A última vez que um camisa 10 do Brasil chegou a uma Copa do Mundo com produção ofensiva tão modesta na temporada anterior foi em 1966 — quando Pelé, machucado e mal aproveitado na Inglaterra, havia disputado apenas uma fração da temporada do Santos antes do torneio. Neymar, 34 anos, repete a circunstância em escala diferente: 13 gols marcados entre agosto de 2025 e junho de 2026, número que o coloca abaixo dos camisas 10 de Bósnia, República Tcheca e Suécia — seleções que nenhum analista sério colocaria na prateleira de candidatas ao título.

O número 13 e o que ele revela sobre a temporada de Neymar

Treze gols. Esse é o dado central que a CBF carrega para os Estados Unidos, o México e o Canadá. Para contextualizar a magnitude do problema, basta alinhar os camisas 10 do Mundial: Ermedin Demirović, do Stuttgart e da Bósnia, marcou 15 vezes no período; Patrik Schick, do Bayer Leverkusen e da República Tcheca, converteu 23 oportunidades; Benjamin Nygren, do Celtic e da Suécia, chegou a 22 gols. O uruguaio Giorgian de Arrascaeta somou 18, o egípcio Mohamed Salah registrou 19 e o senegalês Sadio Mané alcançou 24. No topo absoluto da comparação, Kylian Mbappé encerrou a temporada 2025/26 com 48 gols entre Real Madrid e seleção francesa — seria injusto chamar de temporada paralela à de Neymar, mas é uma temporada em escala de outro planeta.

O próprio Lionel Messi, aos 38 anos, acumulou 36 gols na temporada, quase três vezes o total do brasileiro. Esses números não são opinião — são registros documentados da temporada europeia e das competições sul-americanas encerradas até maio de 2026, conforme registrado pelo SportNavo ao longo dos últimos meses de cobertura.

As lesões que transformaram Neymar em jogador de aparições no Santos

A produção reduzida tem explicação técnica e médica. Santos, clube pelo qual Neymar retornou ao Brasil, conviveu com um jogador de participações fragmentadas durante toda a temporada. O histórico de lesões acumuladas — ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo em outubro de 2023, seguida de procedimentos no tornozelo direito em 2024 — comprometeu a continuidade física do atleta de forma estrutural, não episódica.

A mais recente intercorrência é uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha direita, sofrida ainda a serviço do Santos e confirmada quando o jogador se apresentou à pré-temporada da Copa, na semana passada. O departamento médico da CBF estipulou prazo de recuperação de duas a três semanas a partir de 29 de maio, o que coloca em risco a participação de Neymar nas duas primeiras partidas do Brasil no Mundial. O técnico Carlo Ancelotti, no entanto, tratou o assunto com objetividade:

"É um pequeno problema. Ele estará conosco para a Copa."

A declaração de Ancelotti encerrou o debate público sobre eventual corte, mas não eliminou a questão de fundo: um jogador que disputou menos de 40% dos jogos do Santos na temporada 2025/26 terá ritmo suficiente para ser determinante em um Mundial?

O número 13 e o que ele revela sobre a temporada de Neymar Neymar fez 13 gols na
O número 13 e o que ele revela sobre a temporada de Neymar Neymar fez 13 gols na

Quatro Copas com a 10 e o peso histórico da camisa que Pelé consagrou

A camisa 10 do Brasil em Copas do Mundo carrega um peso estatístico que vai além do simbolismo. Pelé a vestiu em quatro edições — 1958, 1962, 1966 e 1970 — e marcou 12 gols no total, sendo artilheiro do torneio de 1958 com 6 gols aos 17 anos. Neymar, ao usar o número pela quarta vez consecutiva em 2026, iguala o feito do Rei em quantidade de Copas com a camisa, tornando-se o único jogador além de Pelé a alcançar essa marca. Nas três edições anteriores — 2014, 2018 e 2022 — o atacante somou 8 gols: 4 em 2014 (antes da lesão contra a Colômbia), 2 em 2018 e 2 em 2022.

O aproveitamento histórico de Neymar em Copas é de 8 gols em 14 jogos disputados, média de 0,57 por partida. Pelé, para comparação, registrou 12 gols em 14 jogos, média de 0,86. Ronaldo Fenômeno, com a camisa 9 mas como referência de produção em torneios, marcou 15 gols em 19 jogos ao longo de quatro edições, média de 0,79. O dado não é acusação — é régua histórica.

A seleção brasileira inicia a busca pelo hexacampeonato e pelo fim de um jejum de 24 anos sem vencer a Copa no dia 13 de junho, contra Marrocos. Antes disso, enfrenta o Egito de Mohamed Salah neste sábado, em Cleveland — amistoso que servirá também como termômetro físico do elenco, já que Neymar provavelmente não terá condições de atuar. O Brasil vem de goleada por 6 a 2 sobre o Panamá no último domingo, resultado que aqueceu o ambiente, mas que não responde à pergunta central: quando a camisa 10 entrar em campo de verdade, os 13 gols da temporada terão ficado para trás?