16 de maio de 2026. Naquele domingo em que Neto Pessoa completou 31 anos, o atacante já somava mais de três décadas de vida e uma trajetória que começa onde o futebol brasileiro raramente olha: no Acre, estado que o mapa esportivo nacional costuma ignorar com a mesma indiferença com que ignora sua geografia.

O dia em que tudo mudou

Há momentos na carreira de um atleta que funcionam como eixos invisíveis — não aparecem em manchetes, mas dividem o tempo em antes e depois. Para Altemir Cordeiro Pessôa Neto, o nome completo por trás da camisa 18 da Chapecoense, esse eixo tem data e endereço: 2019, no Campeonato Brasileiro Série C, quando o Náutico conquistou o título da terceira divisão nacional. Neto Pessoa estava lá, integrando um elenco que precisou de consistência coletiva para subir — e ele entregou exatamente isso. Não era o artilheiro da competição, não era o nome que os repórteres procuravam na zona mista. Era o atacante que fazia o trabalho.

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Quando faz o trabalho invisível — a pressão no zagueiro, o desmarcação que libera o companheiro —, ele constrói o gol que o outro vai marcar. Quando faz o trabalho visível — a finalização no momento certo, o movimento que desequilibra —, ele constrói a estatística que o mercado vai ler. São duas funções que raramente habitam o mesmo corpo com a mesma naturalidade, e essa dualidade explica por que Neto Pessoa acumulou passagens por clubes tão distintos ao longo de mais de uma década.

Antes do divisor de águas

A história começa no futebol acreano, que tem sua própria lógica, seu próprio calendário e sua própria forma de revelar talentos. Em 2013, Neto Pessoa conquistou o Campeonato Acreano pelo Plácido de Castro — um título regional que, para quem não conhece a estrutura do futebol no norte do país, pode parecer menor, mas que representa a porta de entrada para uma carreira profissional em condições extremamente adversas. Dois anos depois, em 2015, repetiu o feito pelo Rio Branco, desta vez com mais experiência e mais clareza sobre o tipo de jogador que queria ser.

O dia em que tudo mudou Neto Pessoa e a camisa 18 que o Acre nun
O dia em que tudo mudou Neto Pessoa e a camisa 18 que o Acre nun

O salto para o futebol de maior expressão nacional veio gradualmente. O Náutico, em 2019, foi o ponto de inflexão mais documentado — o título da Série C colocou seu nome em uma conquista que tem peso real no currículo de qualquer atacante brasileiro. Depois vieram outros capítulos, incluindo a passagem pelo Remo, onde em 2021 levantou a Copa Verde, torneio regional que reúne clubes do norte, nordeste e centro-oeste do Brasil. Dois títulos em competições distintas, em anos distintos, com clubes distintos: isso não é sorte, é uma capacidade de adaptação que o mercado subestima sistematicamente.

Um levantamento do SportNavo sobre atacantes com trajetória iniciada no futebol regional norte-brasileiro que chegaram à Série A revela como esse caminho é estatisticamente raro. A maioria dos jogadores formados fora dos grandes centros que conseguem chegar à primeira divisão nacional o fazem antes dos 26 anos ou não chegam. Neto Pessoa chegou aos 31 — o que diz algo sobre resiliência, mas também sobre o quanto o sistema demora a enxergar o que está fora do eixo Rio-São Paulo.

Como o futebol mudou ao redor dele

O Brasileirão Série A de 2026 encontrou Neto Pessoa em um momento de maturidade técnica e física que poucos atacantes de sua geração conseguem sustentar. Em 37 jogos pela Chapecoense nesta temporada, ele marcou 8 gols e distribuiu 2 assistências — números que, isolados, podem parecer modestos, mas que ganham outra dimensão quando se considera o contexto: um clube que retornou à elite após período na segunda divisão, construindo identidade coletiva em tempo real.

Quando faz um gol pela Chapecoense em 2026, ele não está apenas marcando um ponto na tabela — está ajudando a reescrever uma narrativa institucional que carrega o peso de uma das tragédias mais dolorosas do futebol mundial. O clube de Chapecó, que perdeu grande parte de seu elenco no acidente aéreo de novembro de 2016, reconstruiu-se lentamente, atravessou divisões, e agora tenta se firmar novamente entre os melhores do país. Neto Pessoa é um dos tijolos dessa reconstrução — não o mais vistoso, mas um dos mais confiáveis.

A análise do SportNavo sobre atacantes da Série A 2026 com mais de 30 anos mostra que manter uma média próxima de um gol a cada quatro jogos — como Neto Pessoa faz nesta temporada — coloca o jogador em um grupo seleto de veteranos produtivos. O futebol brasileiro mudou ao redor dele: o jogo ficou mais físico, mais intenso, mais dependente de dados e análise de vídeo. Ele se adaptou sem perder a essência de um atacante que entende o jogo antes de receber a bola.

O próximo capítulo já começou

Aos 31 anos e com contrato vigente na Chapecoense, Neto Pessoa está em uma encruzilhada que todo atacante veterano conhece: o momento em que o clube precisa decidir se aposta na continuidade de quem já provou seu valor ou se busca a renovação etária que o mercado frequentemente exige sem critério. Com 182 cm e 73 kg, ele mantém a estrutura física de um atacante capaz de disputar bolas aéreas e ainda ter mobilidade para pressionar a saída de bola adversária — uma combinação que clubes da Série A pagam caro para encontrar.

O segundo semestre do Brasileirão 2026 será decisivo. A Chapecoense, dependendo de sua posição na tabela, pode precisar de Neto Pessoa tanto como artilheiro quanto como referência de experiência para jogadores mais jovens do elenco. Suas 8 redes em 37 jogos até aqui mostram regularidade, não explosão — e regularidade, em um campeonato de 38 rodadas com a intensidade do Brasileirão, tem um valor que os números brutos não capturam completamente.

A trajetória de um menino do Acre que passou pelo Plácido de Castro em 2013, levantou a Copa Verde em 2021 pelo Remo e chegou à Série A pela Chapecoense em 2026 não segue nenhum roteiro de manual. Segue, isso sim, a lógica teimosa de quem nunca aceitou que o endereço de nascimento determinasse o teto da carreira. Se o Brasileirão entrar em sua reta final com a Chapecoense brigando por uma vaga nas competições continentais, Neto Pessoa vai querer estar em campo — e a pergunta que fica é: o clube vai confiar nele como protagonista dessa disputa, ou vai tratá-lo como coadjuvante experiente enquanto busca reforços mais jovens para o mercado de julho?