— Meu pai, você viu o placar? Três a zero, nem precisou de quinto set.
— Claro que vi. Mas o que me espanta não é o 3 a 0. É que o adversário também é de Minas.
— Então quer dizer que Minas Gerais ganhou de qualquer jeito?
— Exatamente. Já faz tempo que é assim.

No Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, no domingo 3 de maio de 2026, o Dentil/Praia Clube, de Uberlândia, encerrou a Superliga Feminina 2025/26 com uma vitória incontestável por 3 a 0 sobre o Gerdau Minas, de Belo Horizonte. A final foi paulistana no endereço, mas mineira na alma — a terceira vez em que os dois clubes do Triângulo e da capital mineira disputaram o título entre si nos últimos anos.

Quem se beneficia diretamente

O Dentil/Praia Clube é o maior beneficiário imediato. Com este título, o clube de Uberlândia chega a três conquistas da Superliga Feminina — 2017/18, 2022/23 e agora 2025/26 —, tornando-se o time mais vitorioso da competição na era recente. Reparemos no detalhe: nas oito temporadas entre 2017/18 e 2025/26, apenas dois clubes venceram a Superliga Feminina, e ambos são mineiros. O Gerdau Minas somou ao menos um título nesse intervalo, enquanto o Praia Clube acumula três. A hegemonia regional não é acidente — é projeto.

A Superliga Feminina foi criada na temporada 1994/95, herdando a tradição do Campeonato Brasileiro e da Liga Nacional que dominaram as décadas de 1970 e 1980. Nos primeiros anos, São Paulo reinava: Ribeirão Preto foi campeão em 1993/94, e o estado paulista acumulou troféus até o início dos anos 2000. O que ocorreu a partir de 2017/18 representa uma inversão estrutural de poder, não uma oscilação de curto prazo.

Quem perde

O Gerdau Minas sai derrotado da final, mas o maior perdedor do quadro geral é o vôlei paulista. O Osasco/São Cristóvão Saúde quebrou o jejum estadual ao vencer a edição 2024/25 — a única interrupção na sequência mineira desde 2017/18 —, mas a resposta do Praia Clube veio imediata, na temporada seguinte, com um 3 a 0 que não deixou margem para debate. A temporada 2019/20 ficou sem campeão por conta da pandemia de Covid-19, o que torna o levantamento ainda mais revelador: das edições efetivamente concluídas desde 2017/18, Minas Gerais venceu todas, menos uma.

Conforme levantamento do SportNavo, nenhum clube do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul ou do Paraná chegou sequer à final da Superliga Feminina nos últimos quatro anos. O mapa do poder no vôlei feminino brasileiro encolheu geograficamente até caber dentro das fronteiras de um único estado.

O efeito dominó nas próximas semanas

Com o encerramento da Superliga 2025/26, o mercado de transferências do vôlei feminino nacional entra em ebulição. Clubes como Osasco e São Paulo/Barueri precisarão avaliar seus elencos e comissões técnicas diante de mais uma final disputada sem a presença paulista. O Gerdau Minas, por sua vez, enfrenta a pressão de ter chegado à decisão pela segunda ou terceira vez recente sem converter em título — o que historicamente provoca mudanças de elenco nas posições de maior responsabilidade, especialmente nas centrais e na levantadora.

O Praia Clube, campeão, terá de administrar o interesse de clubes europeus e sul-americanos por suas atletas de destaque. O vôlei feminino brasileiro exporta regularmente para a Itália, a Turquia e a China, e uma campanha de título costuma acelerar negociações que já estavam em curso. A janela de transferências internacionais se abre formalmente em junho, e o elenco uberlandense deverá sofrer ao menos duas ou três baixas de peso antes do início da próxima temporada.

O quadro geral que se desenha

A hegemonia mineira no vôlei feminino lembra, em estrutura, o que o futebol gaúcho viveu entre os anos 1970 e 1980, quando Grêmio e Internacional alternavam títulos nacionais sem que qualquer outro estado conseguisse interromper o ciclo por mais de uma temporada. A diferença é que, no vôlei, a concentração é ainda mais pronunciada: dois clubes da mesma unidade federativa disputaram a final da principal competição do país no mesmo ano, no ginásio de outro estado.

Há um componente técnico nessa dominância que vai além do investimento financeiro. O modelo de jogo do Praia Clube — com bloqueio alto, recepção organizada e transição rápida para o ataque — funciona como um temporal que não avisa trovão: quando o adversário percebe a intensidade, já está sob a chuva. A consistência tática ao longo de três títulos em menos de dez anos indica continuidade de projeto, não sorte de calendário.

Quem perde Minas Gerais engoliu o vôlei feminino na
Quem perde Minas Gerais engoliu o vôlei feminino na

A análise do SportNavo sobre os campeões da Superliga Feminina desde sua fundação, em 1994/95, mostra que nenhum estado concentrou tantos títulos em tão pouco tempo quanto Minas Gerais fez entre 2017 e 2026. São Paulo dominou os primeiros anos da competição, mas nunca com a regularidade bimestral que os mineiros exibem agora. A próxima temporada, 2026/27, começa com o Praia Clube na condição de favorito declarado — e com o Gerdau Minas motivado pela derrota de 3 a 0 a construir o elenco que finalmente quebre esse ciclo.