Uma nova denúncia de abuso sexual contra o ex-treinador de jiu-jitsu Melquisedeque Galvão veio à tona após ser exibida pelo SBT. Na reportagem, uma suposta vítima — com identidade preservada — relatou um novo caso envolvendo menores, acrescentando mais um capítulo a um histórico de acusações que já compromete gravemente a reputação do nome dentro do esporte.

O peso acumulado das acusações

Melquisedeque Galvão não chega a esta nova denúncia com a ficha limpa. As investigações e relatos anteriores já o colocavam sob suspeita no ambiente das academias de jiu-jitsu, um universo onde a relação de confiança entre mestre e aluno — especialmente quando o aluno é criança ou adolescente — é estrutural ao método de ensino.

A vítima ouvida pelo SBT optou pelo anonimato, o que é prática padrão em casos de abuso sexual, sobretudo quando envolve menores. A decisão de não revelar a identidade não reduz a gravidade do relato — ao contrário, reforça o padrão já observado em outros casos: vítimas que levam anos para falar publicamente, muitas vezes por medo de retaliação dentro de uma comunidade fechada.

A estrutura que permite o silêncio

O jiu-jitsu brasileiro opera em um modelo hierárquico rígido, baseado no sistema de graduações por faixas. Dentro das academias, o professor ocupa uma posição de autoridade quase inquestionável sobre alunos iniciantes. Quando o aluno é menor de idade e o professor conta com reputação consolidada no meio, o desequilíbrio de poder é ainda mais pronunciado.

Conforme levantamento do SportNavo, situações de abuso em ambientes de esportes de combate são sistematicamente subnotificadas no Brasil — e o jiu-jitsu, apesar de sua projeção internacional com atletas como Bia Mesquita e Buchecha, ainda carece de protocolos nacionais de proteção a menores vinculados a federações estaduais e à CBJJ (Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu).

Repercussão e responsabilidade institucional

A exibição do caso pelo SBT — emissora de alcance nacional — garante que o nome de Melquisedeque Galvão ultrapasse os limites da comunidade de lutas. Isso cria pressão direta sobre as entidades organizadoras do jiu-jitsu para se posicionarem formalmente sobre o caso.

Segundo a reportagem exibida pelo SBT, a suposta vítima descreveu situações de abuso que seguem o mesmo padrão já relatado em denúncias anteriores envolvendo o ex-treinador.

A CBJJ e as federações estaduais ainda não emitiram nota oficial sobre as novas acusações até o fechamento desta matéria. A omissão institucional, neste tipo de caso, é por si só um dado relevante: esportes como a ginástica artística e o atletismo já enfrentaram crises severas por não agirem rapidamente quando surgiram denúncias contra profissionais credenciados.

O caminho legal e as consequências para o esporte

No Brasil, crimes de abuso sexual contra menores são enquadrados no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e no Código Penal, com penas que variam de 8 a 15 anos de reclusão para o crime de estupro de vulnerável, conforme o artigo 217-A. A presença de vítimas dispostas a depor — mesmo sob anonimato em um primeiro momento — é passo inicial para a abertura formal de inquérito policial.

A análise do SportNavo aponta que casos desse tipo, quando ganham cobertura de veículos de grande audiência como o SBT, tendem a mobilizar o Ministério Público mesmo na ausência de boletim de ocorrência formal. O MP tem prerrogativa para agir de ofício em crimes contra menores.

Para o jiu-jitsu brasileiro, o impacto vai além do processo judicial. Academias vinculadas ao nome de Galvão enfrentam questionamento direto sobre sua estrutura de supervisão e os critérios usados para credenciar instrutores que trabalham com crianças. A Polícia Civil do estado onde os fatos ocorreram é o órgão competente para instaurar o inquérito — e a pressão pública gerada pela reportagem do SBT torna essa abertura cada vez mais inevitável.