Confesso: eu errei sobre Neymar em 2024. Escrevi, neste mesmo espaço, que ele não teria fôlego para ser protagonista em jogos de mata-mata pelo Santos em 2026. Hoje, com o camisa 10 de volta ao time titular e um gol marcado contra o Red Bull Bragantino no último domingo (10), preciso rever essa avaliação — mas com critério, não com entusiasmo.
O que o gol contra o Bragantino realmente prova
O Santos derrotou o Bragantino por 2 a 0 na Baixada Santista, com gols de Neymar e Adonis Frías, encerrando uma sequência de sete jogos sem vitória. Reparemos no detalhe: foi a primeira vez em 2026 que o time venceu com Neymar como protagonista direto do placar. Antes disso, o camisa 10 havia participado de partidas, mas sem o peso decisivo que se espera de um jogador do seu nível. Um gol em um jogo de Brasileirão contra time que não pressionava a defesa santista é um dado positivo, mas não é evidência suficiente para classificá-lo como o salvador da Copa do Brasil.
O argumento contrário é previsível: Neymar tem histórico consolidado de atuações decisivas em Copas do Brasil, com gols e assistências em fases eliminatórias ao longo da carreira. Esse argumento é verdadeiro. O problema é que ele desconsidera o contexto físico atual. O jogador vem de lesões recentes, foi gerenciado jogo a jogo pelo técnico Cuca, e a Copa do Brasil de 2026 ainda não viu o Neymar de mata-mata — aquele que acelera quando o marcador pressiona.
O cenário no Couto Pereira exige mais do que um gol isolado
O Santos empatou sem gols na Vila Belmiro no dia 22 de abril, no jogo de ida contra o Coritiba. Nesta quarta-feira (13), às 19h30, no Couto Pereira, em Curitiba, o Peixe precisa vencer ou empatar com gols para avançar no tempo normal. Um novo 0 a 0 leva a decisão para os pênaltis, sem prorrogação. Jogar fora de casa, contra um Coritiba organizado e com Pedro Rocha como artilheiro da temporada com sete gols, é uma equação que não se resolve apenas com o nome de Neymar na escalação.
A memória recente do Santos nessa competição pesa. No ano passado, a equipe foi eliminada pelo CRB, no Estádio Rei Pelé, em Alagoas — uma derrota que custou ao clube a participação em qualquer outra competição nacional até o fim daquela temporada. O risco de repetir o vexame existe, e o contexto do jogo desta quarta não é confortável: time visitante, adversário com vantagem emocional do empate, e um atacante principal que ainda está em processo de recuperação de ritmo.
Neymar com a Copa do Mundo no horizonte — e o que isso muda
Há um fator externo que pode, paradoxalmente, elevar o nível de Neymar nesta noite. A lista de convocados da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo será divulgada na próxima segunda-feira (18), na sede da CBF, no Rio de Janeiro, pelo técnico Carlo Ancelotti. O Santos joga no Couto Pereira com Neymar tendo apenas dois jogos para convencer o treinador italiano de que merece uma vaga. Isso não é pressão — é combustível para quem tem a mentalidade de grandes palcos.
"É um desafio enorme. Em partidas desse nível, não podemos cometer falhas", disse João Vitor, volante da Chapecoense, ao falar sobre o peso de jogos de mata-mata nesta fase da Copa do Brasil — frase que se encaixa com precisão cirúrgica no momento do Santos também.
Neymar jogando com a convocação em jogo é como uma frente fria que chega sem avisar: o movimento é silencioso até que o temporal se instale. A questão é se o Santos consegue sustentar coletivamente o que o camisa 10 pode criar individualmente. Cuca escalou Gabriel Bontempo, Barreal e Neymar no ataque, com suporte de Rollheiser e Christian Oliva no meio. É um time que depende de transições rápidas — e o Couto Pereira, com a torcida do Coritiba, não costuma ser ambiente favorável para times que jogam esperando o espaço.
A conclusão que os dados permitem tirar
Neymar pode ser decisivo nesta quarta-feira. Mas a probabilidade de o Santos avançar está diretamente ligada ao desempenho coletivo, não apenas ao camisa 10. O Coritiba de Fernando Seabra tem Pedro Rocha como referência ofensiva — sete gols na temporada — e jogará com a vantagem psicológica de que um 0 a 0 os mantém vivos nos pênaltis. Para o Santos avançar sem a loteria das penalidades, precisa marcar. E para marcar fora de casa, em um jogo de mata-mata, precisará que Neymar esteja no nível de 2013 e não no nível de março de 2026, quando ainda se reestabelecia de lesão.
O Santos enfrenta o Coritiba nesta quarta (13), às 19h30, no Couto Pereira, com transmissão pela Amazon Prime Video. Quem avançar enfrentará adversário definido por sorteio nas oitavas de final da Copa do Brasil.









