Quando o árbitro apitou o fim da partida no Nuevo Gasómetro, na noite de terça-feira (28), o placar de 1 a 1 entre Santos e San Lorenzo carregava um peso que ia muito além de dois pontos perdidos na lanterna do grupo D da Sul-Americana. Para Neymar, o resultado perpetuava um retrospecto incômodo: o atacante nunca venceu uma partida como visitante contra clubes argentinos. A única vez anterior em que havia pisado em campo por um clube no território portenho foi em 2012, contra o Vélez, quando saiu derrotado. Desta vez, o jejum continuou.
Uma maldição com endereço conhecido
O jornal espanhol Diario AS foi direto ao ponto: o título da cobertura da partida foi "Neymar não quebra a maldição". O diário madrilenho lembrou que o histórico negativo do camisa 10 como visitante na Argentina se estende também à seleção brasileira, que nunca venceu os hermanos em seu território com Neymar em campo. Há uma única exceção a ser registrada com precisão: em julho de 2011, pela Copa América, o Brasil derrotou o Equador por 4 a 2 em Córdoba, com dois gols de Neymar — mas adversário e contexto eram outros. Contra times e seleção argentinos, o fantasma persiste.
O levantamento do SportNavo sobre o histórico de Neymar em solos argentinos revela um padrão preocupante que vai além do acaso: em todas as oportunidades como visitante naquele país, seja com a camisa do Santos, do Barcelona, do PSG ou da seleção brasileira, o atacante jamais deixou o campo com uma vitória registrada frente a adversários argentinos.
Lampejos de genialidade, pernas que cansaram
Dentro das quatro linhas do Gasómetro, Neymar construiu uma primeira etapa que oscilou entre o deslumbrante e o preocupante. Aos 32 minutos do primeiro tempo, recebeu de Rollheiser avançando pela esquerda, invadiu a área e serviu o argentino, que ajeitou para Gabriel Barbosa finalizar e empatar o jogo. A jogada foi citada pelo AS como exemplo dos seus "lampejos de genialidade técnica". O Santos havia sofrido o gol de Alexis Cuello aos 26, quando Willian Arão vacilou no meio-campo.
No entanto, o segundo tempo narrou uma história diferente. Neymar terminou a partida com apenas uma finalização — para fora —, três passes que levaram a finalizações, aproveitamento de 74% nos passes e apenas um drible certo em quatro tentados. O próprio AS concluiu sem meias palavras:
"Em campo, Neymar mostrou lampejos de genialidade, como a arrancada que resultou no gol de Gabriel. No entanto, faltou potência nas arrancadas, precisava ser mais consistente no ataque e não conseguiu criar perigo real quando suas pernas começaram a cansar."
O diagnóstico europeu apontava o acúmulo de minutos como fator central para a queda de desempenho. Com o Santos ainda sem vitória na Sul-Americana — dois empates e uma derrota, somando apenas dois pontos —, o técnico Cuca precisará encontrar um equilíbrio entre preservar o atacante e mantê-lo como referência ofensiva do time.
O afeto que o campo não resolveu
Se a bola não trouxe alívio para Neymar, o entorno do jogo produziu cenas que o atacante classificou como inéditas em sua carreira. Desde o sorteio da competição, ele já interagia com torcedores argentinos nas redes sociais. Durante a estadia em Buenos Aires, recebeu no hotel o meia Giuliano Galoppo, do River Plate, e o espanhol Ander Herrera, do Boca Juniors, que lhe presenteou com uma camisa azul e amarela. No pós-jogo, abraçou atletas do San Lorenzo no túnel do Gasómetro e doou seu par de chuteiras ao jovem Fabrício López.
"Obrigado por me receberem tão bem, fico feliz. Foi um grande jogo, nunca esquecerei do carinho que vocês tiveram comigo. Incrível a torcida, cantou o jogo todo e me receberam muito bem. Nunca tinha passado por isso fora do Brasil. É um grande prazer, uma honra receber esse carinho", escreveu Neymar em suas redes sociais após a partida.
A cena mais emblemática havia acontecido antes mesmo do apito inicial: duas crianças que o acompanharam na entrada em campo alternavam entre lágrimas e sorrisos ao lado do ídolo, diante de um estádio que o aplaudiu desde o aquecimento. A recepção foi, segundo análise do SportNavo, a mais calorosa que um jogador brasileiro recebeu em território argentino em anos recentes.
O que espera o Santos no torneio
Com dois pontos em três jogos, o Santos permanece na lanterna do grupo D da CONMEBOL Sul-Americana. O San Lorenzo lidera a chave com cinco pontos. O próximo compromisso do Peixe na competição será contra o Deportivo Recoleta, no Paraguai, no dia 5 de maio, às 21h30 (horário de Brasília), transmitido pelo plano premium do Disney+. Antes disso, o time de Cuca enfrenta o Palmeiras no dia 2 de maio, pelo Brasileirão, em jogo que exigirá gestão cuidadosa do estado físico de Neymar — o mesmo cansaço apontado pelo jornal espanhol é o que o Santos não pode se dar ao luxo de ignorar.








