Janeiro de 2026. Enquanto o São Paulo se preparava para a temporada, o zagueiro Arboleda simplesmente desapareceu. Sem comunicado oficial, sem justificativa pública, o equatoriano permaneceu cerca de um mês em seu país natal sem qualquer contato formal com o clube. A diretoria tricolor tratou o episódio com silêncio cirúrgico — e esse silêncio, segundo Muricy Ramalho, esconde muito mais do que os torcedores imaginam.
O que Muricy viu em cinco anos ao lado de Arboleda
Muricy deixou o cargo de coordenador de futebol do São Paulo em janeiro de 2026 para tratar um problema de saúde, mas mantém canais abertos com pessoas de dentro do clube. Em entrevista exclusiva à ESPN, ele foi categórico ao afirmar que a narrativa que chegou ao torcedor é incompleta. "Nós sabemos só 10%", disse o ex-técnico, que conviveu com Arboleda por cinco anos e construiu uma relação próxima com o defensor.
"Não estou no lugar pra ver o que aconteceu. Ele é um cara espetacular, me chama de pai. Ele fica, às vezes, 20 dias sem treinar, parece que não aconteceu nada. Está inteiro, forte. E ele gosta da camisa, as pessoas têm que saber disso. Eu não sei o motivo dessa vez, porque eu não estava mais lá. Só sei que ele sumiu, mas não sei por que. E na volta também não teve muita explicação, porque tem uma coisa no futebol que eles não falam muito do que acontece no clube. Nós sabemos só 10%."
O depoimento de Muricy é revelador justamente pelo que omite. Ele não sabe o motivo do sumiço — e isso, vindo de alguém que esteve dentro do clube até semanas antes do episódio e que tem relação pessoal com o jogador, diz muito sobre o grau de compartimentalização que a diretoria do São Paulo adotou no caso. Arboleda está afastado do elenco principal desde então, sem prazo definido para reintegração.
A crise defensiva que transforma Arboleda em problema e solução ao mesmo tempo
O timing das declarações de Muricy não é casual. O São Paulo atravessa sua pior crise defensiva em anos: Dória pediu rescisão contratual nos últimos dias e Rafael Tolói está fora por lesão. O clube chegou a escalar dois zagueiros canhotos ao mesmo tempo — configuração que, como o próprio Muricy apontou, "dificulta demais" a organização tática da equipe.
Nesse contexto, Arboleda — que tem contrato vigente com o Tricolor — passou de problema disciplinar a ativo estratégico de difícil substituição. O ex-coordenador foi direto ao ponto quando questionado sobre o custo de reposição do equatoriano no mercado:
"Você tem dinheiro para contratar um zagueiro que joga que nem o Arboleda? Acho que hoje não. A gente não tem esse dinheiro. Então, nós temos que ver direito se é bom pro São Paulo, pro time, a volta dele."
A pergunta de Muricy tem resposta financeira concreta. Zagueiros com o perfil físico de Arboleda — forte no jogo aéreo, experiente em Libertadores e com passagem sólida pela seleção equatoriana — custam entre 4 e 8 milhões de euros no mercado sul-americano e europeu. O São Paulo, que ainda carrega passivos contratuais de gestões anteriores, não tem essa janela aberta no momento.
O que o São Paulo vai fazer com Arboleda antes da janela de transferências de julho?
A conversa que ainda não aconteceu — e que Muricy teria feito no primeiro dia
O ponto mais revelador da entrevista de Muricy não é o que ele sabe, mas o que ele percebe que não foi feito. O ex-coordenador deixou claro que, se ainda estivesse no cargo, já teria chamado Arboleda para uma conversa direta — o que, nas entrelinhas, sugere que essa conversa ou não ocorreu, ou não teve o resultado esperado.
"Se eu estivesse lá, do jeito que eu sou, com certeza ia chamar no quartinho e ver qual foi. Ele é um cara que veste a camisa, adora o clube. Um cara de grupo, um cara fisicamente forte. Bola alta, duro. Então... conforme a explicação, você às vezes deixa o orgulho do lado, cara. Traga o cara porque eu estou precisando."
A lógica de Muricy é pragmática e revela o dilema real da diretoria tricolor: reintegrar Arboleda sem uma explicação convincente sobre o sumiço cria precedente para outros jogadores testarem os limites disciplinares do clube. Exigir uma explicação formal e torná-la pública expõe o São Paulo a uma narrativa que, aparentemente, ninguém dentro do Morumbi quer que seja conhecida — afinal, 90% da história ainda está guardada em algum lugar entre Quito e a capital paulista.
O prazo para uma definição está se estreitando. O Brasileirão 2026 já está em andamento, e o São Paulo tem compromissos pela Copa do Brasil e pela Copa Sul-Americana nas próximas semanas. Sem Dória, sem Tolói e com Arboleda em limbo, a comissão técnica precisará apresentar uma resposta ao departamento de futebol até o fim de maio. Até lá, os 90% que Muricy não sabe continuam sendo o maior segredo do clube.









