Nove jogadores cortados ou lesionados em uma única data Fifa. Esse é o número que melhor define o momento da Seleção Brasileira nas semanas que antecedem a Copa do Mundo de 2026, e que transformou os amistosos contra França e Croácia — realizados nos Estados Unidos em março — num exercício bem diferente do planejado por Carlo Ancelotti. O que seria a consolidação de um time virou, nas palavras da própria comissão técnica, um laboratório de observações com atletas que sequer têm garantia de embarcar para o Mundial.
A enxurrada de lesões que mudou o planejamento de Ancelotti
O goleiro Alisson foi o primeiro a cair. Com um problema muscular na coxa direita, o camisa 1 do Liverpool havia perdido o jogo contra o Galatasaray pela Champions League em 10 de março, voltou a atuar duas vezes pelo clube inglês e recaiu — sendo desconvocado na sexta-feira anterior aos amistosos. Na sequência, Alex Sandro (Flamengo) e Gabriel Magalhães (Arsenal) foram cortados com problemas musculares e no joelho direito, respectivamente. Éder Militão, parado desde dezembro com ruptura no bíceps femoral da perna esquerda, e Bruno Guimarães, fora desde fevereiro com lesão de grau três na coxa esquerda, já eram baixas confirmadas. Rodrygo, com ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho direito, é o único nome que já tem a Copa do Mundo oficialmente encerrada.
A lista completa de ausentes para aquela data Fifa chegou a nove: Alisson, Vanderson, Caio Henrique, Alex Sandro, Éder Militão, Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães, Estêvão e Rodrygo. Seis deles seriam titulares na seleção ideal de Ancelotti.

Há um paralelo histórico inevitável com o Brasil de 2014, quando Neymar saiu lesionado nas quartas de final e Thiago Silva ficou suspenso para a semifinal contra a Alemanha — o famoso 7 a 1. A diferença é que aquelas ausências chegaram durante o torneio. Ancelotti enfrenta o desfalque antes mesmo de o Mundial começar, o que, paradoxalmente, oferece tempo para recalibrar.
Os 18 nomes que Ancelotti já tem na cabeça
Segundo apuração do colunista Marcel Rizzo, do Estadão, 13 jogadores só ficarão de fora da Copa se se machucarem. Outros cinco têm o passaporte praticamente carimbado, totalizando 18 nomes quase certos numa lista que terá 26 convocados — a ser divulgada em 18 de maio. Entre os virtuais titulares absolutos, quando saudáveis, estão Vinicius Jr. e Éder Militão (Real Madrid), Raphinha (Barcelona), Marquinhos (PSG) e o próprio Bruno Guimarães (Newcastle), acompanhados de perto pela evolução de suas recuperações.
No grupo dos cinco com passaporte quase carimbado, o lateral Wesley, da Roma, emerge como candidato a único representante puro da posição na direita, já que Danilo (Flamengo) e o próprio Militão também atuam ali. Gabriel Martinelli, do Arsenal, praticamente garantiu sua vaga com a lesão de Rodrygo. Richarlison, do Tottenham, esteve em todas as listas de Ancelotti até aqui. Hugo Souza e Luiz Henrique completam o grupo de cinco que agradaram em convocações anteriores.
A situação dos brasileiros na Champions League também interessa diretamente ao planejamento. PSG e Arsenal são os finalistas da edição atual, e a decisão está marcada para 30 de maio na Puskás Arena, em Budapeste — véspera do amistoso do Brasil contra o Panamá, no Maracanã. Marquinhos, que na semifinal de volta contra o Bayern superou Roberto Carlos como o brasileiro com mais partidas na história da Champions League (121 no total), e a dupla Gabriel Magalhães e Gabriel Martinelli estarão na final. Quem jogar em Budapeste no dia 30 chega atrasado à Granja Comary, onde o grupo se apresenta em 25 de maio.
Danilo, o veterano convocado antes da hora, e as vagas em aberto
Numa jogada incomum, Ancelotti antecipou a convocação de Danilo, de 34 anos, para a Copa — gesto que o próprio jogador recebeu com cautela característica de quem já viveu dois Mundiais.
"Fico satisfeito pelas palavras do mister e pelo reconhecimento. Trabalho nos bastidores, dedicação e o foco silencioso é uma coisa que eu faço há anos. Tem muito trabalho pela frente, muita dedicação e empenho. Até sair a lista final a gente não sossega", declarou o defensor do Flamengo.
O técnico italiano valoriza no veterano não apenas a versatilidade tática — Danilo atuou nas três das 10 partidas de Ancelotti sempre como substituto —, mas o papel de liderança no vestiário. No amistoso contra a Croácia, Danilo marcou um dos dois primeiros gols da vitória brasileira, ao lado de Igor Thiago, enquanto Rayan e Endrick entraram no segundo tempo com energia que o próprio Danilo elogiou.
"Os meninos mostraram que estão preparados. Entraram com muita energia para atacar uma defesa cansada e muito alta como a da Croácia. Isso é uma arma importante para uma competição como a Copa do Mundo, ter energia nos 15 minutos finais", avaliou o lateral.
Há algo de Moneyball nessa gestão de Ancelotti — a arte de montar um elenco competitivo com peças que outros subestimariam, enquanto as estrelas convencionais estão no hospital. Pelo menos oito vagas ainda estão em aberto em todas as posições, e os amistosos de março serviram exatamente para isso: Bento e Ederson disputam a camisa 1 com Alisson fora; Douglas Santos busca sequência na lateral esquerda; Andrey Santos e Gabriel Sara brigam pelo meio-campo.
O Brasil estreia na Copa do Mundo em 13 de junho contra Marrocos, às 19h (de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Antes disso, ainda enfrenta o Panamá no Maracanã em 31 de maio e o Egito em Cleveland no dia 6 de junho — dois últimos testes para Ancelotti fechar a lista definitiva e escolher entre os oito nomes ainda em disputa aqueles que completarão os 26 convocados.









