Se o clássico de 3 de maio tivesse terminado só no apito final, a investigação do MP-RJ não existiria. Mas terminou com um torcedor morto e um estudante de 18 anos sem visão no olho direito — e agora o Ministério Público quer saber exatamente o que aconteceu na saída do Flamengo x Vasco, no Maracanã.
Fabiano e Arthur — os dois casos que mudaram o tom da apuração
Fabiano Miranda Lopes, 42 anos, morreu na saída do estádio. Arthur Cortines Laxe, estudante de 18 anos, levou um tiro de bala de borracha e perdeu a visão do olho direito. Os dois episódios ocorreram no mesmo dia, no mesmo entorno, e hoje são o eixo central de um procedimento conduzido pelo GAEDEST — o Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor do MP-RJ.
Não é a primeira vez que o futebol carioca entra no radar do Ministério Público por violência em clássico. Em 2013, confrontos entre torcidas no entorno do Engenhão e do Maracanã já haviam gerado inquéritos que arrastaram por anos sem desfecho claro. A diferença agora é a velocidade: em menos de uma semana após o jogo, o MP já tinha imagens e relatórios nas mãos.
O que o MP-RJ já tem em mãos
Segundo nota enviada ao UOL, o GAEDEST "requisitou todos os relatórios da PM, está em contato com o comandante do BEPE e com as delegacias para apurar os fatos". Procedimentos instaurados em delegacias, imagens e o relatório do Batalhão Especializado de Policiamento em Estádios já foram recebidos e servirão de base para a investigação.
"Já foram recebidos os procedimentos instaurados em delegacias, imagens e relatório do BEPE, que servirão de base para a investigação" — trecho da nota do MP-RJ ao UOL.
No caso de Arthur, o braço de segurança pública do MP — o GAESP — foi além e notificou a Corregedoria-Geral da Polícia Militar em 8 de maio, cobrando informações sobre os procedimentos adotados e a possível abertura de processo correcional interno contra os policiais envolvidos no disparo.
A Corregedoria na mira e o peso da bala de borracha
A pressão sobre a PM ganhou um segundo fronte. Enquanto o GAEDEST foca nos crimes ligados ao torcedor — violência entre grupos, gestão do entorno do estádio —, o GAESP apura especificamente a conduta policial que resultou na cegueira do estudante. O MP deixou claro, na mesma nota, que os dois grupos atuam em paralelo, preservando as atribuições de cada promotoria.
"Evidentemente, é preciso preservar as autonomias e atribuições, tanto dos órgãos policiais para investigação, que já estão em andamento, quanto das Promotorias de Justiça que atuam na investigação e processos de homicídios" — MP-RJ.
O SportNavo apurou que o volume de material reunido em menos de dez dias é incomum para investigações desse tipo no Rio — o que indica pressão institucional acima da média, alimentada pela repercussão nas redes sociais. O caso de Arthur acumulou mais de 2 milhões de impressões no X (antigo Twitter) nos primeiros três dias após o clássico, com a hashtag #JustiçaPorArthur entre os trending topics nacionais.

Próximos passos da investigação
O MP-RJ sinalizou que apurará "diversos delitos", incluindo crimes que podem ser processados pelo Juizado do Torcedor, de competência do próprio GAEDEST. A investigação sobre a morte de Fabiano corre em paralelo nas promotorias de homicídio, com autonomia própria.
A Corregedoria da PM tem prazo para responder ao ofício enviado em 8 de maio. Se não houver retorno, o MP pode acionar mecanismos de cobrança judicial. A câmera do Maracanã que gravou os momentos após o apito final já está com os promotores — e é nela que a resposta sobre o que realmente aconteceu naquela noite de 3 de maio pode estar guardada.








