Três coisas: um gol de tiro livre aos 7 minutos, uma expulsão no fim do primeiro tempo e um placar de 3 a 0 registrado semanas antes em Ibagué. Tudo se explica daí.

O Nacional fez o que precisava dentro de campo na última rodada do Grupo B da Libertadores 2026. Venceu o Coquimbo Unido por 1 a 0 no Gran Parque Central, com Maximiliano Gómez convertendo um tiro livre no ângulo logo aos 7 minutos, deixando o goleiro Gonzalo Flores sem reação. Mas o resultado não foi suficiente. O 'Bolso' terminou em terceiro lugar no grupo e agora disputa o playoff da CONMEBOL Sul-Americana — a primeira vez que o clube enfrenta essa fase do torneio.

O gol que não aparece no placar de quinta-feira

Para entender por que o Nacional ficou fora das oitavas, é preciso voltar a uma cena específica: o minuto 89 de Tolima x Nacional, jogado em Ibagué. Jersson González balançou a rede e fechou o placar em 3 a 0. Naquele momento, o saldo de gols do Tolima saltou para +1, enquanto o Nacional ficou em -2. Os dois times terminaram a fase de grupos com oito pontos cada — e foi exatamente essa diferença de três gols numa única partida que separou a classificação da eliminação.

O confronto direto entre as equipes não desempatava: Nacional havia vencido o Tolima por 3 a 1 em Montevidéu, mas os colombianos aplicaram o 3 a 0 em casa. Saldo geral: Tolima +1, Nacional -2. Fim de papo.

Do ponto de vista das métricas ofensivas, o Nacional teve dificuldades consistentes ao longo da fase de grupos para converter pressão em perigo real. O time uruguaio apresentou baixo volume de progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — especialmente nas partidas fora de casa, onde a equipe recuou demais e abriu mão da iniciativa. Isso se refletiu diretamente no xG (expected goals) acumulado: em jogos como visitante, o Nacional raramente superou 0,8 xG por partida, o que indica que as finalizações eram poucas e de baixa qualidade posicional.

Como o Tolima blindou a classificação em Lima

Enquanto o Nacional vencia no Gran Parque Central, o Deportes Tolima fazia o trabalho sujo no Estadio Monumental de Lima. Empate por 0 a 0 contra o Universitario de Perú — e classificação garantida em segundo lugar.

"Estamos a 25 minutos dos Oitavos de Final da Libertadores. Não pode escapar", disse o técnico Lucas González aos jogadores durante a pausa de reidratação do segundo tempo.

A frase virou realidade. O Tolima aplicou um bloco baixo disciplinado, com coberturas bem ensaiadas e agressividade nos duelos. O goleiro brasileiro Neto Volpi — único estrangeiro no elenco colombiano — mal precisou trabalhar: fez uma única defesa de destaque em toda a partida. O Universitario, dirigido pelo argentino Héctor Cúper, terminou em último lugar no grupo sem sequer garantir vaga na Sul-Americana.

Taticamente, o Tolima de Lucas González é um dos times mais interessantes da Libertadores 2026 quando se olha para o PPDA (Passes Permitidos Por Ação Defensiva). Esse indicador mede a intensidade da pressão: quanto menor o número, mais agressivo o time é sem a bola. O Tolima consistentemente apresentou PPDA abaixo de 8 nas fases decisivas — o que significa que a equipe não deixa o adversário trocar mais de oito passes antes de acionar uma ação defensiva. Para comparação, times de bloco médio-baixo costumam operar com PPDA entre 10 e 14.

Os nomes que sustentaram essa campanha merecem registro: o zagueiro Anderson Angulo, capitão e organizador do bloco defensivo; o meia Juan Pablo 'Tatay' Torres, responsável pela criação nas transições; e o atacante Luis Fernando Sandoval, referência ofensiva. O Tolima disputa a Libertadores pela 11ª vez na história e alcançou sua melhor fase desde as semifinais de 1982.

Nacional sem bola e sem margem — o que os números revelam

A partida contra o Coquimbo ilustrou bem os limites do Nacional nesta edição da Libertadores. Maxi Gómez abriu o placar cedo, Tomás Verón Lupi deu uma assistência de qualidade para o segundo gol que quase veio, mas o defensor Tomás Viera foi expulso no acréscimo do primeiro tempo. Com um a menos, o time uruguaio adotou postura conservadora e o 1 a 0 ficou congelado.

Segundo apuração do SportNavo com base nos dados da fase de grupos, o Nacional registrou dois jogos consecutivos em casa sem sofrer gols — algo que não acontecia desde 2021, quando o time venceu Universidad Católica por 1 a 0 e Argentinos Juniors por 2 a 0 na mesma fase. Defensivamente, portanto, houve evolução. O problema foi a produção ofensiva fora de Montevidéu.

  • xG médio como visitante no Grupo B: Nacional ficou abaixo de 0,8 por jogo — número que indica baixíssima ameaça real ao gol adversário
  • Progressive passes por 90 minutos: o Tolima superou o Nacional em pelo menos 15% nessa métrica nas rodadas decisivas, mostrando quem dominava as transições
  • Defensive actions no terço médio: o Nacional acumulou mais ações defensivas longe do próprio gol apenas nas partidas em casa — fora, o time recuou demais e perdeu o controle do jogo

O gol de tiro livre de Maxi Gómez contra o Coquimbo, aliás, foi o primeiro do Nacional em cobrança direta na Libertadores desde 2019, quando Rodrigo Amaral converteu contra o Cerro Porteño. Um dado que ilustra a escassez de recursos ofensivos variados do elenco uruguaio.

O Coquimbo Unido, por sua vez, já estava classificado e terminou em primeiro lugar no Grupo B. Os 'Piratas' se tornaram o décimo clube chileno a alcançar as oitavas de final da Libertadores — uma marca histórica para um time da cidade de Coquimbo.

O Nacional disputa o playoff da CONMEBOL Sul-Americana pela primeira vez. O clube jogou o torneio pela última vez em 2022, quando chegou às quartas de final. O sorteio dos playoffs está previsto para a primeira semana de junho, e os jogos de ida e volta acontecem ao longo de julho — quando saberemos se o 'Bolso' consegue ao menos avançar nessa segunda chance continental.