A lista chegou à Fifa na segunda-feira, 11 de maio, sem cerimônia e sem coletiva de imprensa. Cinquenta e cinco nomes, enviados pela CBF como pré-convocação para a Copa do Mundo. Dentro dela, um número de camisa que ainda paralisa o país: Neymar, do Santos, aparece entre os possíveis representantes do Brasil no Mundial disputado nos Estados Unidos, México e Canadá a partir de 11 de junho. Carlo Ancelotti tem até 18 de maio para cortar 29 nomes e entregar os 26 definitivos. Esse prazo de sete dias vale mais do que qualquer convocação dos últimos quatro anos.
A pré-lista de Ancelotti e o peso dos que ficaram de fora
Dos 58 atletas convocados por Ancelotti desde que assumiu o comando da Seleção, quatro estão fora por lesão confirmada: Éder Militão e Rodrygo, do Real Madrid, Estêvão, do Chelsea, e Vanderson, do Mônaco. Outros cinco que vestiram a amarelinha sob o comando do italiano — Caio Henrique, Beraldo, André, Joelinton e Vitor Roque — não aparecem sequer na pré-lista de 55. É um recorte que expõe a lógica seletiva do treinador: 47 nomes com histórico na era Ancelotti mais um grupo de retornantes que nunca foram chamados de forma definitiva pelo italiano, como Thiago Silva (Porto, 41 anos), Matheus Pereira (Cruzeiro), Pedro (Flamengo) e o próprio Neymar.
O apagamento técnico de Joelinton e André da pré-lista, por exemplo, não gerou um décimo do debate que a inclusão de Neymar provocou. Isso diz algo sobre o que o Brasil ainda projeta no camisa 10: expectativa ou trauma, dependendo de quem você pergunta.
Quando Neymar joga, o Brasil respira — e quando ele some, o país culpa a lesão
Quando Neymar entra em campo com ritmo e confiança, ele ainda é capaz de criar desequilíbrios que nenhum outro atacante brasileiro produz com a mesma consistência. Quando Neymar some por lesão ou apagamento, toda a estrutura ofensiva construída ao redor dele desmorona sem alternativa imediata. Esse ciclo se repetiu com precisão clínica desde a Copa do Qatar, em 2022, quando ele machucou o tornozelo na estreia contra a Sérvia e voltou apenas nas oitavas de final, marcando um dos gols mais bonitos do torneio antes de a Seleção ser eliminada nos pênaltis pela Croácia.
De lá para cá, a conta de ausências é pesada. No Al-Hilal, entre 2023 e 2025, Neymar disputou menos de 10 partidas em quase dois anos por conta de uma ruptura do ligamento do joelho esquerdo sofrida em outubro de 2023. A rescisão com o clube saudita e o retorno ao Santos no início de 2025 reabriu a janela de possibilidades, mas o histórico médico pesa na balança de qualquer comissão técnica séria. O próprio Casemiro, em entrevista recente, defendeu a presença do companheiro com um argumento pragmático:
"Ele pode mudar o jogo. Quando está bem, ninguém para o Neymar."
A fala do volante do Manchester United resume exatamente a divisão que existe dentro do vestiário brasileiro — e fora dele.
O debate que vai além do campo e chega ao 18 de maio
A imprensa especializada está rachada de um jeito que não se via desde a discussão sobre a titularidade de Fred na Copa de 2014. Colunistas de veículos como Lance! e Trivela apontam para o mesmo nó: Neymar nunca foi convocado de forma definitiva por Ancelotti em nenhuma data Fifa anterior, aparecendo apenas em listas largas que foram depois reduzidas. Sua inclusão na pré-lista de 55 é, portanto, uma janela aberta, não uma confirmação.
As redes sociais amplificam a polarização com uma velocidade que os dados de engajamento deixam evidente. Publicações sobre a possível convocação de Neymar acumulam, em média, três vezes mais interações do que conteúdos sobre outros convocados confirmados como Vinicius Jr. e Raphinha. Isso não transforma curtidas em argumentos técnicos, mas revela o peso simbólico que o atacante ainda carrega no imaginário nacional — e o quanto essa carga interfere no debate racional sobre rendimento e disponibilidade física.
Do ponto de vista estrutural, a pré-lista de 55 inclui quatro goleiros — Alisson, Bento, Ederson e Hugo Souza —, além de uma defesa recheada de nomes do futebol europeu, como Gabriel Magalhães (Arsenal), Marquinhos (PSG) e Bremer (Juventus). No meio, Bruno Guimarães (Newcastle) e Andreas Pereira (Palmeiras) disputam vagas com Casemiro (Manchester United). No ataque, a concorrência por posições ao lado de Vinicius Jr. é onde a decisão sobre Neymar vai pesar mais diretamente.
A Bósnia foi a primeira das 48 seleções do Mundial a anunciar seus 26 convocados definitivos, no dia 11 de maio. O Brasil divulga a lista final no dia 18. Neymar ou não, essa data vai definir qual versão do país vai para o campo — a que aposta na memória afetiva ou a que escolhe a margem de segurança.










