"O Neymar nunca ligou para isso na seleção. Ele sempre quis: dá a bola no meu pé e vamos se divertir e vamos jogar futebol."A frase é de Casemiro, dita em entrevista exclusiva à ESPN, e ela resume com precisão cirúrgica o paradoxo que cerca Neymar há anos: o talento nunca esteve em discussão, mas tudo ao redor dele sempre esteve. Agora, com 14 dias separando o Brasil da convocação oficial de Carlo Ancelotti, o atacante do Santos resolveu responder com o único argumento que ainda importa — jogar.
O que aconteceu, exatamente
Neymar está confirmado nos quatro jogos que o Santos disputará antes de 18 de maio de 2026, data em que Ancelotti divulgará a lista definitiva para a Copa do Mundo. A sequência começa nesta terça-feira (5), no Paraguai, contra o Deportivo Recoleta pela Copa Sul-Americana — torneio em que o Peixe precisa de resultado para manter vivas as esperanças de classificação. Na sequência, o Santos recebe o Red Bull Bragantino no dia 10 pelo Brasileirão, num confronto que interessa também para afastar o clube da zona de turbulência na tabela. O ciclo se encerra com dois duelos contra o Coritiba: o primeiro, fora de casa, no Couto Pereira, pela Copa do Brasil — onde o placar de ida ficou em 0 a 0 —, e o último no dia 17, na Vila Belmiro, pelo Campeonato Brasileiro. O técnico Cuca já confirmou a presença do camisa 10 desde a primeira partida.
O pano de fundo, no entanto, ganhou uma sombra no domingo (3). Durante treino no CT Rei Pelé, Neymar se desentendeu com Robinho Jr. após o jovem aplicar um drible no veterano. A situação escalou para empurra-empurra, com relatos de tentativa de rasteira e tapa. O Santos tratou o episódio como encerrado após conversa entre os atletas, mas a repercussão já havia saído do controle interno.

Quem está envolvido
O episódio no CT dividiu, de forma quase pedagógica, dois polos do futebol brasileiro. De um lado, Casemiro — que conhece Neymar desde os 12 anos de idade, segundo ele mesmo — saiu em defesa do companheiro com argumentos que vão além da amizade. O volante do Manchester United reconheceu que Ancelotti pode precisar ter uma conversa franca com Neymar sobre minutagem, mas descartou que isso seja um problema intransponível:
"Se o Ancelotti propor isso para ele, eu acho que ele vai querer ir para a seleção. Aí chega lá e ele demonstra no campo e demonstra nos treinamentos."Casemiro foi ainda mais direto ao depositar a responsabilidade da decisão no técnico italiano:
"Não tem melhor treinador no mundo, com mais experiência no mundo, para lidar com uma situação dessa."
Do outro polo, o ex-jogador e apresentador Neto, na Band, usou o incidente com Robinho Jr. como gatilho para uma crítica mais ampla à postura de Neymar dentro do clube.
"O Neymar não escuta pai, não escuta mãe, não escuta treinador. Ele manda no Santos. Olha como o Santos se apequenou. Ele muda treino, faz o que quer, treina a hora que quer", disparou. Neto também trouxe Pedro ao debate, citando a atuação do centroavante do Flamengo no clássico contra o Vasco, no Maracanã — partida assistida pessoalmente por Ancelotti —, e questionou a lógica de priorizar Neymar sobre jogadores em melhor momento.
Quando isso muda o jogo
A análise do SportNavo sobre o histórico de Neymar em Copas do Mundo ajuda a contextualizar o tamanho da disputa. Em três edições — 2010, 2014 e 2018 —, o atacante marcou 6 gols, sendo artilheiro da Seleção nas três competições. Em 2014, no papel de protagonista absoluto em casa, chegou a 4 gols antes de se lesionar na quartas de final contra a Colômbia. Em 2022, no Catar, balançou as redes uma vez e sofreu entorse no tornozelo logo na estreia, desfalcando o Brasil por duas rodadas. A Copa de 2026 seria a quarta participação, feito que apenas Pelé (1958, 1962, 1966 e 1970), Cafu (1994, 1998, 2002 e 2006) e outros poucos brasileiros alcançaram.
O problema, como Neto apontou com precisão estatística incômoda, é que Pedro tem 27 anos, está em alta no Flamengo e foi observado ao vivo por Ancelotti numa partida em que marcou e sofreu pênalti. A disputa por posição no ataque brasileiro nunca foi tão concreta — e a sequência de quatro jogos de Neymar serve exatamente para colocar números na mesa antes do dia 18.
Por que agora
Historicamente, a Seleção Brasileira carregou para Copas do Mundo jogadores que chegaram ao torneio em condição física comprometida. Em 1994, Romário acumulou desgastes no Barcelona antes de ser convocado por Carlos Alberto Parreira e tornou-se artilheiro do torneio com 5 gols. Em 2002, Ronaldo havia sofrido convulsão às vésperas da final de 1998 e passara por duas graves lesões no joelho antes de marcar os dois gols da decisão contra a Alemanha. O precedente histórico, portanto, não condena Neymar — mas tampouco o absolve, porque nesses casos o atleta chegou comprovadamente em forma ao torneio.
A maratona de quatro jogos em menos de duas semanas funciona como um furacão de baixa pressão: não destrói tudo de uma vez, mas força o sistema a se reorganizar ao redor de um único ponto. Se Neymar atravessar essa sequência sem lesão e com desempenho convincente, Ancelotti terá o argumento físico que precisava para justificar a convocação. Se tropeçar, a vaga migra naturalmente para quem está em ritmo de jogo contínuo. O prazo é curto, os adversários são reais e o relógio parou de negociar.
O Santos entra em campo nesta terça-feira (5), no Paraguai, às 21h30 (horário de Brasília), contra o Deportivo Recoleta. Neymar começa. Ancelotti observa. A lista sai em 18 de maio.









