Três temporadas sem um título relevante e a sombra de um ciclo de Ancelotti que se encerrou sem a grandiosidade esperada: o Real Madrid chega ao final desta temporada com uma urgência que Florentino Pérez conhece bem. Segundo os jornalistas David Ornstein e Mario Cortegana, do The Athletic, o presidente merengue já definiu seu alvo principal para o banco de reservas — e o nome é, no mínimo, cinematográfico: José Mourinho.

A lógica de Florentino e o retorno ao conhecido

Há algo profundamente madridista na escolha de Florentino Pérez. O presidente, que ao longo de décadas construiu seu legado sobre a lógica do galáctico — seja no campo ou no banco —, voltou a operar diretamente pela contratação do treinador, assumindo controle total da operação. No início desta temporada, foi o diretor-geral do clube quem trouxe o nome de Xabi Alonso como alternativa moderna, ligada ao gegenpressing e à escola Guardiola-Klopp. Agora, a decisão passou para as mãos do presidente, que prefere a autoridade simbólica e a experiência comprovada do português.

O movimento não é inédito no clube. Zinedine Zidane retornou ao banco do Real Madrid em 2019, apenas um ano após sua saída. Carlo Ancelotti fez o mesmo em 2021, seis anos depois de ter deixado o Bernabéu. Para o Real Madrid, reciclar nomes do próprio passado é quase uma política institucional — o clube opera com a certeza de que sua grandeza é capaz de reacender qualquer chama.

O legado da primeira passagem e o fantasma da Champions

Entre 2010 e 2013, Mourinho deixou marcas concretas no Santiago Bernabéu: o título da La Liga com recorde de 100 pontos, a Copa del Rey de 2011 — a primeira em 18 anos contra o Barcelona — e a Supercopa da Espanha. Um currículo respeitável em qualquer análise fria. O que permanece como cicatriz, porém, é a UEFA Champions League: o troféu que o Real Madrid respira e que escapou nas semifinais de 2011 e 2012, ambas contra o Bayern de Munique, esta última nas penalidades máximas em Madri.

Segundo Ornstein e Cortegana, do The Athletic, Mourinho é o candidato favorito de Florentino Pérez, que tomará a decisão final sobre o futuro treinador do clube.

Aquela passagem também ficou marcada por tensões internas que raramente aparecem nos números. O confronto público com Pep Guardiola, os atritos com figuras do vestiário como Iker Casillas e Sergio Ramos, e uma gestão emocional que oscilava entre a maestria tática e o caos relacional. Em Londres, onde acompanhei de perto os ciclos de Mourinho no Chelsea e no Manchester United, ficou evidente que o técnico funciona em ciclos curtos de alta intensidade — brilha nos primeiros 18 meses, desgasta nas temporadas seguintes.

O elenco atual e o choque de culturas táticas

O Real Madrid de hoje é um organismo diferente do que Mourinho comandou. Vinícius Júnior, Bellingham, Rodrygo e Mbappé compõem um ataque de liberdade criativa que dificilmente se encaixa no esquema de pressing alto e disciplina posicional rígida que Mourinho exige. O português nunca foi um treinador de tiki-taka nem de verticalidade fluida — sua escola é inglesa na essência: transições rápidas, solidez defensiva, hierarquia clara.

Conforme análise do SportNavo, a tensão mais previsível de um eventual retorno estaria justamente na gestão de um plantel acostumado à autonomia criativa sob Ancelotti. Mourinho precisaria, desde o pré-temporada, redefinir o contrato emocional com jogadores de ego calibrado para palcos do tamanho do Bernabéu.

Concorrentes e o peso da escolha

Mourinho não é o único nome na mesa. Segundo as mesmas fontes do The Athletic, figuras como Mauricio Pochettino, Didier Deschamps, Jürgen Klopp, Lionel Scaloni e Massimiliano Allegri também circulam como possibilidades. Klopp representa a escola do gegenpressing que encantou a Europa pela última década; Deschamps carrega o prestígio de campeão do mundo pela França em 2018; Pochettino tem o DNA europeu e uma comunicação moderna com elencos jovens.

A preferência de Florentino por Mourinho, no entanto, comunica algo além da tática: é uma aposta na autoridade simbólica num momento em que o clube precisa de afirmação. O português, hoje com 62 anos e após sua passagem pela Roma — onde conquistou a Conference League em 2022 e a Europa League em 2023 —, chega com o currículo reforçado e a narrativa de um homem que ressurgiu das cinzas em Itália.

Nas palavras de fontes próximas ao clube, segundo o SportNavo apurou, a decisão de Florentino representa uma virada de rota: do projeto de longo prazo com treinadores jovens para a aposta na autoridade imediata de um nome global.

O Real Madrid deve anunciar oficialmente seu novo treinador até o final de junho, quando se encerra o calendário europeu e se abre a janela de transferências do verão. A primeira missão de Mourinho, se confirmado, seria a pré-temporada nos Estados Unidos — onde o clube tem compromissos de friendly marcados para julho —, momento decisivo para estabelecer a identidade que tentará resgatar o clube ao topo da Europa.