Todo mundo já sabe que Neymar pediu desculpas a Robinho Júnior e que o treino do domingo (3) no CT Rei Pelé terminou sem maiores consequências disciplinares. O que ainda não foi devidamente examinado é por que um atacante de 34 anos, capitão do Santos, reagiu da forma que reagiu a um drible aplicado por um garoto de 18 anos — e por que esse tipo de reação se repete com uma regularidade que já não pode ser atribuída ao acaso.

A cena

A atividade era de baixa intensidade: um exercício de "um contra um" reservado aos atletas que não haviam atuado no empate por 1 a 1 contra o Palmeiras no sábado (2). Robinho Júnior, filho do ex-atacante Robinho e integrante do elenco profissional santista desde meados de 2025, aplicou um drible em Neymar durante a movimentação. A resposta do veterano, segundo versões apuradas nos bastidores, oscila entre uma cobrança verbal intensa e, conforme outros relatos, um tapa seguido de uma rasteira no jovem atleta. As versões divergem; o desfecho, não: Robinho Júnior deixou o campo em direção aos vestiários, e Neymar o seguiu para se desculpar.

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O clube ainda não emitiu nota oficial sobre o incidente. A imprensa espanhola, porém, foi rápida. O diário Marca afirmou que o camisa 10 santista

"adicionou mais um problema a uma temporada difícil"
, enquanto o As escreveu que o episódio coloca Neymar em uma
"situação muito ruim"
na disputa por uma vaga na Copa do Mundo. A repercussão internacional diz algo sobre o peso simbólico do atleta — e sobre o custo crescente de cada deslize.

O contexto que explica

Conforme levantamento do SportNavo, este não é o primeiro nem o segundo episódio de atrito de Neymar em ambiente de treino. Em 2010, ainda no próprio Santos, o então jovem atacante se envolveu em uma confusão com Ronaldinho Gaúcho — um dos maiores ídolos do futebol brasileiro, que estava no clube em sua fase final de carreira. Em 2017, já no Barcelona, houve uma discussão acalorada com o lateral Nelson Semedo durante uma sessão de treinos no centro esportivo do clube catalão. Agora, em 2026, o padrão se repete no mesmo clube onde começou: o Santos.

A sociologia do esporte oferece uma lente útil para esse fenômeno. Atletas de elite constroem identidades fortemente ancoradas na superioridade técnica; quando essa superioridade é questionada — mesmo em contexto lúdico — a resposta pode ser desproporcional. O problema, no caso de Neymar, é que o padrão atravessa clubes, países e décadas, o que sugere algo estrutural, não circunstancial. Há, também, o peso da relação afetiva: Robinho Júnior era tratado como um protegido de Neymar, que manteve laços próximos com o pai do jovem durante sua primeira passagem pela Vila Belmiro, entre 2009 e 2013. Reagir com violência — mesmo que verbal — contra alguém que ocupa esse lugar simbólico revela uma fragilidade que vai além do competitivo.

A cena Neymar e o drible que reacendeu um padrã
A cena Neymar e o drible que reacendeu um padrã

Os três episódios em perspectiva

  • 2010 — Santos: Confusão com Ronaldinho Gaúcho em treino; Neymar tinha 18 anos.
  • 2017 — Barcelona: Discussão com Semedo; Neymar tinha 25 anos e era o jogador mais caro do mundo à época.
  • 2026 — Santos: Desentendimento com Robinho Júnior, de 18 anos; Neymar tem 34 e busca vaga no Mundial.

A progressão cronológica é reveladora: o intervalo entre os episódios diminuiu, e a exposição pública de cada um aumentou. Em 2010, o incidente com Ronaldinho mal saiu dos corredores do clube. Em 2017, circulou na imprensa europeia por alguns dias. Em 2026, o Marca e o As repercutiram o caso no mesmo dia, e o debate sobre a convocação para a Copa do Mundo entrou na pauta imediatamente.

As implicações imediatas

O técnico Carlo Ancelotti, que assumiu a Seleção Brasileira, monitora o desempenho e o comportamento dos candidatos ao Mundial. Neymar acumula, nesta temporada de 2026, uma série de polêmicas paralelas: discussões com torcedores, a prática de pôquer recreativo que gerou repercussão negativa e agora o episódio com Robinho Júnior. A análise exclusiva do SportNavo mostra que a janela de convocação para a Copa do Mundo se estreita a cada semana que passa sem que o atacante entregue atuações consistentes em campo — e cada ruído fora dele pesa na equação de Ancelotti.

Do ponto de vista institucional, o Santos enfrenta o desafio de gerir um ambiente de vestiário que inclui um capitão com histórico de reações explosivas e jovens atletas em formação. Robinho Júnior, que integra o elenco profissional há menos de um ano, precisou de maturidade para absorver um golpe que veio exatamente de quem deveria ser seu principal referencial dentro do clube. O episódio não destruiu a relação — o pedido de desculpas foi feito ainda no CT —, mas deixa uma marca no processo de desenvolvimento do atleta de 18 anos.

O contexto que explica Neymar e o drible que reacendeu um padrã
O contexto que explica Neymar e o drible que reacendeu um padrã

Neymar retorna aos gramados na terça-feira (5), quando o Santos enfrenta o Recoleta, do Paraguai, pela Copa Sul-Americana, em Assunção. Serão 90 minutos para transformar polêmica em argumento — o único tipo de resposta que ainda interessa a Ancelotti. São 34 anos de carreira e três episódios de atrito em treino: a conta está aberta.