Se a Copa do Mundo de 2026 terminasse hoje, a Alemanha ainda entraria em campo com as três listras no peito. Mas a data já está marcada no calendário da Federação Alemã de Futebol (DFB): a partir de 2027, o swoosh da Nike substituirá definitivamente a marca que acompanhou os tetracampeões mundiais por mais de sete décadas. O contrato, firmado até 2034, renderá à DFB a cifra de R$ 272,3 milhões por ano — um número que, por si só, conta a história do que está em jogo.

Os 70 anos que um número de R$ 272 milhões encerra

A relação entre a Alemanha e a Adidas é uma das narrativas mais longevas do futebol mundial. Desde 1954, quando Adi Dassler forneceu as chuteiras para o histórico título alemão contra a Hungria — a camisa, naquele ano, era da Leuzela — a marca de Herzogenaurach foi construindo uma simbiose quase indissociável com a Nationalmannschaft. Nas Copas de 1966 e 1970, a Umbro ainda fornecia os uniformes; foi só em 1974, no título em casa, que a Adidas produziu as camisas pela primeira vez, ainda sem estampar o logotipo. A partir de 1980, o Trefoil passou a aparecer oficialmente nos uniformes alemães, e desde então nunca mais saiu.

Quatro títulos mundiais — 1954, 1974, 1990 e 2014 — foram conquistados com a marca alemã no peito. A camisa do tetracampeonato, apresentada por Lukas Podolski em Berlim em 2016, com a quarta estrela estampada ao lado do escudo da DFB, tornou-se um símbolo cultural que vai muito além do futebol. Quem viveu em Barcelona ou Londres sabe que certas camisas não são apenas uniformes: são statements, peças que transitam entre o estádio e a galeria de arte contemporânea.

A disputa que a Nike quase venceu em 2007

A ruptura de agora não é exatamente uma surpresa para quem acompanha os bastidores do mercado esportivo europeu. Em 2007, a Nike já havia apresentado uma oferta considerada hostil para assumir o fornecimento da Alemanha a partir de 2011: € 500 milhões por oito anos, o equivalente a € 62,5 milhões anuais — numa época em que a Adidas pagava apenas € 11 milhões por ano à DFB. A Adidas recorreu à Justiça, alegando cláusula de extensão automática até 2014, e a Federação optou pela conciliação, assinando um novo acordo de € 20 milhões anuais. A Nike recuou, mas não desistiu… e aí vem o problema para a Adidas.

Dezoito anos depois, a equação se inverteu de vez. A proposta norte-americana chegou com um valor que a Adidas simplesmente não conseguiu — ou não quis — igualar. O presidente da DFB, Bernd Neuendorf, foi cuidadoso ao anunciar a mudança:

"Estamos ansiosos por trabalhar com a Nike e pela confiança depositada em nós. A futura parceria nos permitirá continuar a realizar tarefas importantes na próxima década, buscando desenvolvimento abrangente do futebol na Alemanha."

Mas Neuendorf também fez questão de não queimar pontes com a Adidas, que seguirá vestindo a seleção até dezembro de 2026, incluindo a Copa do Mundo de 2026:

"Até dezembro de 2026 faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para alcançar o sucesso partilhado com o nosso parceiro atual e de longa data, a Adidas, a quem o futebol alemão deve muito há mais de sete décadas."

O que a Nike projeta para a nova era alemã

Do ponto de vista do brand positioning, a Nike chega à Alemanha num momento estratégico. A empresa norte-americana já veste potências como Brasil, França e Portugal, e incorporar a seleção alemã ao seu portfólio significa completar um quadro que faltava para dominar o futebol europeu de alto nível. A Adidas, por sua vez, mantém contratos com Argentina, Espanha e Bélgica — mas perde sua vitrine mais simbólica, aquela que nasceu no mesmo país que a própria empresa.

Na avaliação do SportNavo, a mudança vai além do contrato financeiro. A Nike tem apostado em uniformes com linguagem visual mais ousada, rompendo com a tradição conservadora do kit design europeu. A seleção alemã, historicamente fiel ao branco com detalhes pretos — uma estética que lembra mais o Bauhaus do que qualquer tendência de moda esportiva —, pode passar por uma reinvenção visual significativa a partir de 2027. A geração pós-Toni Kroos, que se aposentou da seleção após a eliminação para a Inglaterra na Eurocopa, terá um uniforme completamente novo para escrever sua própria história.

A Adidas, enquanto isso, não ficou parada. A empresa tem apostado no relançamento de uniformes históricos — como a camisa alemã de 1994 — para capitalizar o ciclo pré-Copa do Mundo, explorando a nostalgia como ativo comercial. É uma estratégia inteligente, mas que soa um pouco como o último movimento antes da despedida oficial. O contrato com a DFB se encerra em dezembro de 2026, e a Copa do Mundo daquele ano será o canto do cisne das três listras na Nationalmannschaft.

A Nike assume em janeiro de 2027 com um contrato que vai até 2034 e cobre todas as categorias das seleções alemãs — da principal às de base. Sete anos de swoosh para apagar setenta de três listras. É como trocar a partitura de uma sinfonia que todo mundo já decorou: a orquestra é a mesma, o palco é o mesmo, mas a música nunca mais soará igual.