Confesso: eu errei sobre Neymar em 2024. Quando ele assinou com o Santos, escrevi numa análise que o retorno seria mais simbólico do que funcional — um gesto bonito para encerrar a carreira em casa, sem peso real sobre resultados. Hoje, vendo o Santos literalmente naufragar nos jogos em que ele não joga, começo a entender que subestimei a dependência estrutural que o clube construiu em torno do camisa 10.
A lanterna que Neymar precisa apagar no Grupo D
Nesta terça-feira (5), o Santos enfrenta o Deportivo Recoleta no Estádio Monumental Río Parapití, em Pedro Juan Caballero, pela 4ª rodada do Grupo D da CONMEBOL Sul-Americana. O Peixe chega à partida na última posição da chave, com apenas dois pontos — um empate em 1 a 1 na Vila Belmiro contra o próprio Recoleta no jogo de ida, e mais um ponto colhido nas outras duas rodadas. Seis jogos sem vencer no geral. O tipo de sequência que, nos clubes europeus onde acompanhei de perto o cotidiano do futebol, costuma custar o emprego de um técnico antes mesmo da análise tática.

O Recoleta aparece em terceiro no grupo, com três pontos — apenas um a mais que o Santos — e chega embalado por uma vitória sobre o Cerro Porteño no Campeonato Paraguaio. Não é um adversário de primeira prateleira continental, mas o contexto de pressão transforma qualquer partida num campo minado quando você está na lanterna. Cuca, o técnico alvinegro, escala: Brazão; Igor Vinícius, Lucas Veríssimo, João Paulo Ananias e Escobar; João Schmidt e Oliva; Bontempo, Neymar e Rollheiser; Gabigol.
Neymar poupado, Neymar indispensável e a contradição que o Santos não resolve
A narrativa dominante sobre Neymar no Santos é a do salvador — o jogador que, quando está em campo, eleva o nível coletivo e carrega o time nos momentos decisivos. Há evidência empírica para isso: o Santos apresenta desempenho notavelmente inferior nas partidas em que ele não atua. A ausência no clássico contra o Palmeiras, justificada pelo gramado sintético do Allianz Parque — uma decisão técnica legítima, aliás, considerando o histórico de lesões musculares do atleta —, resultou num empate de 1 a 1 que prolongou a sequência negativa para seis jogos sem vitória.
Mas existe uma contra-leitura que merece atenção. Um time que paralisa sem um único jogador não tem um camisa 10 — tem uma muleta. O gegenpressing que Klopp instalou no Liverpool funcionava porque nenhum jogador era insubstituível no sistema; o tiki-taka do Barcelona de Guardiola tinha Messi como catalisador, mas o mecanismo coletivo sobrevivia a ele. O Santos de 2026, ao contrário, parece não ter construído nenhum automatismo que funcione independentemente da presença de Neymar. Rollheiser e Bontempo, que flanqueiam o camisa 10 no meio-campo avançado, aparecem como peças de suporte, não como protagonistas autônomos.
"Quando você monta um time em torno de um único jogador de 34 anos, você não está construindo um projeto — está apostando numa aposentadoria adiada", disse um treinador sul-americano com passagem por clubes europeus, em conversa reservada durante o último congresso da CONMEBOL.
O desentendimento entre Neymar e Robinho Jr. durante o treino de domingo (3) no CT Rei Pelé, que levou o clube a abrir uma sindicância para apurar o caso, adiciona uma camada de tensão interna ao momento mais delicado da temporada. Segundo apuração do SportNavo, depoimentos serão colhidos nos próximos dias. A imagem não é nova para quem acompanhou os bastidores do PSG entre 2017 e 2019 — Neymar frequentemente no centro de conflitos interpessoais em momentos de crise de resultados.
O que os números dizem sobre a dependência e o que acontece depois do Paraguai
O contrato de Neymar com o Santos vai até o fim de 2026, o que significa que a equipe ainda terá ao menos sete meses de convivência com esse modelo. O histórico do clube contra equipes paraguaias oferece algum conforto estatístico: em 20 jogos, o Santos acumula 11 vitórias, 7 empates e apenas 2 derrotas, com 44 gols marcados e 22 sofridos. Fora de casa, no Paraguai especificamente, são 5 vitórias, 4 empates e 1 derrota em 10 jogos, com 19 gols marcados e 13 sofridos — uma base razoável para sustentar otimismo.
A síntese honesta, porém, é que os números históricos pouco valem quando o time chega a Pedro Juan Caballero com seis jogos sem vencer e um vestiário que acabou de registrar um conflito interno. A dependência de Neymar é real, documentada e, por ora, inevitável — mas ela também revela uma fragilidade estrutural que nenhum retorno simbólico resolve sozinho. Cuca tem um elenco com ausências relevantes: Vinícius Lira (lesão no joelho esquerdo), Gabriel Menino (em transição), Gustavo Henrique (lesão no adutor) e Lautaro Díaz (dores na coxa) estão todos fora.
A classificação ainda é matematicamente possível. Após o Recoleta, o Santos terá dois jogos em casa na Vila Belmiro — contra San Lorenzo, no dia 20 de maio, e Deportivo Cuenca, na rodada seguinte —, o que representa a janela mais favorável da fase de grupos. Uma vitória nesta terça transforma completamente a equação. Uma derrota, praticamente encerra o projeto continental antes de junho. O jogo começa às 21h30 (de Brasília), com transmissão pelo Disney+, sob a arbitragem do chileno Cristian Garay.
Um bom prato, como qualquer chef sabe, não se salva na última hora com um ingrediente de luxo jogado por cima. Ele precisa de base, de caldo, de tempo. O Santos tem o ingrediente — mas a receita ainda está incompleta.









