Confesso: eu subestimei o Coritiba nesta reta de maio. Minha leitura era de que o clube paranaense, após duas derrotas consecutivas, entraria em colapso emocional diante do Internacional neste sábado (9). Errei. O Couto Pereira entregou 93 minutos que desafiaram qualquer planilha.

O placar final de 2 a 2, válido pela 15ª rodada do Campeonato Brasileiro, foi construído sobre três ingredientes que nenhum analista consegue modelar com antecedência: um erro coletivo de zaga, a memória afetiva de um ex-jogador e um zagueiro colombiano que apareceu na área adversária quando o jogo já estava tecnicamente encerrado.

Corinthians - Sao Paulo

O roteiro do primeiro tempo favoreceu o Coxa

O gramado pesado do Couto Pereira, encharcado pela chuva, contribuiu para um jogo de transições curtas e disputa física intensa. Aos 15 minutos, Pedro Rocha saiu cara a cara com Rochet — o goleiro uruguaio do Inter fez a intervenção mais importante da primeira etapa. A pressão coxa-branca se converteu em gol aos 28 minutos: Joaquín Lavega recebeu lançamento em profundidade, invadiu a área pela esquerda e bateu cruzado sem dar chances ao goleiro.

O Inter foi para o intervalo em desvantagem, mas com dados confortantes: havia criado ao menos duas situações de perigo e mantinha posse no campo ofensivo. A análise de desempenho por pressão alta indicava que o Colorado estava mais organizado do que o placar sugeria.

Lambança, lei do ex e o empate que custou caro ao Coritiba

Na volta do intervalo, o Internacional adiantou as linhas e passou a sufocar os donos da casa. Aos 14 minutos do segundo tempo, Pedro Rangel operou defesa providencial em cabeçada de Félix Torres — lance que, retrospectivamente, ganhou peso dramático. O empate coloradosaiu aos 23 minutos por meio de um erro coletivo difícil de categorizar: após chute de fora da área, a bola ficou viva na pequena área. Nem o zagueiro Jacy nem o goleiro Rangel foram com convicção na jogada, e Rafael Borré empurrou para as redes praticamente sem marcação.

"Após sobra de bola dentro da área do Coxa, nem os zagueiros e nem o goleiro foram na jogada e acabaram deixando o atacante do Inter livre para finalizar de leve", descreveu a cobertura do UOL Esporte.

O que para o zagueiro argentino é leitura de jogo automática — a tomada de decisão sobre quem vai na bola dividida —, para o futebol sul-americano de pressão intensa frequentemente se transforma em omissão coletiva, como ficou evidente no lance de Borré. A Premier League resolve esse tipo de situação com regras de comunicação defensiva treinadas à exaustão; no Brasileirão, o erro ainda é sistêmico.

Mas foi aos 39 minutos que o jogo ganhou seu momento mais simbólico. Rodrigo Moledo, zagueiro que defendeu o Internacional por anos antes de assinar com o Coritiba, subiu mais alto que toda a defesa colorada após cruzamento de Tinga e cabeceou firme para fazer 2 a 1. A lei do ex, fenômeno estatisticamente documentado no futebol europeu e que os clubes brasileiros ainda tratam com superstição em vez de dados, se cumpriu no Couto Pereira.

"Rodrigo Moledo subiu mais que a defesa colorada e testou firme", registrou a Placar, sintetizando o lance que parecia selar a vitória paranaense.

Aos 44 minutos, Renato Marques carimbou o travessão em jogada que poderia ter encerrado qualquer discussão. O lance desperdiçado custou um ponto inteiro ao Coritiba.

Torres nos acréscimos e o impacto imediato na tabela do Brasileirão

Aos 51 minutos do segundo tempo — já fora do tempo regulamentar —, Vitinho invadiu a área e chutou. Rangel espalmou. No rebote, Félix Torres apareceu livre para empurrar e decretar o 2 a 2. Segundo apuração do SportNavo, foi o quarto gol sofrido pelo Coritiba nos últimos 10 minutos de partidas nesta edição do Brasileirão — padrão que merece atenção do departamento técnico coxa-branco.

A distribuição de pontos após o empate ficou assim na tabela:

  • Coritiba — 20 pontos (perdeu chance de colar no pelotão de frente)
  • Internacional — 18 pontos (evitou perder terreno crítico na classificação)

Para o Inter, o ponto arrancado em Curitiba tem valor de cálculo simples: a diferença de dois pontos para o Coritiba seria mais difícil de recuperar do que os atuais dois pontos negativos. Para o Coritiba, o custo de oportunidade é concreto — dois pontos desperdiçados nos minutos finais representam uma posição na tabela que pode separar o clube de uma zona de classificação para competições sul-americanas na reta final da temporada.

As duas equipes retornam a campo pela Copa do Brasil nesta semana. O Internacional recebe o Athletic-MG na terça-feira (12), às 19h30, no Beira-Rio. O Coritiba enfrenta o Santos na quarta-feira (13), também às 19h30, no Couto Pereira — com a obrigação de não repetir a fragilidade defensiva dos minutos finais que custou a vitória neste sábado.