O avião fretado pela presidente do Palmeiras, Leila Pereira, pousou em Assunção na tarde de domingo com uma delegação que, há dois anos, disputava a Série B do Campeonato Brasileiro. A bordo, o Mirassol — 9 pontos, liderança isolada do Grupo G, e uma vaga nas oitavas da Libertadores ao alcance de uma vitória.
A campanha que colocou o Mirassol no topo do Grupo G
Três vitórias em quatro rodadas construíram uma liderança que nenhum analista projetava em março. O marco mais recente foi o 2 a 0 sobre o próprio Always Ready no Maião, em 29 de abril, diante de 5.403 pagantes que geraram renda de R$ 125.780. Eduardo abriu o placar aos 9 minutos do primeiro tempo, após assistência de Alesson. No segundo, Alesson selou a vitória com um golaço após jogada individual de Carlos Eduardo pela direita — drible, caneta e passe milimétrico. O resultado foi construído mesmo com João Victor expulso aos 40 do segundo tempo.
O técnico Rafael Guanaes tem operado com pragmatismo tático. Sem o zagueiro Lucas Oliveira por suspensão naquele jogo, recalibrou para dois zagueiros e quatro homens no meio — e o time respondeu com dominância territorial. A equipe acumula, na temporada continental, um padrão de eficiência ofensiva que supera clubes com orçamentos dez vezes maiores.
LDU e Lanús, ambos com 6 pontos, se enfrentam na rodada de quarta-feira. Se o Mirassol vencer hoje e os dois não empatarem entre si, a classificação é matemática com uma rodada de antecedência — cenário que o clube jamais viveu em nenhuma competição continental.
A vantagem geopolítica que a Conmebol entregou ao Leão
A crise política boliviana reescreveu a logística desta quinta rodada de forma favorável ao time paulista. Desde o início de maio, trabalhadores bolivianos exigem reajustes salariais, estabilização econômica e a renúncia do presidente Rodrigo Paz. Mais de 50 manifestantes foram presos no fim de semana anterior ao jogo, forçando a Conmebol a agir. A entidade transferiu a partida para o Estádio Tigo La Huerta, em Assunção, dois dias antes da bola rolar — sem público, sem altitude.
O Estádio Municipal de El Alto, sede original do Always Ready, fica a mais de 4.100 metros acima do nível do mar. Nenhum clube brasileiro venceu uma partida oficial naquele endereço. Em Assunção, a altitude é praticamente zero. O clube boliviano, por sua vez, nunca venceu uma partida oficial fora do seu país — dado que, combinado ao campo neutro, elimina praticamente todos os trunfos do adversário.
"Em momentos difíceis para a Bolívia, o futebol fica em segundo plano", declarou o Always Ready em nota oficial, reconhecendo implicitamente as condições adversas do duelo.
A delegação mirassolense soube da mudança na manhã de domingo, horas antes de embarcar para La Paz. Cancelou reservas em La Paz, reorganizou hotel e centro de treinamento em Assunção — e decolou no mesmo avião fretado, sem custos adicionais de passagens comerciais. Na avaliação do SportNavo, a capacidade logística de um clube do interior lidar com uma mudança de país em menos de 48 horas diz muito sobre a maturidade administrativa que a diretoria construiu nos últimos três anos.
Quanto vale, em termos financeiros, eliminar o fator altitude de uma partida eliminatória?
O que falta ao Mirassol para fechar o negócio em Assunção
O técnico Rafael Guanaes vai a campo sem Negueba e Igor Formiga, ambos no departamento médico. André Luis é dúvida. A provável escalação aponta para Walter; Daniel Borges, João Victor, Wanderson Machado e Reinaldo; Neto Moura, Denilson e Chico Eduardo; Shaylon, Alesson e Edson Carioca. O Always Ready, sob comando de Marcelo Straccia, deve atuar com força máxima — tem apenas 3 pontos e precisa vencer para manter qualquer esperança de classificação, ainda que para a Sul-Americana.
A arbitragem será de José Burgos (URU), com assistentes Pablo Llarena e Hector Bergalo, e VAR de Mathías de Armas — todos uruguaios, equipe sem vínculos com as federações das partes envolvidas.
No plano doméstico, o contraste é gritante: o Mirassol ocupa a penúltima colocação do Brasileirão 2026, o que coloca pressão sobre o orçamento — a receita da Libertadores (cotas de participação, premiações por vitória e classificação) é variável crítica para o equilíbrio financeiro do clube. Uma vaga nas oitavas representa incremento estimado de US$ 1,5 milhão em cotas da Conmebol, valor que financia boa parte da folha salarial de um semestre para um clube com o porte do Leão.
"O Mirassol busca aproveitar esse contexto favorável para manter o embalo histórico na temporada", registrou a cobertura oficial do clube, sem disfarçar a consciência de que a janela está aberta.
A bola rola às 21h (horário de Brasília) no Tigo La Huerta, com transmissão pelo Paramount+. Uma vitória esta noite e o Mirassol estará nas oitavas da Libertadores — independentemente do que acontecer entre LDU e Lanús na quarta.
Clube do interior paulista, 9 pontos, líder, a 90 minutos de reescrever sua própria história.









