com a Roma, que também soma 67 pontos — a fonte consultada aponta variação de uma unidade conforme o momento da apuração —, enquanto o Como, em sexto, aparece com 65. O cenário é simples na matemática e complexo na pressão: qualquer deslize abre espaço para que Roma ou Como ultrapassem o Milan na última jornada.
O Genoa que não tem nada a perder e tudo a testar
Do outro lado, o Genoa de Daniele de Rossi chega ao Luigi Ferraris — seu estádio, sua despedida de temporada diante da torcida — numa posição que os ingleses chamariam de dead rubber: 14º lugar, 41 pontos, sem risco de rebaixamento, sem sonho europeu. Para o Milan, essa é a armadilha clássica do futebol continental. Times sem motivação tabular frequentemente jogam com uma leveza perigosa, sem o peso psicológico que paralisa os adversários que têm algo a perder.

A situação técnica do Genoa agrava o cenário ofensivo: a equipe não marca há três partidas consecutivas, com dois empates sem gols — contra Fiorentina e Atalanta — e uma derrota por 2 a 0 diante do Como. De Rossi ainda enfrenta quatro desfalques confirmados, entre eles o brasileiro Júnior Messias, fora por lesão muscular, além de Norton-Cuffy, Cornet e Otoa. Baldanzi segue como dúvida. A escalação provável aponta para Bijlow no gol; Marcandalli, Ostigard e Zatterstrom na defesa; e Vitinha como referência ofensiva.
Allegri administra a crise com o elenco que sobrou
Se o Genoa chega limitado, o Milan não está em situação muito mais confortável. Massimiliano Allegri convive com uma lista de ausências que comprometeria qualquer esquema tático sofisticado. Rafael Leão, Saelemaekers e Estupiñán cumprem suspensão automática; Christian Pulisic e Luka Modrić se recuperam de lesões. Num time que chegou a namorar a liderança da Serie A no primeiro turno, perder simultaneamente o criador norte-americano, o veterano croata e o extremo português é o tipo de acúmulo que transforma uma partida teoricamente simples numa equação de gestão de elenco.
A escalação que Allegri deve utilizar no Luigi Ferraris tem Maignan entre os postes; De Winter, Gabbia e Pavlovic na linha defensiva; Fofana, Loftus-Cheek, Ricci, Rabiot e Batersaghi no meio; e a dupla Giménez e Nkunku no ataque. O pressing alto que o Milan tentou impor em boa parte da temporada dependerá, esta tarde, de uma versão mais pragmática — menos gegenpressing à la Klopp, mais controle posicional à la Allegri em suas melhores versões.
O retrospecto que favorece os visitantes
- Milan venceu o Genoa por 2 a 0 no primeiro turno da Serie A 2025/26, no San Siro
- No histórico geral, são 130 confrontos, com 63 vitórias do Milan, 25 do Genoa e 42 empates
- Nos últimos dez jogos entre os clubes, o Milan venceu seis e o Genoa apenas um
Esses números sustentam o favoritismo rossonero, mas não eliminam a variável emocional de um time que joga em casa na despedida de sua torcida. Nas palavras que circulam nos bastidores do clube genovês, De Rossi quer que seus jogadores encerrem a temporada com dignidade — e no futebol italiano, dignidade muitas vezes se traduz em resultado.
O que um tropeço significa além dos pontos
Há uma dimensão que vai além da tabela e que qualquer correspondente que cobriu o futebol europeu reconhece imediatamente: a Champions League não é apenas uma competição, é um ecossistema financeiro. Para o Milan, ficar de fora da edição 2026/27 significaria perder receitas que, segundo projeções da UEFA para os clubes classificados, ultrapassam facilmente os 50 milhões de euros na fase de liga — sem contar as cotas de desempenho e os direitos de transmissão. É o tipo de impacto que remodela janelas de transferência e projetos de médio prazo.
Allegri, que já viveu pressões semelhantes em Turim com a Juventus, sabe que partidas assim exigem mais gestão emocional do que inovação tática. "O grupo está concentrado e sabe o que está em jogo", é o tipo de mensagem que costuma circular nos dias que antecedem confrontos desta magnitude no futebol italiano — e desta vez, o silêncio calculado do treinador piemontês diz mais do que qualquer declaração formal.
A partida entre Genoa e Milan começa às 7h (horário de Brasília) deste domingo, 17 de maio, no Luigi Ferraris, em Gênova, com arbitragem de Simone Sozza. Na rodada final, marcada para o próximo fim de semana, o Milan ainda terá mais um compromisso para confirmar — ou lamentar — a vaga que quase perdeu por dois pontos.










