Todo mundo já sabe que o Brasil venceu a Escócia por 3 a 0 e fechou o Grupo C na liderança. O que ainda está sendo processado — dentro e fora do vestiário — é o que aconteceu depois do apito final. Neymar foi para o vestiário, ficou sozinho e chorou. Não por drama, não para câmera. Chorou porque 981 dias é tempo demais para qualquer jogador de futebol ficar sem vestir a camisa que mais importa na carreira.

"Estou emocionado. Me emocionei sozinho no vestiário, chorei sozinho por poder viver isso de novo", disse Neymar aos repórteres após a vitória, no Hard Rock Stadium, em Miami.

O número 10 tinha atuado pela última vez pela Seleção Brasileira em 2023. Desde então, enfrentou uma grave lesão no joelho em outubro daquele ano, passou por um longo processo de recuperação e ainda sofreu uma lesão na panturrilha no mês passado — o que o deixou fora das duas primeiras partidas do Brasil nesta Copa do Mundo. Quando entrou em campo no segundo tempo contra os escoceses, com a torcida gritando seu nome, era sua primeira aparição com a amarelinha em quase três anos.

O que os minutos contra a Escócia revelam sobre o estado físico de Neymar

Neymar entrou no segundo tempo, com o placar já definido em 3 a 0 — gols de Vini Jr. (dois) e Matheus Cunha, todos com assistências de Bruno Guimarães. O contexto da entrada é relevante: Ancelotti não precisava arriscar nada, o resultado estava garantido, e o camisa 10 teve liberdade para jogar sem pressão de resultado. Esse tipo de cenário é o mais favorável possível para um atleta que soma apenas 25 dias de treinos intensos após a lesão na panturrilha.

O próprio Neymar reconheceu o estado físico com precisão cirúrgica:

"Estou bem fisicamente, graças a Deus. Foi ruim ficar esses dias parado, mas não fiquei totalmente parado. Estou há 25 dias treinando bastante para chegar nos jogos e estar bem."

Vinte e cinco dias de preparação para uma Copa do Mundo é uma janela estreita. Para ter dimensão do que isso representa: a distância entre 25 dias de treino e uma preparação física completa de pré-temporada, que costuma durar entre 8 e 10 semanas, é do tamanho do caminho entre Manaus e Salvador — longa, e cheia de variáveis no meio. Neymar sabe disso. Ancelotti também sabe.

Quatro Copas, 12 gols e assistências — o que o histórico diz sobre Neymar em mata-matas

Esta é a quarta Copa do Mundo de Neymar. Nos três torneios anteriores — 2014, 2018 e 2022 — ele acumulou oito gols e quatro assistências, números que o colocam entre os brasileiros mais decisivos da era moderna em Mundiais. Mas há uma distinção importante que os dados escondem: em 2014, Neymar foi o protagonista absoluto até se lesionar nas quartas de final contra a Colômbia. Em 2018, carregou o time nas costas numa campanha que terminou nas quartas. Em 2022, entrou machucado, voltou, marcou nas oitavas contra a Coreia do Sul, mas o Brasil caiu para a Croácia nas quartas, nos pênaltis.

O padrão se repete: Neymar em Copas oscila entre genial e ausente, e o Brasil ainda não encontrou a equação para depender menos dele nos momentos decisivos. A boa notícia desta edição é que a equipe de Ancelotti tem Vini Jr. como protagonista incontestável — dois gols contra a Escócia, liderança técnica desde a estreia — o que retira de Neymar o peso de ser o único carregador do time.

A questão tática que a comissão técnica precisa resolver antes das oitavas é objetiva: Neymar começa como titular em Houston, na segunda-feira (29), às 14h (horário de Brasília), ou entra como opção do banco para desequilibrar? Com apenas minutos de jogo no corpo e 25 dias de preparação, colocá-lo como titular desde o início representa um risco físico real. Mas mantê-lo no banco também tem custo — o de desperdiçar o ativo mais experiente da Seleção em fase eliminatória.

A decisão que Ancelotti precisa tomar antes de Houston

O adversário do Brasil nas oitavas será o segundo colocado do Grupo F, definido nesta quinta-feira (25). As candidatas eram Holanda, Japão, Suécia e Tunísia — esta última já eliminada após dois jogos com saldo de -8, zero pontos e nove gols sofridos. A lógica aponta para Holanda ou Japão como possíveis adversários, o que muda completamente o plano de Ancelotti para o setor ofensivo.

O treinador italiano tem nas mãos um grupo com liderança técnica de Vini Jr., liderança vocal de Danilo — que entrou no intervalo da estreia contra o Marrocos e o Brasil não sofreu mais gols desde então — e agora a variável Neymar, que soma quatro Copas de experiência e sabe exatamente o que uma fase eliminatória exige. A combinação é poderosa no papel. Mas papel aguenta tudo, e o mata-mata cobra ritmo de jogo, não só talento.

O que os dados desta Copa sugerem é que o Brasil funciona melhor quando Neymar é opção e não obrigação. A vitória sobre a Escócia foi construída sem ele em campo — e foi avassaladora. A entrada do camisa 10 no segundo tempo adicionou qualidade técnica e emoção, mas o placar já estava definido. Nas oitavas, o contexto será diferente: qualquer erro pode ser eliminatório, e Ancelotti precisará decidir se usa Neymar como trunfo guardado ou como peça do onze inicial.

Levantado em matéria do SportNavo, o histórico de Neymar em fases eliminatórias de Copas mostra que ele marcou em oitavas (2018, contra o México) e nas quartas (2022, contra a Coreia do Sul), mas nunca foi além desse estágio com a Seleção. A chance de mudar esse número começa na segunda-feira, em Houston, diante de um adversário ainda a ser confirmado — e com um Neymar que, aos 34 anos, chorou sozinho no vestiário porque sabe que esta pode ser a última oportunidade… e aí vem o problema.