O cheiro de grama molhada do Defensores del Chaco, em Assunção, vai receber Neymar na próxima terça-feira (05) com uma carga que vai muito além de uma partida de Copa Sul-Americana. Cada toque de bola do camisa 10 do Santos contra o Desportivo Recoleta será escrutinado por olheiros, torcedores e, mais importante, por Carlo Ancelotti — o homem que em 18 de maio definirá quem vai à Copa do Mundo de 2026.

O que aconteceu

Neymar foi poupado no empate do Santos contra o Palmeiras, no Allianz Parque, por causa do gramado sintético — terreno que agrava o problema crônico no tornozelo direito que o acompanha desde 2023. O técnico Cuca confirmou a ausência e, logo depois, jogou luz sobre o que vem pela frente.

"O Neymar vai jogar, claro que vai jogar. Depois, é dar sequência até a convocação, fazer o melhor possível e estar energizado. Agora é largar tudo em campo, nos ajudar e se ajudar", disse Cuca após o clássico.

Entre a partida no Paraguai e o dia da lista de Ancelotti, Neymar pode acumular até quatro jogos com a camisa do Santos: Desportivo Recoleta (fora), Red Bull Bragantino (casa), Coritiba (fora) e Coritiba (casa). Quatro chances. Uma janela pequena, mas real.

Por que isso importa

Pela primeira vez em 16 anos, Neymar não chega a uma Copa com a vaga no bolso. Ele disputou os Mundiais de 2014, 2018 e 2022 sempre como o nome central da Seleção — capitão de fato e de camisa. Mas em 2026, o próprio atacante admitiu numa série de bastidores publicada no YouTube que, com Ancelotti, pela primeira vez não tem a certeza de que estará na lista. Nas palavras dele, antes do treinador italiano, "sempre sabia" que seria convocado se estivesse saudável.

A situação evoca uma cena quase esquecida: em 2010, um Neymar de 18 anos também era alvo do clamor popular, também estava em grande fase no Santos — mas Dunga ignorou a pressão e não o convocou para a África do Sul. O paralelo é incômodo porque, naquela época, o problema era inexperiência; agora, aos 34 anos, são as lesões e as lacunas no calendário com a Seleção. Como no roteiro de O Curioso Caso de Benjamin Button, Neymar parece viver as incertezas de convocação ao contrário da ordem natural de uma carreira.

"Vocês sabem, ele sente muito em jogar no sintético e por isso não veio. Cada um tem uma ideia, respeito quem não gosta, principalmente quem tem algum problema de articulação, como o Neymar tem no tornozelo", explicou Cuca sobre a ausência no clássico.

Os números por trás

A matemática das convocações de Neymar desde 2010 revela um padrão que, agora, está se quebrando. Das cinco convocações feitas por Ancelotti para amistosos e Eliminatórias desde que assumiu o comando da Seleção, Neymar esteve em apenas duas pré-listas — e foi cortado nas duas por problemas físicos, sem sequer entrar em campo com a camisa amarela sob a gestão do italiano. Conforme levantamento do SportNavo, nenhum outro jogador com histórico de titular absoluto chegou a uma Copa em situação tão incerta quanto esta.

Em 2010, os números defendiam Neymar mesmo sem convocação prévia: dez gols no Campeonato Paulista e participação decisiva no Santos campeão paulista e da Copa do Brasil sob Dorival Júnior. Dunga resistiu. Em 2026, o atacante retornou ao Santos vindo de quase dois anos fora por ruptura do ligamento cruzado anterior e ainda busca regularidade — o contexto estatístico é radicalmente diferente daquele que quase o levou à África do Sul.

A análise do SportNavo mostra que, nas três Copas em que participou, Neymar foi o protagonista absoluto: artilheiro do Brasil em 2014 com quatro gols antes de se machucar contra Colômbia, principal nome em 2018 mesmo com a eliminação nas quartas e ainda titular em 2022, quando o Brasil caiu nos pênaltis para a Croácia nas quartas de final. O peso simbólico é enorme. O peso físico de 2026 é maior ainda.

O próximo capítulo

Assunção vai receber Neymar numa terça-feira quente de maio. O Estádio Defensores del Chaco já tem todos os ingressos vendidos — sim, o nome do camisa 10 ainda move multidões fora do Brasil. A partida contra o Desportivo Recoleta, às 21h30 (horário de Brasília), é o primeiro teste real de uma sequência que vai determinar se Ancelotti terá argumento esportivo suficiente para incluí-lo na lista final do dia 18.

O treinador italiano acompanha Neymar de perto desde que assumiu o cargo. A decisão, segundo o ambiente da CBF, será técnica — rendimento em campo, condição física e a concorrência de nomes como Rodrygo, Raphinha e Endrick, todos em temporada europeia robusta. Para o torcedor que quer acompanhar cada passo dessa corrida contra o relógio, os jogos do Santos nas próximas duas semanas valem mais do que qualquer especulação: vale gravar a partida de terça contra o Recoleta e observar com atenção o que Neymar fará quando o Paraguai parar para vê-lo jogar.