Diz-se que o Real Madrid é o clube que mais vence na história do futebol europeu. Tecnicamente, sim — 15 títulos da Champions League confirmam isso. Mas nos últimos dois anos, o clube não conquistou um único troféu de peso, e esse vácuo é o dado que explica por que Florentino Pérez está disposto a romper um contrato vigente até 2027 para trazer José Mourinho de volta ao Santiago Bernabéu.

A crise que abriu a porta para Mourinho no Real Madrid

A temporada 2025/2026 do Real Madrid termina com o clube em situação incomum para seus padrões históricos: sem La Liga, sem Champions League e com um episódio de vestiário que expôs fraturas no elenco. A discussão entre Federico Valverde e Aurélien Tchouaméni durante um treino em Valdebebas gerou repercussão interna suficiente para acelerar decisões que a diretoria já vinha postergando. Florentino Pérez, mesmo pressionado por torcedores e parte da imprensa espanhola, declarou que permanece no cargo e assumiu pessoalmente a condução do processo de escolha do próximo técnico.

Mourinho é o nome prioritário da lista merengue. Segundo a imprensa europeia, os detalhes finais da negociação devem ser definidos após o encerramento de La Liga. O Benfica, clube onde o português trabalha atualmente com contrato até 2027, não deve representar um obstáculo intransponível para a diretoria madridista, que já mapeou os termos de uma possível rescisão.

Quem sai ganhando com a volta do português

A chegada de Mourinho beneficia diretamente o setor defensivo do elenco. O técnico tem histórico documentado de transformar médias defensivas: no Inter de Milão da temporada 2009/2010, o clube sofreu apenas 20 gols em 38 rodadas do Campeonato Italiano, conquistando o triplete. Na primeira passagem pelo Real Madrid, entre 2010 e 2013, o clube conquistou La Liga 2011/2012 com 100 pontos — recorde histórico da competição até então. Jogadores de perfil mais pragmático, como Tchouaméni e Antonio Rüdiger, tendem a se encaixar melhor num sistema que valoriza posicionamento e disciplina tática do que em esquemas de alta pressão.

A diretoria também sai fortalecida politicamente. Ao optar por um nome de reputação global, Florentino sinaliza que a reconstrução passa por autoridade técnica reconhecida — e não por apostas em projetos experimentais. Internamente, Mourinho é visto como um gestor capaz de reorganizar o ambiente, segundo fontes próximas ao clube citadas pela imprensa espanhola.

Quem perde espaço e por que isso importa

A escolha por Mourinho não é consenso. Iker Casillas, ídolo histórico do clube e campeão da Champions League em 2000, 2002 e 2014 com a camisa merengue, foi categórico em sua avaliação publicada no X na última terça-feira (12 de maio):

"Não tenho nenhum problema com Mourinho. Parece-me um grande profissional. Não o quero no Real Madrid. Acho que outros treinadores estariam melhor capacitados para treinar no clube da minha vida. Opinião pessoal. Nada mais."

A declaração de Casillas representa um segmento da torcida que associa o estilo Mourinho a um futebol mais reativo do que o clube historicamente pratica. Na primeira passagem, o Real Madrid de Mourinho foi eliminado pelo Barcelona de Pep Guardiola em três das quatro semifinais de Champions League disputadas no período — um dado que alimenta a resistência de parte da base de torcedores.

Jogadores de perfil ofensivo e com liberdade criativa também podem sair perdendo. O sistema de Mourinho historicamente reduz a autonomia dos meias avançados e exige que atacantes participem das fases defensivas. Isso pode gerar atrito com nomes do elenco acostumados a um modelo mais vertical e com menos responsabilidades defensivas.

O efeito cascata nas próximas janelas de transferência

A confirmação de Mourinho no comando deve redesenhar o planejamento do mercado de verão europeu. O técnico tem preferência histórica por laterais disciplinados, volantes de marcação e atacantes que aceitam trabalho posicional. Essa demanda pode redirecionar recursos que estavam destinados a perfis diferentes — e eventualmente acelerar saídas de jogadores cujo estilo não se encaixa no modelo português.

No Benfica, a saída antecipada de Mourinho — caso se confirme antes do término do contrato em 2027 — abre uma crise de planejamento para o clube lisboeta, que precisará reposicionar seu projeto técnico em plena janela de transferências. O impacto não é apenas esportivo: o nome de Mourinho tem peso comercial e midiático que afeta patrocinadores e audiência televisiva.

O Real Madrid encerra a temporada 2025/2026 com os últimos jogos de La Liga nas próximas semanas. Se a negociação seguir o calendário previsto pela diretoria merengue, o anúncio oficial pode ocorrer ainda em junho — Mourinho tem o perfil técnico que Florentino busca. Falta o clube ter o vestiário que o técnico exige.