Diz-se que a disputa pelo controle da SAF do Botafogo é, em sua essência, uma briga de egos. Na verdade, o que os números revelam é algo mais preocupante — o clube acumula três transfer bans consecutivos, uma restrição que, no jargão da FIFA, impede o registro de novos jogadores e congela qualquer planejamento esportivo de médio prazo. Não é uma guerra de palavras. É uma crise de governança com consequências mensuráveis no campo.
A estocada de Montenegro e a resposta com sotaque texano
Na quarta-feira, 13 de maio de 2026, Carlos Augusto Montenegro escalou o tom e chamou John Textor publicamente de "covarde" — palavra que, no vocabulário do ex-presidente do clube, carrega o peso de anos de atrito societário. A resposta do empresário norte-americano não demorou. Pelas redes sociais, Textor devolveu a provocação com uma ironia que misturava sarcasmo e autoconfiança:
"O ausente na Bola de Ouro está me chamando de covarde? Já fui chamado de muitas coisas, mas 'covarde' nunca foi uma delas. Carlos, por que não segue meu exemplo, mude-se para os Estados Unidos, onde você nem fala a língua, compre o Dallas Cowboys e conquiste um troféu do Super Bowl? Aí você pode me chamar de covarde."
A referência à Bola de Ouro não é trivial. Textor protagonizou, em outubro de 2024, uma das maiores controvérsias do prêmio ao questionar publicamente o resultado que consagrou Rodri, do Manchester City, em detrimento de Vinícius Jr. — e Montenegro não compareceu à cerimônia em Paris. O detalhe, recuperado por Textor como munição retórica, revela o quanto essa disputa personal izada vai além das planilhas societárias.
O precedente que o Botafogo conhece de cor
Brigas de bastidor que paralisam clubes não são novidade na história do futebol brasileiro. O Vasco da Gama viveu episódio análogo entre 2021 e 2022, quando a transição para o modelo SAF emperrou por meses em disputas entre facções do clube associativo, atrasando aportes e comprometendo a montagem do elenco. O Botafogo, curiosamente, foi pioneiro no modelo SAF justamente para fugir desse tipo de paralisia — e agora reproduz o roteiro que pretendia evitar. A diferença estrutural é que, no caso alvinegro, o conflito envolve dois atores externos ao clube social: Textor, afastado do poder por um tribunal constituído, e Montenegro, que deixou a presidência mas mantém influência política dentro da agremiação.
Na avaliação do SportNavo, o que torna este impasse particularmente custoso é o que os analistas de gestão esportiva chamam de win shares institucionais — uma métrica que mensura o quanto cada decisão administrativa se traduz em pontos conquistados em campo. Para o leigo: cada semana de incerteza sobre registros, contratações e fluxo de caixa equivale a uma fração de desempenho esportivo perdida. Com três transfer bans acumulados, o Botafogo opera há meses com o freio de mão puxado.
Textor anuncia acordo com a Ares e pede bênção ao clube social
Depois do revide a Montenegro, Textor mudou o registro e, no mesmo post, anunciou um movimento concreto: um entendimento com a Ares, empresa que figura como parte no imbróglio societário, para encerrar a disputa interna da Eagle Football Holdings. O empresário foi direto:
"As disputas dentro da Eagle afetaram o Botafogo por muito tempo. Assim como a obstrução de uma pequena facção dentro do clube social. Agora posso relatar um entendimento com a Ares para encerrar a disputa, trazer capital para acabar com as proibições de transferência e permitir que Lyon e Botafogo sigam caminhos separados. Precisamos da bênção do clube social, que solicitarei respeitosamente amanhã, e estaremos perseguindo troféus mais uma vez."
O anúncio separa dois problemas que vinham sendo tratados como um só: a disputa societária na holding Eagle Football, que envolve o Olympique de Lyon e outras franquias, e a questão dos transfer bans, cujo desbloqueio dependeria exatamente do aporte de capital prometido pelo acordo com a Ares. A separação entre Lyon e Botafogo, se confirmada, representaria uma ruptura definitiva com o modelo de multipropriedade que Textor defendeu desde 2022.
A torcida paga a conta de uma guerra que não escolheu
O campeão brasileiro de 2023 e campeão da Libertadores de 2024 — datas que a torcida alvinegra recita como catecismo — assiste ao início do Brasileirão 2026 com o elenco engessado pela impossibilidade de registrar reforços. A ironia é cruel: o clube que mais evoluiu institucionalmente no futebol brasileiro na última década se encontra preso numa disputa que lembra, em seus piores momentos, os conselhos deliberativos dos anos 1990, quando futebol e política se misturavam sem nenhuma regra clara de separação.
Montenegro e Textor continuam trocando farpas públicas enquanto o relógio da janela de transferências corre. O pedido formal de Textor ao clube social está marcado para esta quinta-feira, 14 de maio — e a resposta dos conselheiros determinará se o capital prometido pelo acordo com a Ares chegará a tempo de destravar os registros antes que o Brasileirão 2026 perca mais rodadas com um elenco incompleto.
A guerra de bastidores tem data para acabar — ou o Botafogo paga o preço no Brasileirão.








