— Cara, tu acha que o Ney vai pra Copa?
— Depende. Tá jogando?
— Tá. Fez dois gols nos últimos três jogos.
— Então vai.
Essa conversa aconteceu em algum bar do Brasil nessa semana. E a resposta curta, por mais que pareça superficial, tem embasamento estatístico real. Neymar, 34 anos, voltou a ter sequência no Santos e os números recentes justificam — com contexto analítico, não só com nostalgia — a declaração do técnico Cuca após a vitória por 2 a 0 sobre o Coritiba, quarta-feira, no Couto Pereira, pela quinta fase da Copa do Brasil.
O que os últimos três jogos de Neymar revelam além do placar
Dois gols e uma assistência em três partidas. Num primeiro olhar, parece pouco. Mas o contexto muda tudo. Neymar ficou boa parte do ciclo pós-Copa 2022 fora dos gramados por lesões severas — ruptura do ligamento cruzado anterior e diversas recaídas musculares. Retornar com sequência de jogos seguidos já é, por si só, um dado relevante.
O ponto que mais me chama atenção analiticamente é o perfil das participações. Neymar não está funcionando como um centroavante que finaliza muito — o volume de chutes por jogo dele ainda é baixo. O que aparece nos dados é outro padrão: ele está operando como um criador de último terço, gerando xA (expected assists) acima da média de atacantes do Brasileirão. Em termos simples, xA mede a qualidade das oportunidades que um jogador cria para os companheiros — e Neymar está entregando passes em zonas de alto perigo, mesmo sem dominar o jogo fisicamente como fazia antes.
Outro indicador que sustenta a análise é o volume de progressive passes — passes que avançam o jogo pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Neymar lidera essa métrica entre os meias e atacantes do Santos na temporada 2026, o que confirma o que Cuca descreveu na coletiva:
"Não é aquele Neymar do passado que levava dentro, mas ele cria hoje uma dificuldade enorme para o adversário. Na Seleção, ele pode ajudar de muitas maneiras, vindo de trás, pifando alguém, com inteligência. Ele organiza, define, joga do lado do campo, joga de 10, de falso 9."
Essa fala do treinador é mais sofisticada do que parece. Cuca está descrevendo, sem usar o jargão técnico, um jogador que migrou de perfil: de driblador vertical para playmaker de transição. E isso tem valor tático real numa Copa do Mundo.

Como Neymar se encaixa no esquema que Ancelotti montou para a Seleção
Carlo Ancelotti divulga os 26 convocados na próxima segunda-feira, dia 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. A pergunta que fica é: qual função Neymar ocuparia no esquema da Seleção?
Ancelotti costuma montar o Brasil num 4-3-3 ou 4-2-3-1 com variações. No segundo formato, a posição de meia-atacante central — o "10" que conecta o segundo e o terceiro terço — é onde Neymar encaixaria melhor. E aqui entra uma métrica importante para comparar candidatos: o PPDA (passes permitidos por ação defensiva), que mede o quanto um time pressiona o adversário. Quando Neymar está em campo pelo Santos, o time adversário tem mais dificuldade de sair jogando pela pressão que ele aplica nas costas do primeiro passe — o que eleva indiretamente o PPDA favorável ao Peixe.
Isso importa porque Ancelotti construiu uma Seleção que pressiona alto. Um Neymar que consegue participar da primeira linha de pressão — mesmo que por poucos segundos antes de recuar — é um jogador diferente daquele que esperava a bola parado na meia-lua.

"Um jogador de 34 anos que ainda gera desequilíbrio posicional sem precisar do drible não está em declínio — está em transição de perfil. Isso é maturidade tática, não decadência." — analista de desempenho de uma comissão técnica da Série A europeia, em entrevista recente a um podcast especializado.
Comparando com outros candidatos à posição no setor ofensivo da Seleção, o diferencial de Neymar aparece menos nos números brutos e mais nas defensive actions posicionais e na capacidade de gerar xG indireto — ou seja, criar situações que aumentam a probabilidade de gol mesmo sem finalizar. Isso é difícil de replicar por jogadores mais jovens que ainda operam num futebol mais direto.
O que ainda falta para Neymar carimbar o passaporte antes de Ancelotti decidir
Antes da lista ser divulgada, o Santos enfrenta o mesmo Coritiba — desta vez pelo Brasileirão 2026 — no domingo, na Neo Química Arena. Cuca foi direto:
"Quem sabe carimba o passaporte com um jogo bom no domingo."
Não é retórica. Ancelotti e sua comissão técnica acompanham os jogos em tempo real e têm acesso a dados de rastreamento. Uma boa atuação no domingo — com participação em gols, volume de progressive passes e presença nas transições — pode sim influenciar uma decisão que, segundo o próprio Cuca, já está "muito bem encaminhada".
O que ainda gera dúvida legítima é a consistência física. Neymar completou os 90 minutos em quantos dos últimos três jogos? A resposta a essa pergunta importa mais para Ancelotti do que qualquer xG isolado. Um jogador que precisa ser substituído no intervalo tem utilidade limitada num torneio de mata-mata como a Copa do Mundo.
- 2 gols e 1 assistência nos últimos 3 jogos pelo Santos
- xA elevado entre atacantes do Brasileirão 2026 — criação em zonas de alto perigo
- Progressive passes — líder no setor ofensivo do Santos na temporada
- Versatilidade posicional — atuou como meia, falso 9 e ponta nos últimos jogos
- Fator mobilização — Cuca citou a recepção na Argentina (San Lorenzo e Recoleta) como termômetro do impacto que Neymar tem na Copa
Neymar está de volta mesmo — e os dados no Santos confirmam isso. O jogo de domingo, contra o Coritiba, às margens da convocação mais aguardada do futebol brasileiro em anos, é a última janela antes que Ancelotti feche a lista na segunda-feira, dia 18.









