"Não se pode recusar os melhores clubes do mundo." A frase é de Rodri, dita em entrevista à rádio espanhola Onda Cero neste ano, quando questionado sobre um possível interesse do Real Madrid. Quem a ouviu na época tratou como protocolo diplomático. Agora, com a confirmação progressiva de que Pep Guardiola deixará o Manchester City ao fim desta temporada 2025/26, a frase ganhou peso de declaração de intenções.

O uniforme que o City lança enquanto uma era se encerra

Na quarta-feira, o City revelou o uniforme principal para 2026/27 — a temporada que, pela primeira vez em mais de uma década, começará sem Guardiola no banco. A peça, produzida pela Puma, aposta em um degradê completo em azul celeste: mais escuro nos ombros, progressivamente mais claro à medida que desce pelo tecido. O escudo, detalhe que raramente passa despercebido nos grandes relançamentos de identidade visual europeia, aparece agora monocromático, com detalhes apenas em branco.

A campanha de lançamento se chama "Not Your Typical City" — uma declaração que o clube quis associar à mentalidade de sua era de domínio. No vídeo promocional, Guardiola, Erling Haaland e Alex Greenwood aparecem em cenas urbanas de Manchester respondendo a chamadas sobre situações inusitadas. O catalão está presente na peça publicitária, mas a imprensa inglesa já noticiou, de forma recorrente nas últimas semanas, que ele está decidido a deixar o clube em breve. Há algo de irônico nisso: o rosto que ainda vende a camisa não estará no banco quando ela for usada pela primeira vez em competição oficial.

O design tem uma filosofia declarada pelo próprio clube: mostrar que a instituição está sempre em progresso, nunca acomodada. Uma narrativa de continuidade que contrasta com a descontinuidade real no comando técnico.

O que a saída de Guardiola movimenta no elenco

Segundo o jornal Marca, da Espanha, Rodri passou a considerar ativamente uma transferência para o Real Madrid a partir do momento em que tomou conhecimento da decisão de Guardiola. A relação entre o meia e o treinador sempre foi o principal argumento que mantinha o jogador em Manchester — acima de contratos, salários ou projetos esportivos. Com esse vínculo rompido, a equação muda.

O uniforme que o City lança enquanto uma era se encerra Nova camisa, saída de Gu
O uniforme que o City lança enquanto uma era se encerra Nova camisa, saída de Gu

O Real Madrid monitora Rodri desde a aposentadoria de Toni Kroos, em 2024. Há uma lógica táctica evidente nessa observação: o clube merengue perdeu seu principal controlador de jogo posicional e nunca encontrou um substituto que operasse com a mesma eficiência no segundo terço do campo. Rodri, vencedor da Champions League 2022/23 com o City e peça central da Espanha campeã da Eurocopa 2024, preenche esse perfil com precisão rara.

A negociação, contudo, não será simples. O contrato do meia com o City vai até 2027, e o clube inglês — historicamente duro em negociações quando não quer vender — deve criar resistência considerável. O próprio Madrid reconhece isso, segundo o Marca, mas avalia que o desejo declarado do jogador transforma o cenário de improvável para viável.

O que a saída de Guardiola movimenta no elenco Nova camisa, saída de Guardiola e
O que a saída de Guardiola movimenta no elenco Nova camisa, saída de Guardiola e
"Gostaria de voltar, sim. Obviamente", disse Rodri ao ser questionado sobre um eventual retorno ao futebol espanhol, na mesma entrevista à Onda Cero.

Há também o contexto físico: desde que levantou a Bola de Ouro em 28 de outubro de 2024, Rodri viveu um período de ostracismo forçado por lesões, com participações pontuais e abaixo de seu nível habitual. A temporada 2025/26 não foi aquela que confirmaria o troféu individual com atuações dominantes — o que, paradoxalmente, pode reduzir o valor de mercado que o City usaria como argumento para um preço de saída elevado.

Como o City projeta 2026/27 sem sua dupla mais simbólica

Perder Guardiola e Rodri na mesma janela de transição representaria uma ruptura estrutural que vai muito além da dimensão esportiva. O catalão construiu, ao longo de mais de nove anos no clube, um modelo de jogo baseado em pressing alto, controle posicional e inteligência coletiva — o que a literatura tática europeia convencionou chamar de evolução do tiki-taka para algo mais vertical e intenso. Rodri era o metrônomo que tornava esse sistema funcional mesmo nos dias em que a criatividade individual falhava.

A campanha "Not Your Typical City" pode ser lida, então, em dois registros simultâneos: o da confiança institucional — o clube que acumulou seis títulos da Premier League em onze anos não precisa temer uma transição — e o da necessidade de reposicionamento narrativo. Quando um ciclo se encerra com a clareza que este está encerrando, comunicar progresso é também uma forma de gerenciar a ansiedade do torcedor.

"Ter jogado no Atlético de Madrid não me impede de jogar no Real Madrid, há outros jogadores que seguiram esse caminho. Não diretamente, mas eventualmente", afirmou Rodri, sinalizando que o histórico no rival não é obstáculo para uma eventual transferência ao Bernabéu.

O City encerra a temporada 2025/26 com o novo uniforme já lançado, Guardiola praticamente despedido e Rodri com um pé no avião para Madrid. O degradê azul celeste na camisa foi pensado para simbolizar evolução — mas o clube que o veste está, neste momento, mais próximo do fim de uma era do que do começo de outra.