Se a Copa do Mundo começasse antes do embarque desta segunda-feira (1º), o termômetro emocional do Brasil já estaria calibrado em Neymar. Às 20h (de Brasília), quando a delegação deixou a sede da CBF rumo ao Galeão, foi o camisa 10 quem parou o tempo — tirando fotos, assinando autógrafos, conversando com fãs que esperavam horas na calçada. O restante do elenco também deu atenção, mas a energia gravitacional daquela despedida tinha nome, sobrenome e o número dez nas costas.

Não há paradoxo nisso. Há contabilidade. Neymar acumula 79 gols pela Seleção Brasileira — recorde absoluto, distante dos 77 de Pelé — e chega à Copa do Mundo de 2026 como protagonista de um projeto que Carlo Ancelotti construiu nos últimos meses com a carga histórica de 24 anos sem título mundial. Quando um jogador sorri para a torcida nesse contexto, o gesto não é leveza: é consciência do que aquele sorriso representa para 215 milhões de pessoas.

A cena da despedida e o que ela revela sobre a pressão coletiva

O embarque para os Estados Unidos está marcado para as 22h desta segunda no Aeroporto Internacional Galeão. A base do Brasil na fase de grupos será Nova Jersey, com estreia prevista para 13 de junho contra o Marrocos, em Nova York. Antes disso, o time de Ancelotti tem um amistoso preparatório contra o Egito no próximo sábado (6). Pelo Grupo C, o Brasil ainda enfrenta Escócia e Haiti — chave que, no papel, favorece a classificação, mas que historicamente a Seleção já transformou em pesadelo com soberba e falta de ritmo.

A cena da saída da CBF comprimiu tudo isso num gesto simples: o atacante cumprindo o rito de quem sabe que não viaja só. Cada autógrafo dado naquela calçada carregava a expectativa de quem não pode ir ao estádio, de quem acorda de madrugada para assistir ao jogo, de quem nunca viu o Brasil levantar a taça e conta que desta vez será diferente. A humildade demonstrada não é performance — é a linguagem de quem passou por três Copas anteriores (2010, 2014 e 2022), acumulou lesões, críticas e uma final de Libertadores mais tarde como tentativa de reconquista, e entende que a narrativa agora é maior do que qualquer cena individual.

O peso da camisa 10 em números e em cicatrizes

Nas edições de 2014 e 2022, Neymar entrou lesionado no torneio ou saiu dele antes do tempo. Em 2014, fraturou uma vértebra nas quartas de final e assistiu do hospital ao 7 a 1 contra a Alemanha. Em 2022, torceu o tornozelo na estreia, voltou a tempo das quartas, mas o Brasil foi eliminado pela Croácia nos pênaltis após empate em 1 a 1. São cicatrizes que nenhum outro jogador do elenco atual carrega com a mesma intensidade. Rodrygo, Raphinha e Vinicius Jr. — que em matéria do SportNavo já foi analisado como o jogador que mais desequilibra o esquema de Ancelotti — chegam ao torneio em alta, mas nenhum deles é cobrado com a mesma régua.

Decidiu.

A cena da despedida e o que ela revela sobre a pressão coletiva Neymar sorri par
A cena da despedida e o que ela revela sobre a pressão coletiva Neymar sorri par

Ancelotti escolheu Neymar como titular e camisa 10 sabendo exatamente qual é o contrato simbólico que isso implica: o atacante precisa de uma Copa inteira sem lesão grave para que a torcida finalmente encerre o debate sobre o que ele representa. Com 34 anos completados em fevereiro de 2026, esta é matematicamente a última janela realista para que ele dispute um Mundial em condições plenas de protagonismo.

O grupo C e o que Ancelotti precisa entregar antes de Nova York

A fase de grupos do Brasil combina adversários manejáveis com armadilhas táticas reais. O Marrocos que o Brasil enfrenta na estreia é o mesmo que chegou às semifinais da Copa do Mundo de 2022, eliminando Espanha e Portugal — uma equipe organizada defensivamente, com bloco baixo e transições velozes. A Escócia, segunda adversária, tem histórico recente de Eliminatórias europeias sólidas. O Haiti é o único adversário que, objetivamente, coloca o Brasil como favorito absoluto.

O amistoso contra o Egito no sábado (6) serve menos como teste tático e mais como ajuste de ritmo coletivo. Ancelotti precisará definir se Neymar começa como referência ofensiva centralizada ou se atua mais pelos lados, liberando espaço para Vinicius Jr. e Rodrygo. As últimas semanas de trabalho na CBF sugeriram variações dos dois modelos — o que indica que o treinador italiano ainda não bateu o martelo sobre a função exata do camisa 10 dentro do sistema.

O que a torcida espera e o que os dados dizem sobre essa expectativa

A última pesquisa Datafolha sobre expectativas para a Copa do Mundo de 2026, divulgada em maio deste ano, apontou que 61% dos brasileiros acreditam que o Brasil pode ser campeão — o índice mais alto desde 2002, quando o país chegou ao torneio como favorito e saiu com a taça. Esse número tem nome: é o efeito Ancelotti somado ao efeito Neymar inteiro. Quando 61% de um país de 215 milhões de pessoas deposita esperança num torneio, a despedida num estacionamento da CBF deixa de ser protocolo e vira ritual coletivo.

A delegação embarca esta noite com 26 jogadores convocados, três técnicos de linha e a maior expectativa brasileira em 24 anos. A primeira partida real do teste — o amistoso contra o Egito — acontece no próximo sábado, antes da estreia oficial em 13 de junho contra o Marrocos, em Nova York, às 16h (horário de Brasília). Para Neymar, cada jogo a partir de agora é, literalmente, a última chance de transformar talento, recordes e cicatrizes em algo que o Brasil ainda não conseguiu desde Yokohama.