Cara, você acha que ele vai pra Copa?
Do jeito que tá jogando? Nem Copa São Paulo ele vai.
Pois é. E o Santos ainda deve um rim pra ele.

Esse diálogo, repetido em botecos de Santos a Belém, sintetiza com precisão o que os dados confirmam: a segunda passagem de Neymar pela Vila Belmiro é, simultaneamente, um fracasso esportivo, uma sangria financeira para o clube e um risco real à convocação do jogador para a Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, México e Canadá a partir de junho deste ano.

O Santos sangra enquanto Neymar decide quando quer jogar

O clube praiano encerrou 2025 com uma dívida estimada em R$ 1 bilhão, segundo relatórios financeiros divulgados pela própria gestão santista. Neste Brasileirão 2026, o time oscila na parte inferior da tabela, brigando para não cair à Série B — situação que, por si só, já comprometeria receitas de cotas de TV, patrocínios e bilheteria na casa dos dezenas de milhões de reais por temporada. A contratação de Neymar, que incluiu salários compatíveis com padrões sauditas e uma estrutura de suporte à família do jogador, foi vendida como a solução para esse colapso. Virou parte do problema.

O que agrava o diagnóstico não é apenas o rendimento medíocre em campo — poucos gols, atuações abaixo do esperado, minutagem gerenciada pelo próprio atleta e seu entorno —, mas a lógica de poder que se instalou dentro do clube. O Santos cedeu a caprichos relacionados à escolha de partidas, tratou de forma equivocada o episódio envolvendo Robinho Jr., e permitiu que a agenda do jogador se sobrepusesse à agenda esportiva da equipe. Cada concessão custou dinheiro e, mais grave, autoridade institucional.

"O Santos vai conseguir uma proeza. Quando a segunda relação com o jogador acabar, o clube vai sair menor que Neymar", escreveu colunista da ESPN Brasil, em análise que circulou amplamente nos últimos dias.

A convocação para a Copa do Mundo vira miragem rodada a rodada

Carlo Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira, tem reiterado que a porta da Copa de 2026 está aberta a jogadores que demonstrem forma consistente. Neymar, que acumula 79 gols pela seleção e é o maior artilheiro da história do Brasil, depende exatamente disso — e não está entregando. Com o torneio a menos de dois meses, o atacante precisaria de uma sequência de atuações de alto nível em maio para entrar no radar da lista final. O Santos, porém, joga sob pressão do rebaixamento, o que significa contexto tático defensivo, pressão psicológica e pouco espaço para um jogador que historicamente rende melhor quando o time está no controle da partida.

O SportNavo mapeou as últimas seis convocações da CBF: nenhum jogador em situação de rebaixamento com clube foi chamado para a Seleção principal nesse período, o que ilustra o peso institucional da crise santista sobre as chances do camisa 10. Furou.

O Santos sangra enquanto Neymar decide quando quer jogar Neymar perdeu o Santos,
O Santos sangra enquanto Neymar decide quando quer jogar Neymar perdeu o Santos,
"Para o jogador, o desejo de jogar a Copa do Mundo virou miragem com um desempenho esportivo medíocre e um comportamento dentro e fora de campo desprezível", registrou a mesma análise da ESPN, que repercutiu entre torcedores e dirigentes.

O paradoxo financeiro que o Santos não consegue resolver

Há uma assimetria estrutural que a sociologia do esporte chama de celebrity endorsement trap: o clube aposta no nome do atleta para gerar receita publicitária e de patrocínio, mas a crise de imagem do jogador contamina o próprio ativo que se queria monetizar. O retorno publicitário prometido pela chegada de Neymar — que soma mais de 220 milhões de seguidores nas redes sociais — não se materializou em contratos que compensassem o investimento. Nenhum patrocinador master de porte internacional assinou com o Santos desde o retorno do craque, e o clube segue dependente de receitas domésticas modestas.

Para Neymar, o cálculo é inverso. Mesmo que a Copa de 2026 não aconteça, o jogador já sinalizou, por meio de seu entorno, interesse em contratos com clubes da Arábia Saudita, dos Estados Unidos ou de mercados emergentes após o Santos. Sua base de fãs, que o ovaciona em qualquer país onde aparece, garante valor comercial independente de títulos. O fracasso em Santos vai abalar sua biografia esportiva, mas não sua conta bancária.

O Santos volta a campo neste fim de semana pelo Brasileirão Série A, e cada ponto perdido aproxima o clube do abismo da Série B — cenário que tornaria a permanência de Neymar financeiramente insustentável e sua convocação para junho praticamente impossível. Vale acompanhar a próxima rodada com atenção: ela pode ser o momento em que o clube e o jogador finalmente admitem, cada um à sua maneira, que o experimento acabou.