Se o Grupo D da Copa Sul-Americana fechasse a tabela hoje, o Santos estaria fora — lanterna, com dois pontos em três rodadas, atrás até do Deportivo Recoleta, adversário desta terça-feira no Estádio Monumental Rio Parapití, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Esse é o ponto de partida, e ele é desconfortável o suficiente para tirar o sono de qualquer torcedor que acompanhou o clube vencer a Libertadores de 2011.

A boa notícia — se é que se pode chamar assim — é que o cenário ainda tem solução. Deportivo Cuenca soma quatro pontos e o San Lorenzo lidera com cinco; os dois se enfrentam nesta rodada, o que abre uma janela para o Santos recuperar terreno com uma vitória. Neymar, poupado no empate de 1 a 1 contra o Palmeiras pelo Brasileirão no Nubank Parque no último sábado, retorna ao time após o episódio de confusão com Robinho Jr. e chega ao Paraguai descansado — e pressionado.

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Seis jogos sem vencer e a sombra que Neymar precisa apagar Neymar volta ao Parag
Seis jogos sem vencer e a sombra que Neymar precisa apagar Neymar volta ao Parag

Seis jogos sem vencer e a sombra que Neymar precisa apagar

A sequência de seis partidas sem triunfo atravessa competições e contextos diferentes, mas o denominador comum é o mesmo: o Santos não consegue cruzar a linha. Foram empates com Bahia (2 a 2) e Palmeiras (1 a 1) no Brasileirão, um 1 a 1 com o San Lorenzo na própria Sul-Americana e três tropeços na Vila Belmiro, incluindo um 0 a 0 morno na ida das oitavas da Copa do Brasil contra o Coritiba. Ao menos o time não perdeu nas quatro partidas fora de casa nesse período — mas empate, no futebol sul-americano, raramente resolve.

O que torna a situação ainda mais intrincada é que o Santos apresentou desempenhos mais coesos justamente quando Neymar esteve ausente. Abriu 2 a 0 sobre o Bahia e encarou o líder do Brasileirão de igual para igual no Nubank Parque sem a sua estrela máxima em campo. O argentino Rolheiser, substituto direto, marcou três gols nessa sequência e agora pode até dividir espaço com Neymar no onze inicial no Paraguai. Cuca foi claro ao definir o papel do argentino: ele é o substituto do astro, não um concorrente — mas os números falam por si, e no futebol de alto nível, números sempre falam mais alto do que hierarquias.

"Vai jogar o Neymar, claro que vai jogar, depois ter sequência até a convocação, fazer o melhor que ele pode, o possível. Está trabalhado, pronto, energizado, e agora tem de largar tudo dentro de campo. Primeiro para nos ajudar e depois para se ajudar", disse Cuca antes do embarque para o Paraguai.

A fala do técnico carrega um subtexto que qualquer observador do futebol europeu reconheceria imediatamente: o jogador precisa do clube tanto quanto o clube precisa dele. Cuca mencionou a convocação para a Copa do Mundo como horizonte motivador — e não é retórica vazia. Uma sequência de boas atuações na Sul-Americana pode ser exatamente o argumento que faltava para o selecionador brasileiro incluir Neymar na lista final… e aí vem o problema.

O Paraguai como palco e o histórico de Neymar em noites sul-americanas

Pedro Juan Caballero não é exatamente o Camp Nou ou o Emirates Stadium, mas o Estádio Monumental Rio Parapití estará lotado nesta terça-feira — todos os ingressos foram vendidos com antecedência, segundo informações do clube paraguaio. Há algo de particular nas atmosferas sul-americanas que os estádios europeus raramente reproduzem: aquela mistura de calor físico e pressão psicológica que transforma partidas teoricamente simples em armadilhas táticas.

Neymar conhece esse circuito. Antes de se tornar o jogador dos 222 milhões de euros que transformou a economia do futebol europeu quando foi do Barcelona ao PSG em 2017, ele construiu sua reputação internacional justamente nessas noites de Sul-Americana e Libertadores com a camisa do Santos. A conquista da Libertadores de 2011 e o vice-campeonato mundial de clubes ainda são o pano de fundo histórico que define o que o clube espera dele — não como nostalgia, mas como parâmetro de entrega.

O Deportivo Recoleta, adversário desta noite, é time frágil na tabela — três pontos, nenhuma vitória — mas foi justamente o Recoleta que arrancou o 1 a 1 na Vila Belmiro, resultado que colocou o Santos nessa posição desconfortável de lanterna. No futebol sul-americano, subestimar equipes paraguaias em casa é um erro que times brasileiros cometem com regularidade desconcertante, e o pressing alto que times menores adotam em seus estádios pode desorganizar qualquer esquema que não esteja bem ensaiado.

O que uma vitória muda na equação do Grupo D

A matemática da classificação ainda é favorável ao Santos, desde que a arrancada comece agora. Com San Lorenzo e Deportivo Cuenca se enfrentando nesta rodada, uma vitória santista sobre o Recoleta pode reposicionar o time do terceiro para o segundo lugar do Grupo D, a apenas um ponto do líder. Não é uma virada dramática, mas é o tipo de resultado que no gegenpressing da tabela — para usar um termo que Klopp popularizou e que descreve bem a dinâmica de pressão acumulada em grupos curtos — muda completamente a psicologia de um elenco.

Cuca terá o desfalque de Ortiz, autor do gol de empate na Vila Belmiro contra o Recoleta, o que adiciona uma camada de dificuldade ao quebra-cabeça tático. O técnico precisará decidir se Rolheiser atua ao lado de Neymar ou se cede espaço para o astro operar com mais liberdade no setor ofensivo — uma escolha que revela muito sobre como o Santos pretende jogar o restante da competição.

"Está trabalhado, pronto, energizado", repetiu Cuca, como se a insistência nas palavras pudesse antecipar a performance que o torcedor santista aguarda há seis jogos.

A bola rola às 21h30 desta terça-feira no Paraguai. Se o Santos vencer, volta a Pedro Juan Caballero com um resultado que muda o ângulo de tudo — e Neymar volta ao Brasil com a narrativa que precisava antes da janela de convocação fechar.