O helicóptero pousou em Granja Comary como sempre — com a pompa de quem chega ao topo do mundo. Câmeras, torcedores, a liturgia habitual que acompanha cada concentração da Seleção Brasileira. Mas quando a porta se abriu e Neymar Júnior desceu, o tornozelo direito enfaixado e a coxeira evidente quebraram qualquer romantismo. Era quarta-feira, véspera do início oficial dos trabalhos em Teresópolis, e o alarme já tocava.
A Confederação Brasileira de Futebol não demorou para confirmar o que os olhos já diziam. Em nota oficial, a CBF informou que Neymar não participou do treino da tarde e foi encaminhado a uma clínica no Rio de Janeiro para exames complementares:
"A Confederação Brasileira de Futebol informa que o futbolista Neymar Jr. não participou no entrenamiento de la selección brasileña celebrado este miércoles por la tarde em Teresópolis. El jugador fue trasladado a una clínica de la ciudad para someterse a pruebas complementares. No se facilitará más información hasta que el equipo médico haya concluido las evaluaciones."A suspeita recai sobre um estiramento no gemelo ou uma entorse de grau 1 no tornozelo, lesão que teria ocorrido no jogo contra a Dinamarca — partida em que o Brasil aplicou 4 a 0 e avançou de fase.
O momento em que Neymar virou protagonista do próprio pesadelo
Segundo os fisioterapeutas da seleção, Alex Evangelista e Charles Costa, a lesão se enquadra como entorse de grau 1. O problema não é apenas o diagnóstico — é o contexto em que ela aconteceu. Com o placar em 3 a 0 contra a Dinamarca, Neymar disputou um lance aéreo desnecessário, torceu o tornozelo e, mesmo sentindo dor intensa, recusou-se a sair de campo. O aparelho de estimulação elétrica utilizado depois do apito final diz muito sobre a extensão do desconforto. Foram 360 minutos disputados na fase de grupos, o único jogador da Canarinha a jogar todos os três jogos integralmente, com apenas 42 dias de férias no corpo antes da Copa.
Horas antes de se apresentar à concentração, o próprio Neymar havia descartado publicamente qualquer risco de desfalque no Mundial. A contradição entre a declaração e a imagem do tornozelo enfaixado resume bem a tensão que permeia essa seleção sempre que o camisa 10 está em pauta.
Doze anos de Copas e o mesmo roteiro de angústia
O Brasil já conhece essa história. Em julho de 2014, uma joelhada de Juan Zúñiga fraturou a terceira vértebra lombar de Neymar no quarto de final contra a Colômbia. Sem ele, a seleção caiu para 1 a 7 diante da Alemanha no Mineirão — o maior vexame da história do futebol brasileiro em Copas, assistido por 57.803 espectadores dentro do estádio e por bilhões ao redor do mundo. Quatro anos depois, na Rússia em 2018, Neymar chegou ao torneio com dores no pé direito após fratura no quinto metatarso pelo PSG, disputou a Copa carregando a limitação física e foi eliminado nas quartas de final pela Bélgica, 2 a 1. No Catar em 2022, entorse no tornozelo direito no primeiro jogo contra a Sérvia o tirou dos dois jogos seguintes da fase de grupos. Ele retornou nas quartas, marcou contra a Croácia na prorrogação, mas o Brasil foi eliminado nos pênaltis.
A sequência é quase cruel na sua regularidade. Desde Pelé — que jogou a Copa de 1966 machucado e foi duramente marcado, saindo do torneio ainda na fase de grupos —, nenhum jogador brasileiro carregou sobre os ombros tanto o peso de uma Copa quanto Neymar. E nenhum pagou um preço físico tão alto por isso. Nos anos 80, quando Zico, Sócrates e Falcão formavam a geração considerada a mais talentosa sem título, ao menos o Brasil chegava às quartas de final com o elenco intacto. A fragilidade de Neymar em torneios decisivos é um fenômeno sem paralelo na história recente da seleção.
O desafio de Carlo Ancelotti com a Canarinha dependente de um homem só
Carlo Ancelotti convocou Neymar em cima da hora, numa decisão que surpreendeu parte da comissão técnica e dividiu a imprensa especializada. O atacante do Santos, aos 34 anos, voltou ao futebol brasileiro após anos de lesões e instabilidade no Al-Hilal. A convocação foi uma aposta — e as primeiras horas de concentração já testam os limites dessa aposta.
O problema tático para Ancelotti é concreto. A seleção construiu sua identidade ofensiva em torno de Neymar como organizador do jogo no terço final, um papel que nenhum outro nome no elenco ocupa com a mesma naturalidade. Rodrygo e Vinicius Jr. funcionam como vetores de velocidade e desequilíbrio pelas pontas, mas a função de catalisador criativo — o jogador que recebe de costas para o gol, gira e distribui — pertence ao camisa 10. Sem ele em campo, o Brasil vira uma equipe de transições rápidas sem inteligência posicional no meio-ataque.
"Com 360 minutos acumulados, o único jogador verdeamarillo que jogou íntegros os três partidos da fase de grupos, o corpo de Neymar não está para demasiadas exigências", registrou o jornal El Periódico, em análise publicada logo após o jogo contra a Dinamarca.
A CBF prometeu divulgar o resultado dos exames assim que a equipe médica concluir as avaliações. Até lá, Ancelotti trabalha com incerteza sobre a disponibilidade do principal jogador do seu elenco para o próximo compromisso do Brasil na Copa do Mundo de 2026 — uma situação que o técnico italiano, experiente o suficiente para não perder o controle, precisará resolver nos próximos dias com a mesma frieza que usou para ganhar quatro Champions Leagues. O Brasil volta a campo em breve, e a resposta sobre Neymar virá antes disso.









