Diz-se que clubes brasileiros raramente formalizam punições internas contra seus maiores astros — que tudo se resolve no vestiário, no aperto de mão e no esquecimento coletivo. O Santos, neste caso, está contrariando essa estatística: abriu sindicância formal, coletará depoimentos e deve aplicar multa de 30% do salário de Neymar pelo tapa desferido em Robinho Jr. durante o treino de domingo, 3 de maio, no CT Rei Pelé, em Santos. A formalidade do processo importa tanto quanto o valor da punição.
O Santos na Copa Sul-Americana e o incidente que não ficou no vestiário
O Santos disputa a Copa Sul-Americana de 2026 e enfrenta o Deportivo Recoleta, pelo Grupo G, na quarta-feira, 7 de maio, no Paraguai — quarta rodada da fase de grupos. É nesse contexto de viagem internacional que o episódio ganhou dimensão institucional: tanto Neymar quanto Robinho Jr. foram relacionados para o confronto, o que significa que os dois jogadores estão fisicamente no mesmo ambiente enquanto a sindicância corre em paralelo. O depoimento de Robinho Jr. ao clube está previsto para a volta da delegação ao Brasil, também na quarta-feira.
A cena descrita por fontes do clube — e confirmada pelo próprio Neymar aos diretores — foi de um tapa aplicado no jovem atacante durante as atividades de campo. A velocidade com que o Santos formalizou a apuração, segundo apuração do SportNavo, reflete pressão interna da diretoria para demonstrar que o regulamento disciplinar vale independentemente do nome na camisa.
Como a sindicância do Santos vai calcular e aplicar a multa
O instrumento jurídico utilizado pelo Santos é padrão nos contratos de trabalho do futebol brasileiro: a multa disciplinar de até 30% do salário, prevista na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e nos regulamentos internos dos clubes. O processo segue etapas definidas — instauração, coleta de relatos, elaboração de relatório e aplicação da penalidade — e o clube não pode aplicar a punição sem o relatório final da sindicância. O valor exato depende do que o documento concluir sobre a gravidade da conduta.
O salário de Neymar no Santos não foi divulgado oficialmente pelo clube, mas estimativas de mercado situam o contrato em cifras que tornam 30% uma quantia expressiva mesmo para padrões europeus. Para efeito de comparação, jogadores da Série A brasileira recebem, em média, entre R$ 30 mil e R$ 150 mil mensais — Neymar está em patamar incomparavelmente superior, o que torna a multa mais simbólica do que punitiva em termos absolutos, mas relevante do ponto de vista precedente.
A versão de Neymar e o que Robinho Jr. vai dizer
Neymar admitiu o tapa aos dirigentes santistas, mas enquadrou o episódio como brincadeira comum no ambiente de treino. Nas palavras do próprio atacante, conforme relatado ao clube, não houve intenção de machucar o companheiro e os dois mantêm relação próxima. A defesa do contexto de descontração é recorrente em episódios do tipo — e também é exatamente o que a sindicância precisa avaliar com rigor.

"Foi uma brincadeira, a gente tem uma relação próxima, não tive intenção de machucar", afirmou Neymar aos diretores do Santos, segundo o Diário do Peixe.
Robinho Jr. — o jovem de 19 anos que carrega um sobrenome historicamente pesado no futebol brasileiro — ainda não prestou depoimento formal. Quando o fizer, na quarta-feira, sua versão será determinante para a conclusão do relatório. Se ele confirmar a narrativa de brincadeira e ausência de hostilidade, a multa pode ser aplicada no limite mínimo. Se a versão divergir, o Santos terá elementos para escalar a punição.
O que chama atenção é a assimetria de poder entre os dois: Neymar é o principal ativo comercial do clube em 2026 — o rosto do retorno do Santos à elite nacional e à Libertadores — enquanto Robinho Jr. é uma promessa ainda construindo seu espaço no elenco. Essa diferença de status raramente é neutra em sindicâncias internas, e o Santos sabe que o modo como conduzir esse processo vai além do episódio em si.
O precedente disciplinar que o Santos precisa estabelecer
Clubes brasileiros têm histórico de flexibilizar regras disciplinares para proteger atletas de alto valor comercial — e o Santos não é exceção. Em 2023, o Flamengo aplicou multa a jogadores por indisciplina em concentração, mas os valores nunca foram tornados públicos. O Corinthians, em 2024, chegou a notificar atletas por postagens em redes sociais, sem que as penalidades fossem efetivamente executadas. A diferença, neste caso, é que o Santos formalizou a sindicância publicamente — o que cria um compromisso institucional de conclusão.
O regulamento disciplinar do clube — cujo texto integral não foi divulgado, mas cujos parâmetros seguem a CLT e a Lei Pelé — estabelece que agressão física entre atletas, mesmo em contexto de treino, configura falta grave. A gradação da penalidade depende da intenção e do impacto, mas a abertura da sindicância já sinaliza que o clube não vai simplesmente arquivar o caso com um pedido de desculpas informal. Neymar, segundo fontes internas, já teria pedido desculpas a Robinho Jr. — gesto que pode atenuar, mas não cancela, a punição prevista.
Para o Santos de 2026 — time que voltou à Série A após o trauma do rebaixamento em 2023 e que agora tenta se consolidar também na Copa Sul-Americana — o episódio chega em momento delicado. O clube precisa de Neymar em campo e, ao mesmo tempo, não pode sinalizar que seu regulamento é letra morta quando o nome envolvido é grande demais. A sindicância, nesse sentido, é tanto jurídica quanto política.
O Santos enfrenta o Deportivo Recoleta nesta quarta-feira, no Paraguai, com os dois jogadores relacionados. O depoimento de Robinho Jr. e o relatório final da sindicância definem o valor exato da multa — e o Santos terá de publicar sua decisão antes do próximo compromisso em casa, marcado para o final de semana.








