As lágrimas escorreram sozinhas. Quando o nome de Neymar foi anunciado por Carlo Ancelotti na lista dos 26 convocados para a Copa do Mundo de 2026, o atacante do Santos não tentou disfarçar. Em entrevista à Santos TV, dois dias após o evento no Museu do Amanhã, ele descreveu com precisão o que sentiu: um choro longo, demorado, que não foi de alívio imediato, mas de quem finalmente viu o fim de um túnel de 31 meses.

"Chorei por várias horas, não foi fácil chegar até aqui. Depois do meu nome anunciado, você sabe que valeu a pena passar por cima de tudo, aguentar o esforço", declarou o atacante.

O que 31 meses de ausência representam na carreira de um camisa 10

A última vez que Neymar havia vestido a amarelinha antes desta convocação foi em 17 de outubro de 2023, numa eliminatória contra o Uruguai, em Montevidéu — partida em que sofreu ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, lesão que o afastou por mais de um ano. Antes mesmo de se recuperar completamente dessa cirurgia, o atacante contraiu uma lesão muscular na coxa que estendeu o calvário até 2025. Ao retornar ao Santos em janeiro de 2026, estava há mais de dois anos sem jogar em ritmo competitivo regular.

Para contextualizar o peso dessa ausência: nas quatro edições anteriores de Copa do Mundo em que o Brasil participou, o camisa 10 foi peça central em três delas. Em 2014, marcou quatro gols em quatro partidas antes de ser derrubado por uma joelhada de Juan Camilo Zúñiga, na vitória por 2 a 1 sobre a Colômbia. Em 2018, balançou as redes duas vezes na Rússia. Em 2022, no Catar, anotou dois gols em seis jogos, incluindo um no pênalti que o colocou como artilheiro histórico da Seleção, com 79 gols — superando os 77 de Pelé.

A convocação para 2026 marca, portanto, sua quarta participação em Mundiais. Apenas Pelé, Ronaldo e Cafu, entre os brasileiros, chegaram a quatro Copas como titulares efetivos. Esse dado histórico, por si só, coloca a presença de Neymar numa prateleira de poucos.

A voz de Neymar, a voz de Fábio e o que os números não resolvem

A emoção do atacante contrasta com o desabafo silencioso de outro veterano. Aos 45 anos, o goleiro Fábio, do Fluminense, não foi convocado — e reagiu com uma frase que vai circular nos vestiários por semanas:

"Às vezes não é quem está no melhor momento, mas todos têm seus méritos e qualidades. Infelizmente, dentro do futebol... muita coisa que aconteceu que é melhor ficar quieto", disse o goleiro, após a vitória do Fluminense por 2 a 1 sobre o Bolívar, pela Libertadores.

Fábio foi o melhor goleiro do Brasileirão 2026 no primeiro trimestre da temporada, com o menor índice de gols sofridos por jogo entre os titulares das oito primeiras colocadas. Ancelotti optou por Alisson, Ederson e Weverton — todos com histórico extenso na Seleção, mas com fragilidades recentes documentadas. Alisson está afastado do Liverpool há mais de dois meses por lesão muscular na coxa direita e pode se apresentar à Granja Comary sem ter jogado uma partida sequer desde março. Ederson, em sua primeira temporada no Fenerbahçe, levou 37 gols em 36 jogos e foi expulso no clássico contra o Galatasaray. A lógica da convocação, ao menos no gol, foi baseada em currículo — não em forma.

O critério de Ancelotti, como o SportNavo identificou ao cruzar os dados da lista com o desempenho recente dos convocados, não foi uniforme: no ataque, prevaleceu a forma atual (Martinelli vive sua melhor temporada no Arsenal); no gol, prevaleceu a história. Neymar, curiosamente, ficou no meio-termo — tem o currículo e tem os jogos recentes pelo Santos, ainda que em ritmo aquém do esperado.

O que Ancelotti espera de Neymar e o que a Copa de 2026 pode ser

O técnico italiano foi claro ao anunciar a lista: não há titular garantido. A titularidade de Neymar, afirmou Ancelotti, será decidida nos treinos da Granja Comary, onde a seleção se apresenta em 27 de maio. A frase tem um peso específico quando se olha o histórico: nas últimas três Copas, Neymar foi titular incontestável. Nunca precisou disputar posição. Aos 34 anos, em recuperação de lesão, ele disputará espaço com Vinicius Jr., Rodrygo e Raphinha — os três com temporadas europeias superiores à sua.

A programação é apertada: amistoso contra o Panamá em 31 de maio, no Maracanã, e depois outro teste contra o Egito em Cleveland, em 6 de junho. A estreia no Mundial é contra o Marrocos em 13 de junho, em East Rutherford, nos arredores de Nova Jersey. Três nomes da lista — Marquinhos, Gabriel Magalhães e Martinelli — só se juntam ao grupo nos Estados Unidos, após a final da Champions League entre PSG e Arsenal, marcada para 30 de maio, em Budapeste.

Neymar entende o tamanho do desafio. Ao agradecer ao Santos e à torcida pela recuperação, ele não soou como quem já considera o lugar garantido:

O que 31 meses de ausência representam na carreira de um camisa 10 Neymar chorou
O que 31 meses de ausência representam na carreira de um camisa 10 Neymar chorou
"Quero agradecer a todos. Minha convocação não foi só para mim, foi para todos que fazem parte do processo, todos que estiveram comigo em campo, fora, cuidando da segurança, do nosso corpo, da nossa comida."

Há quem critique o espetáculo da convocação — o evento no Museu do Amanhã, com telões, apresentações artísticas e mestres de cerimônia, foi comparado desfavoravelmente ao vídeo de 60 segundos com que Lionel Scaloni convocou a Argentina campeã de 2022, sentado numa mesa com uma cuia de mate e uma lousa ao fundo. A crítica tem fundamento estético, mas não altera o campo: o Brasil entra no torneio com o maior artilheiro de sua história convocado, em recuperação física, disputando titularidade, e com três goleiros titulares abaixo do seu nível habitual. Esse é o retrato real do grupo de Ancelotti.

O amistoso de despedida contra o Panamá, no Maracanã, no dia 31 de maio, será o primeiro exame público de Neymar com a camisa amarela desde outubro de 2023 — e o primeiro teste concreto para Ancelotti definir quem começa contra o Marrocos. Para quem quiser ver com os próprios olhos se as lágrimas da convocação se transformaram em pernas em forma, esse jogo no Maracanã é o lugar certo.