Todo mundo sabe que o Brasil nunca perdeu para o Japão numa Copa do Mundo. O que poucos perceberam é que os japoneses pararam de acreditar nisso há bastante tempo — e Yuto Nagatomo é a prova mais eloquente dessa mudança de mentalidade.

O lateral, que construiu carreira de quase duas décadas na Europa — incluindo uma passagem de seis anos pela Inter de Milão —, foi categórico ao ser perguntado sobre o confronto das oitavas de final da Copa do Mundo 2026, marcado para esta segunda-feira, dia 29 de junho, às 14h de Brasília, com transmissão pela CazéTV:

"Sim, o Brasil é o Brasil... Todos nós sabemos o quanto eles são fortes e que será uma partida incrivelmente difícil. Mas, se conseguirmos impor o nosso futebol, estou convencido de que podemos vencer mesmo contra um adversário como o Brasil. Só precisamos acreditar em nós mesmos e lutar até o fim."

A declaração poderia soar como protocolo de vestiário se não viesse de um homem de 37 anos que passou boa parte de sua vida dentro do futebol europeu — onde o ceticismo em relação ao Brasil diminuiu proporcionalmente a cada Copa sem título desde 2002. Nagatomo não está blefando. Ele está, ao seu modo, fazendo a conta.

O que Zico plantou e os Samurais Azuis colheram

Quando Arthur Antunes Coimbra — o Zico — desembarcou no Japão em 1991 para defender o Kashima Antlers, o futebol profissional japonês mal existia como estrutura organizada. A J.League seria fundada apenas dois anos depois, em 1993. O Galinho de Quintino jogou até 1994, marcou 56 gols em 81 partidas e depois voltou ao país como técnico da seleção entre 2002 e 2006, levando os japoneses às oitavas de final da Copa da Alemanha.

Nagatomo era criança nesse período e nunca esqueceu o que representou aquela presença:

"Eu era criança na época. Para nós, o Zico representa a própria fundação do nosso futebol profissional. Ele não apenas jogou e treinou a seleção, mas ensinou ao Japão o que significa o profissionalismo, a paixão e a mentalidade vencedora."

O legado não é sentimental — é estrutural. A geração que assistiu Zico jogar com o Kashima nos anos 1990 é exatamente a geração que depois foi jogar na Europa, que formou os técnicos, que criou as academias. O que para o torcedor argentino é uma questão de sangue e garra, para o japonês é uma questão de método e disciplina — e foi precisamente esse método que Zico transplantou, com toda a emoção carioca embrulhada numa embalagem que os japoneses conseguiram absorver e sistematizar.

Três décadas de aprendizado tático acumulado

O Japão de 2026 não é o mesmo que tomou 4 a 1 do Brasil na fase de grupos da Copa da Alemanha, em 2006 — jogo no qual Ronaldo marcou duas vezes e chegou ao recorde de 15 gols em Copas do Mundo. Desde então, os japoneses eliminaram a Alemanha na Copa do Catar em 2022, venceram por 2 a 1 após saírem perdendo, e repetiram o feito contra a Espanha, então campeã europeia. O bloco defensivo alto, a pressão por zonas e a velocidade nas transições tornaram o Japão uma das equipes mais difíceis de ser decifrada no mundo.

Nagatomo faz parte de uma geração que aprendeu a competir no nível mais exigente do futebol mundial. Seus anos na Inter de Milão, entre 2011 e 2017, coincidiram com uma fase de reconstrução do clube nerazzurro, mas o lateral disputou Serie A, Copa da Itália e Liga dos Campeões — ambientes onde a margem de erro é milimétrica. Essa experiência europeia foi absorvida por toda uma geração de japoneses que hoje forma o núcleo dos Samurais Azuis.

A seleção japonesa atual conta com jogadores espalhados pela Premier League, Bundesliga e Serie A. Daichi Kamada passou pela Lazio. Takehiro Tomiyasu defendeu o Arsenal. Wataru Endo jogou no Liverpool. São nomes que conhecem de perto o padrão físico e tático das grandes competições europeias — o mesmo padrão que o Brasil precisará impor para não ser surpreendido.

O que está em jogo para o Brasil além da vaga

Para a Seleção Brasileira, o confronto tem peso que vai além dos 90 minutos. Uma derrota para o Japão nas oitavas de final seria a eliminação mais precoce do Brasil desde a Copa de 2010, quando caiu diante da Holanda nas quartas de final por 2 a 1, em Port Elizabeth. Seria também o primeiro revés brasileiro contra os japoneses em qualquer fase eliminatória de um Mundial.

O técnico Carlo Ancelotti sabe que o adversário não virá para administrar a derrota. A postura de Nagatomo — que aos 37 anos provavelmente disputa sua última Copa do Mundo — resume o estado de espírito de uma equipe que acredita ter chegado ao momento de dar o passo seguinte na história do futebol japonês. Zico ensinou ao Japão que acreditar é o primeiro passo. O segundo é executar.

Segunda-feira define se o legado de Zico virou arma contra o Brasil

Brasil e Japão se enfrentam nesta segunda-feira, 29 de junho, às 14h (horário de Brasília), com transmissão ao vivo pela CazéTV, disponível no Disney+. O vencedor avança às quartas de final da Copa do Mundo 2026, onde aguarda o ganhador do confronto entre Espanha e a seleção que vier da outra chave. Para o Brasil, é questão de honra. Para o Japão, é questão de herança — a herança que um carioca de Quintino deixou numa ilha do Pacífico há mais de trinta anos, e que esta segunda-feira pode, finalmente, ser cobrada.

Todo mundo sabe que o Japão nunca venceu o Brasil numa Copa do Mundo. O que poucos perceberam é que os japoneses pararam de acreditar nisso há bastante tempo.