Quantos treinadores o Real Madrid precisa queimar antes de reconhecer que o problema não está só no banco de reservas? A pergunta não é retórica por acidente — ela resume exatamente o clima que antecede o retorno de José Mourinho ao clube espanhol, confirmado pelo jornal Marca como questão de tempo nesta semana.

O cenário que Mourinho vai encontrar em Valdebebas é bastante diferente do que ele deixou em 2013. Naquela época, o elenco tinha Cristiano Ronaldo no auge, Xabi Alonso organizando o meio-campo e uma rivalidade com o Barcelona que, apesar de desgastante, era equilibrada. Hoje, o time merengue perdeu a La Liga para o Barça com rodadas de antecedência e ainda levou 2 a 0 no Camp Nou — resultado que confirmou o título catalão.

Para além dos placares, o que preocupa a diretoria é o que acontece dentro do vestiário. A briga relatada entre Aurélien Tchouaméni e Federico Valverde é sintoma de um ambiente que desandou. Florentino Pérez, segundo o Marca, entende que Mourinho é o único nome capaz de reorganizar tanto o campo quanto o grupo — e foi essa convicção que eliminou da lista Mauricio Pochettino e Didier Deschamps.

O que os números desta temporada revelam sobre a crise merengue Mourinho voltand
O que os números desta temporada revelam sobre a crise merengue Mourinho voltand

O que os números desta temporada revelam sobre a crise merengue

Para entender a profundidade do problema, é útil olhar além da tabela. O Real Madrid desta temporada apresentou quedas evidentes em métricas de controle de jogo. O PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do time subiu — o que, na prática, significa que a pressão alta ficou menos eficiente: os adversários conseguiram trocar mais passes antes de sofrer uma ação defensiva merengue.

Por que Mourinho e não Pochettino ou Deschamps Mourinho voltando ao Real Madrid
Por que Mourinho e não Pochettino ou Deschamps Mourinho voltando ao Real Madrid

Outro dado relevante: a equipe reduziu drasticamente os progressive passes — aqueles lançamentos que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Isso explica por que o ataque pareceu tão estático, especialmente sem Kylian Mbappé em forma. Quando o time não progride com bola, a criação cai e os xG (expected goals) por jogo também despencam.

  • PPDA alto = pressão ineficaz = adversários com mais tempo para construir jogadas
  • Queda nos progressive passes = ataque previsível = menos chances de gol criadas
  • xG abaixo da média histórica = o time não está chegando em posições de finalização com qualidade suficiente

A eliminação nas quartas de final da Champions League para o Bayern de Munique não foi um acidente isolado — foi o reflexo de um time que perdeu a fluidez tática que marcou as campanhas dos títulos europeus recentes.

Por que Mourinho e não Pochettino ou Deschamps

A escolha por Mourinho em detrimento de Pochettino e Deschamps diz muito sobre a leitura que Florentino faz da crise. Pochettino, atualmente na seleção dos Estados Unidos, representa um futebol mais baseado em pass network denso e intensidade física — um estilo que exige tempo de implementação e um grupo coeso. Com o vestiário rachado, esse perfil foi considerado arriscado no curto prazo.

Deschamps, que deixará o comando da seleção francesa após a próxima Copa do Mundo, é um gestor de elencos estrelados — o que ele fez na França é inegável. Mas o perfil do técnico não encaixou na necessidade imediata de impor hierarquia e disciplina que Florentino busca. Como diria o sargento Barnes em Platoon: às vezes você precisa de alguém que os soldados temam, não apenas respeitem.

Mourinho, nesse contexto, é o nome que combina os dois atributos: autoridade imediata sobre vestiários difíceis e experiência com elencos de alto ego. O técnico já demonstrou isso no Inter de Milão em 2010, no Chelsea entre 2004 e 2006, e na própria primeira passagem pelo Real Madrid, onde manteve o grupo unido mesmo em temporadas de tensão com a comissão técnica do Barcelona.

Segundo o jornal Marca, o anúncio da contratação de Mourinho passou a ser tratado internamente como questão de tempo, com apenas detalhes menores pendentes para a conclusão do acordo.

O que Mourinho exige e o que ainda precisa ser resolvido antes da próxima temporada

A negociação não está 100% fechada. Um dos pontos pendentes é a saída de Mourinho do Benfica, que exige o pagamento de uma multa rescisória de 3 milhões de euros. O Real Madrid precisa acertar esse valor antes de formalizar qualquer anúncio.

O técnico também fez exigências claras: poder de decisão sobre reforços e uma hierarquia mais rígida dentro do elenco. Esse segundo ponto é diretamente relacionado ao episódio Tchouaméni-Valverde — Mourinho não aceita trabalhar em ambientes onde não há uma cadeia de comando definida, e Florentino parece disposto a ceder esse poder desta vez.

A análise que o SportNavo acompanhou de perto ao longo da temporada reforça que o problema estrutural do Madrid vai além do técnico: o time precisa de um volante com melhores defensive actions por 90 minutos e de um camisa 10 que gere xA (expected assists) consistente. Mourinho, historicamente, resolve o lado defensivo com rapidez — mas vai depender do mercado de verão para equilibrar a criação ofensiva.

Nas palavras do próprio Florentino, segundo o Marca, o treinador português é o único capaz de reorganizar o ambiente e liderar a reformulação planejada pelo clube para a próxima temporada.

O calendário pressiona. O Real Madrid precisa anunciar o novo técnico antes do início da pré-temporada, prevista para julho. Com a multa rescisória do Benfica ainda pendente e os detalhes contratuais em discussão, a janela para resolver tudo é de aproximadamente seis semanas — tempo suficiente, mas não confortável para um clube que precisa também planejar contratações e dispensas antes da abertura do mercado europeu.