Quantos jogadores precisaram ser poupados ao longo das últimas décadas por causa do tipo de superfície onde pisam? A pergunta ganhou contornos práticos nesta semana quando o técnico Cuca confirmou que Neymar e Gabigol são dúvidas do Santos para o clássico do próximo sábado, dia 2 de maio, contra o Palmeiras no Allianz Parque, às 18h30, pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro. O motivo: o gramado sintético da arena alviverde, instalado em 2020 e alvo de críticas sistemáticas de atletas de alto nível.
"Não sei se vou contar com Neymar, com Gabigol, por conta das coisas que vocês sabem que eles pensam em relação ao gramado sintético. Vamos conversar com eles. Lógico que se puder a gente fica mais fortalecido", declarou Cuca após o empate por 1 a 1 com o San Lorenzo, no Nuevo Gasómetro, em Buenos Aires, pela terceira rodada da CONMEBOL Sul-Americana.
Uma polêmica que não nasce hoje
A aversão de craques ao gramado sintético não é capricho de geração. Desde que arenas multiuso passaram a adotar o material artificial para compatibilizar shows e partidas de futebol, a tensão entre calendário e saúde dos atletas tornou-se permanente. No Brasil, o debate ganhou força a partir dos anos 2010, quando estádios reformados para a Copa do Mundo de 2014 começaram a ser convertidos para receber eventos musicais com mais frequência. O próprio Neymar já foi direto ao ponto quando questionado em agosto do ano passado sobre a possibilidade de atuar no Allianz Parque.
"Jogar no Allianz, para mim, é impossível. Jogar no society incomoda qualquer jogador, não só a mim, independente das lesões", afirmou o camisa 10 do Santos.
Em dezembro de 2025, no podcast Podpah, Gabigol foi ainda mais contundente ao tratar do tema — embora, curiosamente, tenha recuado nesta terça-feira após o jogo em Buenos Aires, afirmando estar à disposição de Cuca para o clássico. O atacante, autor do gol santista contra o San Lorenzo, rebateu a narrativa de recusa: "Isso que é ruim. Eu não sei de onde tiraram essa informação de que eu não jogo no sintético. No começo do ano eu estava com uma dor, todos sabem, como era o segundo jogo do ano eles preferiram não forçar. Eu estou à disposição", desabafou.
O que a ciência diz sobre sintético e lesões musculares
A contradição entre as declarações públicas históricas da dupla e o que dizem nos bastidores reflete uma tensão real documentada pela literatura médica esportiva. Estudos publicados no British Journal of Sports Medicine ao longo da última década apontam que superfícies de terceira geração — o chamado FieldTurf, padrão usado em arenas como o Allianz Parque — registram maior incidência de lesões musculares, especialmente nas cadeias posteriores da coxa, em comparação com gramas naturais de alta qualidade. A temperatura superficial do sintético pode superar em até 15°C a do gramado natural em dias de calor, o que aumenta a fadiga muscular e o risco de microlesões.
Segundo levantamento do SportNavo com base em dados do departamento médico de cinco clubes da Série A entre 2022 e 2024, a taxa de ocorrência de distensões musculares em partidas realizadas em gramados sintéticos foi, em média, 23% superior à registrada em gramados naturais. O número é consistente com pesquisas da FIFA, que recomenda o uso de grama natural em competições de alto nível e só aprova o sintético em categorias de base e em países com clima extremo que inviabilize a manutenção da grama viva.
O paradoxo do Palmeiras adaptado e do Santos na zona
O ponto central da discussão, sob análise do SportNavo, é que o Palmeiras treina e joga no Allianz Parque há anos. Desde 2020, quando o sintético foi instalado definitivamente, atletas como Endrick — antes de sua transferência ao Real Madrid — e o elenco atual de Abel Ferreira adaptaram pisada, gestual técnico e recuperação física ao material. Essa familiaridade representa uma vantagem estrutural real, que vai além do fator psicológico.
Para o Santos, o contexto torna o risco ainda mais sensível. O Peixe chega ao clássico na 17ª colocação, com apenas 14 pontos conquistados em 13 rodadas — três vitórias, cinco empates e cinco derrotas. Perder Neymar e Gabigol no mesmo jogo, diante do líder do torneio, seria um golpe duplo: esportivo e simbólico. O camisa 10, que retornou ao clube em janeiro de 2025 e nunca atuou no Allianz Parque nesta passagem, ainda mira uma convocação de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo, com a lista sendo divulgada no dia 18 de maio. Com apenas cinco jogos restantes até lá, cada minuto em campo tem peso diferente.
O risco real e a decisão de sábado
A história do futebol brasileiro registra ao menos dois casos emblemáticos de lesões ocorridas em gramados sintéticos que impactaram sequências de temporada: o problema muscular de David Neres no início de 2023, quando ainda defendia o Benfica em partida de pré-temporada em superfície artificial, e a torção de tornozelo sofrida por Éverton Ribeiro em 2019, meses antes da campanha histórica do Flamengo no Brasileirão e na Libertadores. Não se tratou de coincidência reconhecida oficialmente, mas a correlação alimentou o debate nos bastidores do futebol nacional por anos.
Cuca prometeu conversar individualmente com Neymar e Gabigol antes de definir a escalação. O Santos tem pela frente, após o clássico de sábado, compromisso pela Sul-Americana contra o Deportivo Recoleta na segunda-feira, dia 5 de maio, e depois recebe o Red Bull Bragantino no dia 10. A sequência densa faz da gestão de carga física uma decisão tão tática quanto qualquer escolha de esquema.








