O exame de urina coletado no fim de outubro de 2024 destruiu a carreira de Mykhailo Mudryk num instante. O atacante ucraniano do Chelsea testou positivo para Meldonium, substância proibida desde 2016 pela Agência Mundial Antidopagem (WADA), e recebeu quatro anos de suspensão confirmados pelo Tribunal Arbitral do Esporte (CAS). O jogador de 25 anos, contratado por R$ 388 milhões em janeiro de 2023 — negócio que poderia atingir R$ 500 milhões em bônus variáveis —, já cumpria afastamento preventivo desde dezembro de 2024 e recorre da decisão.
Da coleta do exame à sentença do CAS
O teste que mudou tudo foi realizado em outubro de 2024. O exame do tipo "A" identificou traços de Meldonium na urina do ucraniano, e a Football Association (FA) não hesitou: denunciou formalmente o atleta ao CAS. A punição máxima de quatro anos foi aplicada, o que, na prática, retira Mudryk dos gramados até o final de 2028. Segundo o portal The Athletic, a defesa do jogador já formalizou o recurso tentando reduzir o período de gancho.
O Chelsea não emitiu pronunciamento oficial sobre possibilidade de rescisão contratual ou suspensão dos salários do atacante. O contrato de Mudryk com o clube londrino é válido até junho de 2031 — o que torna a situação financeira do Stamford Bridge ainda mais delicada.
O que é o Meldonium e por que ele está na lista negra
O Meldonium, também conhecido comercialmente como mildronato, é um medicamento anti-isquêmico desenvolvido originalmente na União Soviética. Ele atua melhorando a resistência física ao otimizar o uso de oxigênio pelo organismo — daí o apelo entre atletas de alta performance. A WADA incluiu a substância na lista de proibições em 1º de janeiro de 2016, após estudos indicarem potencial de ganho de desempenho e proteção indevida contra fadiga muscular.
O caso mais famoso envolvendo a substância foi o da ex-tenista russa Maria Sharapova, que testou positivo para Meldonium durante o Aberto da Austrália de 2016 e ficou suspensa por 15 meses. Sharapova afirmou que usava o medicamento há anos por recomendação médica e não havia percebido que havia sido proibido. Outros atletas do Leste Europeu foram flagrados na mesma época, revelando um padrão geográfico e cultural no uso da substância — exatamente o contexto de origem de Mudryk, nascido e revelado na Ucrânia pelo Shakhtar Donetsk.
Suplemento contaminado ou uso intencional — a questão central do caso
A defesa de Mudryk ainda não detalhou publicamente a tese que sustenta o recurso ao CAS, mas no universo do doping essa é a disputa mais clássica: contaminação acidental por suplemento ou uso deliberado da substância. O Meldonium é amplamente disponível em países do Leste Europeu, onde pode ser encontrado em farmácias sem prescrição médica em algumas regiões. Segundo apuração do SportNavo, especialistas em direito esportivo apontam que a origem geográfica do atleta e o histórico cultural de uso do mildronato em países como Ucrânia, Rússia e Letônia tendem a ser levados em consideração pelo CAS na análise de recursos — mas raramente são suficientes para reverter uma punição de quatro anos sem evidências concretas de contaminação.
"O Meldonium foi colocado na lista proibida justamente porque havia indícios de uso sistemático em países do Leste Europeu para fins de melhora de desempenho", explicou um representante da WADA em declaração à imprensa internacional quando a proibição entrou em vigor, em 2016.
A linha entre uso terapêutico histórico e doping intencional é tênue e repleta de nuances jurídicas. O que o CAS avalia é se o atleta consegue provar ausência de culpa — e quatro anos de punição indicam que, até o momento, a evidência não convenceu o tribunal.
O rombo no Chelsea e o futuro incerto do ucraniano
O impacto no Chelsea é brutal. Mudryk chegou ao Stamford Bridge em janeiro de 2023 como uma das apostas mais caras da era Todd Boehly à frente do clube. Em 73 jogos pelos Blues, o ucraniano marcou 10 gols e distribuiu oito assistências — números modestos para um investimento que pode chegar a R$ 500 milhões. Com a suspensão mantida, o clube perde um ativo durante o que seria o auge da carreira do atleta, dos 25 aos 29 anos.

"Se a punição de quatro anos for mantida, o Chelsea terá que lidar com o afastamento de um investimento milionário durante o período mais produtivo da vida de um atacante", avaliou a reportagem do portal Rede 98 ao comentar a sentença do CAS.
A análise do SportNavo mostra que o caso Mudryk se torna ainda mais emblemático quando comparado ao histórico do Meldonium no esporte: a substância já expôs atletas do Leste Europeu em modalidades que vão do tênis ao atletismo, e o futebol agora ganha sua página mais cara nesse capítulo. O próximo passo concreto do caso é o julgamento do recurso pelo CAS — sem data definida publicamente —, que determinará se Mudryk voltará aos gramados antes de dezembro de 2028 ou cumprirá a pena integral, perdendo anos irreversíveis de sua carreira no mais alto nível do futebol europeu.








