13 anos. Esse é o intervalo entre a última vez que José Mourinho comandou um treino no Valdebebas e o momento em que, segundo o Marca, ele está a 99,9% de reassumir o banco do Real Madrid. Não é um retorno sentimental. É uma decisão de gestão de crise — e a crise é das mais complexas que o clube enfrentou em duas décadas.

O vestiário que três técnicos não conseguiram domar

A temporada 2025/26 do Real Madrid será lembrada pela instabilidade no banco: Ancelotti saiu, Xabi Alonso não durou, Arbeloa herdou um grupo fraturado. Quatro treinadores em menos de 12 meses é uma métrica que, por si só, indica colapso de autoridade — não apenas de resultados.

A briga entre Aurélien Tchouaméni e Federico Valverde dentro do vestiário e a explosão pública de Kylian Mbappé contra Arbeloa após o jogo contra o Oviedo são sintomas de um problema estrutural: ausência de linha hierárquica clara no grupo.

"Já estuvo aquí y elevó nuestro nivel", disse Florentino Pérez em entrevista à La Sexta, ao ser perguntado sobre Mourinho — o único técnico que o presidente mencionou pelo nome na conversa.

A leitura de Florentino é histórica, não apenas conjuntural. O presidente acredita que o período de Mourinho entre 2010 e 2013 — com uma La Liga e uma Copa do Rei conquistadas — foi o alicerce das quatro Champions League entre 2014 e 2018. A tese: Mourinho instalou padrões de exigência que seus sucessores colheram.

O sistema Mourinho diante do elenco de 2026

Mourinho opera, historicamente, em blocos baixos médios com linha de pressão bem definida a partir da metade do campo adversário. Sua compactação defensiva privilegia dois blocos de quatro em fase sem bola, com o pivô — função que Tchouaméni ocupa — como âncora da transição.

O problema tático imediato é Mbappé. O francês exige liberdade de movimentação pelo corredor central e pela esquerda, com início de jogadas desde zonas recuadas. Mourinho, em contrapartida, tende a fixar seus atacantes em posições estruturais, reduzindo a improvisação em favor da transição ofensiva rápida e vertical.

Vinicius Jr. apresenta perfil mais compatível. O brasileiro atua bem em transições de alta velocidade com espaço nas costas da linha defensiva adversária — exatamente o modelo que Mourinho explorou com Cristiano Ronaldo entre 2010 e 2013: bloco baixo, recuperação rápida, saída em velocidade pelo corredor.

  • Bellingham: pode funcionar como meia-atacante com liberdade de entrada na área, papel que Mourinho já usou com Sneijder na Inter de Milão em 2010.
  • Valverde: perfil de box-to-box, altamente compatível com o sistema de dupla função no meio-campo mouro.
  • Tchouaméni: pivô fixo, mas precisará de disciplina posicional estrita — exatamente o ponto onde sua relação com Valverde implodiu.
  • Mbappé: o maior ponto de tensão tática. A relação entre liberdade criativa e estrutura coletiva será o termômetro da temporada.

A comparação que Florentino não disse em voz alta

Em 2010, Mourinho chegou ao Madrid com um elenco igualmente estrelado e igualmente disfuncional. Havia tensão entre Cristiano Ronaldo e Kaká, disputa de protagonismo entre Özil e Xabi Alonso, e um vestiário que Pellegrini não havia conseguido unificar. O diagnóstico era idêntico ao de 2026: talento em excesso, coesão em falta.

A solução de Mourinho naquele ciclo foi impor uma hierarquia de papéis explícita — e brutal. Kaká perdeu espaço. Benzema assumiu função de pivô de apoio. Ronaldo ganhou liberdade estruturada. O Madrid de 2010/11 terminou com 96 pontos na La Liga, recorde histórico à época, usando um 4-2-3-1 com compactação defensiva média e transições em velocidade máxima.

A diferença em 2026 é que Mbappé não tem o perfil de Ronaldo — que, apesar do ego, aceitava as restrições táticas de Mourinho porque os números individuais continuavam crescendo. Mbappé é mais dependente de posse de bola e de construção coletiva. O SportNavo mapeou que o francês registrou, na temporada 2025/26, média de 38,4 toques por jogo — um dos menores entre os atacantes titulares do top-5 europeu, sinal de que sua eficiência cai quando o time não controla o jogo.

"Há pessoas que me ligam e dizem para contratá-lo, e outras que dizem para não fazê-lo", admitiu Florentino, entre risos, ao falar de Mourinho — uma declaração que, em código, confirma a divisão interna no clube.

O que Mourinho precisará resolver antes do primeiro treino

A desvinculação do Benfica custa aproximadamente 3 milhões de euros de compensação — valor considerado irrelevante pela direção madridista. O entrave não é financeiro.

Mourinho terá voz ativa nas contratações e saídas do mercado de verão, segundo as fontes espanholas. Isso significa que a janela de transferências de julho será o primeiro teste real de poder: quem sai define quem manda.

Se Tchouaméni e Valverde permanecerem no mesmo elenco, Mourinho precisará impor uma estrutura de convivência que três técnicos anteriores não conseguiram. No meio-campo, a solução mais provável é separar os dois em posições com menor sobreposição — Valverde mais avançado, Tchouaméni fixo — reduzindo o contato direto durante a fase defensiva.

Como no trânsito da Avenida Paulista às 18h, o problema não é a quantidade de carros — é a ausência de semáforos funcionando. Mourinho é, historicamente, o semáforo mais caro do mercado.

O Real Madrid encerra a temporada 2025/26 no dia 23 de maio. A partir daí, Mourinho deve ser anunciado oficialmente — desde que Florentino Pérez vença as eleições presidenciais abertas na semana passada, cenário que o ABC descreve como praticamente inevitável. O candidato rival, Enrique Riquelme, tem dez dias para apresentar aval e projeto, e sua proposta não incluiria Mourinho. A temporada 2026/27 começa em agosto, com o Real Madrid estreando na La Liga e na fase de grupos da Champions League — e Mourinho precisará de pré-temporada completa para instalar seu sistema antes do primeiro clássico.