Desde 17 de outubro de 2023, data em que rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo atuando pela Seleção Brasileira contra o Uruguai nas Eliminatórias, Neymar disputou menos de 400 minutos de futebol de alto nível. Esta semana, contudo, pode valer mais do que todos esses minutos somados: o Santos visita o San Lorenzo pela Copa Sul-Americana e recebe o Palmeiras no sábado pela rodada do Brasileirão, dois confrontos que Carlo Ancelotti observa de perto antes de montar sua lista para a Copa do Mundo.

A ausência de evidências que nenhuma fé supre

O jornalista Tim Vickery, uma das vozes mais respeitadas na cobertura do futebol brasileiro para o exterior, foi direto ao ponto ao avaliar o atual momento do atacante:

PROBLEMA PRA ANCELOTTI NA SELEÇÃO | #shorts | TROPA GE TV
"Até agora a base para convocá-lo fica sustentada basicamente na fé — na crença que, na hora H, o futebol dele vai voltar e ele vai ser capaz, contra os melhores, de fazer a diferença."

A frase resume com precisão cirúrgica o dilema de Ancelotti. Neymar acumula 77 gols em 128 jogos pela Seleção Brasileira, artilheiro histórico do país, superando Pelé em março de 2023. Em Copas do Mundo, participou de três edições — 2010, 2014 e 2018 — marcando oito gols no torneio. O historial é inegável. O presente, porém, é outra conversa.

Conforme levantamento do SportNavo, desde o retorno ao Santos em janeiro de 2025, Neymar disputou partidas nas quais o nível técnico ficou distante daquele exibido, por exemplo, no ciclo de 2022, quando chegou ao Qatar como o jogador com mais dribles completos das Eliminatórias — 81 tentativas, 53 concluídas com sucesso. Os mesmos atributos que o colocavam acima dos adversários ainda não reapareceram com consistência.

A armadilha histórica dos grandes que chegaram tarde demais

A história das Copas do Mundo oferece dois precedentes opostos que iluminam o debate. O primeiro, favorável a Neymar, é Ronaldo Fenômeno em 2002. O centroavante chegou ao Japão e à Coreia do Sul após dois anos de lesões graves — ruptura no tendão da patela em 1999 e nova cirurgia em 2000 — com apenas 19 gols em clubes na temporada 2001-02, números abaixo de seu potencial. Mesmo assim, marcou oito gols no torneio, incluindo os dois na final contra a Alemanha (2 a 0), e foi eleito melhor jogador da Copa.

O segundo precedente é uma advertência. Vickery lembrou dos bicampeões convocados para a Copa de 1966, na Inglaterra:

"Na corrida entre o atleta e a passagem do tempo, só tem um vencedor."

Nomes como Didi, Zagallo e o próprio Vavá, heróis de 1958 e 1962, integraram o elenco de 1966 já em declínio físico. A Seleção caiu na primeira fase, eliminada por Hungria (3 a 1) e Portugal (3 a 1). O caso de Gareth Bale na Copa de 2022 no Catar, citado pelo colunista, é ainda mais recente: 33 anos, histórico de lesões, e uma Copa do Mundo pelo País de Gales que virou pesadelo — uma assistência em seis jogos, eliminação na fase de grupos.

A ausência de evidências que nenhuma fé supre Neymar tem esta semana para provar
A ausência de evidências que nenhuma fé supre Neymar tem esta semana para provar

O que os jogos desta semana precisam mostrar

San Lorenzo, atualmente na fase de grupos da Copa Sul-Americana, e Palmeiras, líder do Brasileirão com campanha de 70% de aproveitamento em 2025, são termômetros absolutamente distintos dos adversários que o Santos enfrentou nas últimas rodadas. A análise do SportNavo aponta que, nos jogos contra equipes do Z-4 do Brasileirão, Neymar teve índices razoáveis de participação, mas contra times do G-6, os números de pressão e marcação reduzem drasticamente sua influência no jogo.

Ancelotti comandou duas Copas do Mundo como treinador — Itália em 2002 e França em 2010, ambas eliminações precoces — mas chegou ao Brasil com bagagem de quatro Champions League como técnico (Milan em 2003 e 2007, Real Madrid em 2014 e 2022). Seu critério histórico privilegia jogadores que produzem em jogos de alta pressão. Para Neymar, isso significa que um hat-trick contra o Sport não convence, mas um gol decisivo no Allianz Parque pode reabrir todas as portas.

O Santos joga na terça-feira diante do San Lorenzo, em Buenos Aires, com horário previsto para as 21h30 no horário de Brasília. No sábado, às 18h30, enfrenta o Palmeiras no Allianz Parque. Dois jogos, seis dias, e a resposta mais concreta que Neymar pode dar sobre se ainda pertence ao nível que uma Copa do Mundo exige.