Na Copa do Mundo de 2002, Ronaldo Fenômeno chegou ao Japão e à Coreia do Sul carregando duas temporadas de pesadelos médicos — a convulsão em 1998, as cirurgias no joelho em 1999 e 2000 — e mesmo assim marcou oito gols, sagrou-se artilheiro e foi eleito o melhor jogador do torneio. A última vez que um atleta brasileiro chegou a um Mundial com tantas interrogações sobre o seu corpo, o resultado foi aquele. Agora, em 2026, Neymar ocupa posição análoga: está na pré-lista de 55 nomes enviada por Carlo Ancelotti à Fifa nesta segunda-feira, 11 de maio, mas a distância entre constar num documento administrativo e embarcar para os Estados Unidos nunca foi tão larga para ele.
O que a pré-lista de 55 nomes representa para Neymar
O ofício enviado à Fifa nesta segunda-feira não é convocação — é uma janela de possibilidades com prazo de validade. Quem não aparecer nessa relação de 55 jogadores está automaticamente eliminado da Copa do Mundo, independentemente de qualquer recuperação posterior. Neymar consta, assim como Estêvão e Thiago Silva, segundo informações confirmadas. O documento não será divulgado publicamente nem mesmo comunicado aos atletas envolvidos — é um instrumento interno da CBF e da comissão técnica de Ancelotti para preservar margem de manobra até 18 de maio, quando os 26 convocados definitivos serão anunciados.
A lógica do processo é simples: os 55 nomes precisam prever lesões e oscilações de forma. Ancelotti já perdeu Éder Militão e Rodrygo por lesão antes mesmo de a pré-lista ser protocolada. Rodrygo, que marcou três gols nas Eliminatórias Sul-Americanas de 2026, era considerado titular no setor ofensivo. A ausência dele, paradoxalmente, abre uma fresta para Neymar — mas não resolve a questão central, que é física.
Histórico de lesões que Ancelotti precisa pesar antes de decidir
Neymar disputou sua última partida completa por uma seleção brasileira em outubro de 2023, quando rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo durante o jogo contra o Uruguai pelas Eliminatórias, em Montevidéu. Antes disso, havia perdido a Copa do Mundo de 2014 com fratura na vértebra lombar (jogo contra a Colômbia, quartas de final), ficou fora de quase toda a fase de grupos de 2018 por torção no tornozelo e somou 18 meses de ausência entre 2019 e 2021 por lesões no tornozelo direito. O retorno ao Santos em 2025 foi cercado de expectativa, mas o volume de jogos acumulados até maio de 2026 está muito abaixo do que Ancelotti precisaria ver para tomar uma decisão sem risco calculado.
Para efeito comparativo histórico, Garrincha chegou à Copa de 1966 na Inglaterra com o joelho esquerdo operado e o direito comprometido — tinha 32 anos e era o mesmo jogador que havia sido eleito o melhor da Copa de 1962 no Chile, com dois gols na final contra a Tchecoslováquia. Naquele Mundial inglês, fez apenas dois jogos, sem impacto. A diferença entre Garrincha de 1962 e Garrincha de 1966 não era de talento; era de corpo. Ancelotti, que conduziu o Real Madrid a duas Champions Leagues (2014 e 2022) tomando decisões frias sobre atletas em declínio físico, conhece esse tipo de dilema melhor do que qualquer técnico da história recente.
"A parte física é a maior preocupação do treinador a um mês do início da competição", segundo apuração do SportNavo com base em fontes ligadas à CBF — e Estêvão, que se recupera de lesão na coxa direita, é citado como o caso mais monitorado da pré-lista.
A concorrência no ataque e quem sai ganhando com as ausências
Com Rodrygo fora, o setor ofensivo brasileiro para a Copa do Mundo de 2026 tem como nomes mais consolidados Vinícius Júnior e Raphinha. Vinicius marcou 17 gols pelo Real Madrid na temporada 2025/26 da La Liga até abril, e Raphinha lidera a artilharia do Barcelona na mesma competição com 22 gols — números que não deixam margem para discussão sobre suas presenças. O debate real está nas vagas restantes no ataque, onde Endrick, Gabriel Martinelli e Savinho disputam espaço com Neymar.
Endrick, que tem 18 anos e marcou seis gols pelo Real Madrid na temporada europeia atual, representa exatamente o perfil de aposta que Ancelotti costuma fazer em jovens de alto potencial — ele mesmo lançou Vinícius como titular no Real Madrid em 2018, quando o brasileiro tinha 17 anos. Gabriel Martinelli contribuiu com 14 gols e 9 assistências pelo Arsenal na Premier League 2025/26. Savinho, mesmo sem integrar a lista final de 55, acumulou 11 gols pelo Manchester City. Neymar, nesse contexto, não entra mais como certeza — entra como aposta condicional, dependente de laudos médicos e de uma avaliação de Ancelotti que será feita nos próximos sete dias.
"Quem ficar fora da lista de 55 não poderá estar entre os 26 convocados para o Mundial", conforme comunicado oficial da CBF — o que torna o documento desta segunda-feira o primeiro filtro real, não o último.
O efeito cascata até a estreia contra o Marrocos em Nova Jersey
Os convocados definitivos se apresentam a partir de 27 de maio na Granja Comary, em Teresópolis. O Brasil faz um amistoso de despedida contra o Panamá no Maracanã em 31 de maio, antes do embarque para os Estados Unidos. Em 6 de junho, a Seleção enfrenta o Egito em Cleveland em jogo preparatório, e a estreia oficial na Copa do Mundo acontece contra o Marrocos, em Nova Jersey, na segunda semana de junho.
Esse calendário comprimido é o elemento mais cruel para Neymar. Entre a convocação em 18 de maio e a estreia contra o Marrocos, há menos de quatro semanas — tempo insuficiente para construir ritmo de jogo a partir do zero, mas suficiente para Ancelotti avaliar o atleta em treinos de alta intensidade na Granja Comary. Se o camisa 10 chegar ao amistoso contra o Panamá em condições de jogar 60 ou 70 minutos sem recaída, a decisão muda de patamar. Se não, a lógica técnica aponta para Endrick ou Martinelli como substitutos naturais na lista dos 26.
É o mesmo cenário que Romário viveu em 1998, quando chegou à lista de Zagallo com histórico de lesões musculares recorrentes no Flamengo e foi cortado às vésperas da Copa da França — substituído por Denílson, que entrou em campo na final contra a França em Paris. Só que agora a aposta é diferente: Ancelotti tem dados biomédicos que Zagallo não tinha, e a decisão de 18 de maio será tomada com informação cirúrgica, não com intuição.









