O sol ainda não tinha nascido sobre Merseyside quando a notícia vazou: Mohamed Salah deixaria o Liverpool após quase uma década de gols, lágrimas e glórias. Em 28 de abril de 2026, Anfield perdeu o seu maior artilheiro da era moderna. Mas antes de fechar o livro, é preciso entender o que foi escrito nessas páginas.
De Nagrig ao coração da Europa
Poucos sabem o nome completo: Mohamed Salah Hamed Mahrous Ghaly. Nascido em 15 de junho de 1992, numa cidade pequena chamada Nagrig, no Egito, Salah cresceu longe dos holofotes que hoje iluminam cada passo seu. O caminho até o futebol europeu de alto nível não foi uma linha reta — foi uma estrada cheia de curvas e provas de resistência. Sua passagem pelo Basel, na Suíça, foi onde o mundo começou a prestar atenção: dois títulos seguidos da Superliga Suíça, nas temporadas 2012-13 e 2013-14, sinalizaram que ali havia algo diferente. Um atacante que entendia o jogo com uma clareza desconcertante para sua idade.

A Europa grande virou palco obrigatório. E quando o Liverpool o trouxe para a Premier League, o que aconteceu foi além de qualquer projeção razoável. Anfield virou sua casa. E o camisa 11 passou a ser sinônimo de decisão.
Os números que o jogo não esquece
Existe uma tentação enorme de reduzir Salah a uma tabela de estatísticas. Mas os números, nesse caso, são tão absurdos que merecem ser olhados com calma. Na temporada 2024-25, foram 43 jogos, 31 gols e 19 assistências — um ano que muitos analistas já classificam como o melhor da carreira dele em termos de eficiência. Em 2023-24, outros 35 jogos, 20 gols e 10 assistências. Uma consistência que a maioria dos atacantes do planeta jamais sustentaria por dois anos seguidos.
Uma análise do SportNavo dos dados mais recentes aponta que, na temporada corrente (2025-26), Salah soma 27 jogos, 8 gols e 7 assistências — números menores em parte por conta do calendário e da natureza fragmentada da competição até aqui, mas que ainda o mantêm entre os jogadores mais decisivos do elenco dos Reds. Ao longo de sua passagem por Anfield, chegou à marca de 257 gols com a camisa vermelha, um número que vai ficar gravado na história do clube.
Esses dados, levantados pelo SportNavo a partir das temporadas disponíveis, mostram um padrão raro: um atacante que não apenas manteve seu nível, mas elevou sua produção com assistências à medida que os anos passaram. Em 2024-25, as 19 assistências foram quase tão impactantes quanto os gols. Salah parou de ser apenas um finalizador para se tornar um organizador de jogo pela direita.
Como ele joga — e por que funciona
Com 175 cm e 71 kg, Salah não impressiona à primeira vista no vestiário. O que impressiona está no campo. Atuando como ponta-direita, ele opera numa diagonal que virou uma marca registrada: corta para o meio com o pé esquerdo e finaliza com precisão cirúrgica. A velocidade é uma arma, mas o que diferencia Salah da maioria dos atacantes rápidos é o timing — ele sabe exatamente quando acelerar, quando segurar, quando servir.
Na temporada 2024-25, com 31 gols e 19 assistências em 43 jogos, ficou claro que ele evoluiu taticamente. Não é mais apenas o cara que entra em diagonal e chuta. É o jogador que lê o espaço, atrasa a bola quando precisa e aparece na segunda trave quando o adversário espera pela diagonal de sempre. Essa imprevisibilidade dentro de um padrão reconhecível é o que faz treinadores dormirem mal antes de enfrentá-lo.
Títulos que pesam no currículo
A prateleira de conquistas pelo Liverpool é longa e variada. Em 2018-19, a Liga dos Campeões da UEFA — o sonho de todo futebolista europeu — chegou com a camisa vermelha. Logo depois, em 2019, vieram a Supercopa da UEFA e a Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Em 2019-20, o título da Premier League encerrou uma espera de 30 anos do clube. Depois, a Copa da Liga Inglesa em 2021-22 e 2023-24, a Copa da Inglaterra em 2021-22, a Supercopa da Inglaterra em 2022 e, como ponto final perfeito, outro título da Premier League em 2024-25 — o último com a camisa de Anfield.
Pelo Egito, Salah é o rosto da seleção egípcia — não há outro nome que represente tanto o futebol do país ao mundo. Cada Copa das Nações Africanas, cada eliminatória da Copa do Mundo, passa pelo seu pé esquerdo.
O que vem depois de Anfield
Com 33 anos e uma saída confirmada do Liverpool em abril de 2026, Salah entra numa fase que poucos atacantes navegam bem: a da reinvenção. Os dados da temporada atual (27 jogos, 8 gols, 7 assistências) mostram um jogador ainda produtivo, mas em contexto de transição — seja pelo momento do clube, que planeja uma reestruturação significativa após gastos de 480 milhões e resultados aquém do esperado, seja pelo próprio ciclo natural de carreira.
Nos próximos 12 meses, os cenários realistas passam por ligas com apelo financeiro e competitivo — o futebol árabe tem mostrado capacidade de atrair nomes desse porte, e o mercado europeu não descarta uma última aventura em outro grande clube. O que os números sugerem é que Salah ainda tem fôlego para ser decisivo. A questão não é se ele consegue jogar em alto nível — os 8 gols e 7 assistências em 27 jogos nesta temporada provam que sim. A questão é onde ele vai querer escrever o próximo capítulo.
Uma coisa, no entanto, já está definida: os 257 gols em Anfield não serão apagados. Nenhum uniforme novo faz isso. Salah vai embora, mas o eco daqueles chutes, daquelas corridas pela direita, daqueles gritos da torcida no estádio à beira do Mersey — esses ficam para sempre.









