Não foi a torcida que derrubou John Textor — foi a aritmética. O empresário norte-americano que chegou ao Botafogo em 2022 prometendo transformar o clube numa franquia global de futebol foi afastado definitivamente da Eagle Football Holdings Bidco, controladora de 90% das ações da SAF alvinegra, não por pressão das arquibancadas nem por campanha nas redes sociais, mas por uma sequência de decisões financeiras que seus próprios sócios na Eagle já não conseguiam justificar. O ex-presidente Carlos Augusto Montenegro, figura de peso nos bastidores do clube, foi o primeiro a tornar público o desfecho, numa gravação divulgada nesta terça-feira, 5 de maio de 2026.

A narrativa do visionário e o que os números dizem sobre o Botafogo

Durante quase quatro anos, circulou no futebol brasileiro uma leitura sedutora sobre John Textor: a de que ele era o modelo de investidor que o futebol nacional precisava, um empreendedor disposto a aportar capital real num clube historicamente descapitalizado. O Botafogo de 2022 acumulava dívidas, vivia sob intervenção e havia acabado de perder o acesso à Série A de forma traumática. Textor chegou com discurso de longo prazo, estrutura de multipropriedade — com Lyon, Crystal Palace e RWD Molenbeek — e a promessa de que o Botafogo seria o eixo sul-americano do projeto.

O que os dados da gestão revelam, porém, é uma trajetória diferente. O clube conquistou o Campeonato Brasileiro de 2024, a Copa Libertadores e participou do Mundial de Clubes — títulos que geraram receitas expressivas em premiações e direitos comerciais. Segundo apuração do SportNavo, esses recursos, em vez de serem reinvestidos no elenco carioca, foram direcionados para cobrir passivos do Olympique Lyonnais, clube que Textor adquiriu em 2023 e que enfrentou grave crise financeira na temporada 2024/2025, chegando a ser ameaçado de rebaixamento na Ligue 1.

"Infelizmente, em 2025, e neste início de 2026, ele provou que gosta mais de dinheiro e do Lyon do que de nós. Vendeu oito jogadores que foram campeões. Os reservas também. O dinheiro mandou tudo para o Lyon. Pegou o prêmio da Libertadores, do Brasileiro e da Copa do Mundo de Clubes e mandou tudo para a França. Deixou o Botafogo muito mal. Acho que ele era mais Lyon que Botafogo", afirmou Montenegro na gravação.

A venda de oito jogadores titulares do elenco campeão — cujos nomes ainda não foram todos formalizados publicamente, mas cuja saída em bloco desarticulou o time — é o dado mais concreto dessa inversão de prioridades. Clubes que constroem projetos esportivos sustentáveis reinvestem entre 40% e 60% das receitas de transferência no próprio plantel, segundo benchmarks do relatório anual da UEFA sobre finanças do futebol europeu. No caso do Botafogo pós-título, a lógica foi outra.

O afastamento pelo Tribunal Arbitral da FGV e a perda do poder de voto

O processo que culminou no afastamento de Textor seguiu dois trilhos paralelos. Na semana anterior a esta terça-feira, o Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas afastou formalmente Textor do comando operacional da SAF Botafogo — decisão que ainda tramita naquele tribunal constituído. Em seguida, a Justiça retirou da Eagle Football o poder de voto em assembleias do clube, medida que, na prática, transferiu ao sócio associativo — detentor de 10% das ações do futebol — a responsabilidade de conduzir a busca por um novo investidor.

Montenegro antecipou nesta terça-feira que o afastamento pelos próprios sócios da Eagle é definitivo, o que configura uma ruptura interna à estrutura de governança da holding, não apenas uma decisão judicial. Essa distinção importa: significa que Textor perdeu a confiança dos parceiros de negócio antes de esgotar os recursos legais para contestar as decisões dos tribunais brasileiros.

"Soubemos que, finalmente, os sócios do Textor na Eagle o afastaram definitivamente. Textor não tem mais nada a ver com a SAF Botafogo", declarou Montenegro.

A GDA Luma figura como principal candidata a assumir o controle da SAF alvinegra. A empresa, cujos detalhes do grupo controlador e capacidade de aporte ainda não foram integralmente divulgados, precisará apresentar garantias financeiras ao sócio associativo e, eventualmente, ao tribunal arbitral que acompanha o caso. O prazo e as condições dessa transição ainda não foram tornados públicos.

O legado estrutural de Textor e o que o Botafogo herda desta gestão

Avaliar o legado de uma gestão esportiva exige separar conquistas simbólicas de sustentabilidade institucional. Textor entregou ao Botafogo dois títulos de expressão continental e nacional em 2024 — feitos que nenhum torcedor alvinegro vai riscar da memória — mas o fez sobre uma estrutura financeira que, segundo os próprios dirigentes históricos do clube, foi deixada em condições precárias ao final do ciclo.

O modelo de multipropriedade que Textor representava já vinha sendo questionado por reguladores europeus e pela própria FIFA, que em 2023 e 2024 debateu restrições à participação de clubes com controladores comuns em competições internacionais. O Lyon e o Botafogo chegaram a ser investigados pela UEFA quanto a potenciais conflitos de interesse em competições europeias. No Brasil, a Lei das SAFs, sancionada em 2021, ainda carece de mecanismos robustos de fiscalização sobre fluxo de caixa intercompanhias — lacuna que o caso Textor torna urgente de ser endereçada pelo Legislativo.

Para o torcedor botafoguense, a conta imediata é um elenco esvaziado, receitas de títulos que não foram reinvestidas localmente e uma transição de controle acionário que pode se arrastar por meses enquanto o clube disputa o Brasileirão 2026. O Botafogo de Artur Jorge — que conquistou a Libertadores em novembro de 2024 — não existe mais como conjunto: o técnico português deixou o clube, e a maioria dos jogadores que protagonizaram aquela campanha já atuam em outros países.

A narrativa do visionário e o que os números dizem sobre o Botafogo Montenegro d
A narrativa do visionário e o que os números dizem sobre o Botafogo Montenegro d

A próxima etapa concreta é a formalização da negociação com a GDA Luma, que depende de aprovação do sócio associativo e de validação pelo Tribunal Arbitral da FGV. Enquanto esse processo não se conclui, o Botafogo entra em campo no Brasileirão 2026 sob gestão interina, com orçamento comprimido e sem definição sobre quem assina a próxima janela de transferências.

O Botafogo é campeão da América. A SAF que o tornou campeão não existe mais.