Resistiu. O ABC Futebol Clube, fundado em 1915 e habitante histórico das divisões intermediárias do futebol brasileiro, resistiu às expectativas modestas que o cercavam na Copa do Nordeste 2026 e chegou às quartas de final como o time mais consistente dentre os chamados candidatos a zebra. Nesta quarta-feira (6), às 19h, na Arena das Dunas, em Natal, o Elefante recebe a Juazeirense num jogo único que pode escrever um capítulo novo na história do clube potiguar.
Como o Elefante de Natal construiu a melhor campanha entre os zebras do Nordestão
Dez pontos no Grupo D. Esse número, sozinho, conta mais do que qualquer discurso. O ABC terminou a fase classificatória com uma campanha que rivalizou com clubes de Série A e B, e chega ao mata-mata carregando uma sequência de sete jogos sem derrota, somando Copa do Nordeste e Série D do Brasileirão. O técnico Waguininho Dias montou uma equipe compacta, difícil de ser batida, que lembra — guardadas as proporções históricas — o Treze de Campina Grande que encantou o Nordestão nos anos 2000, ou o próprio ABC da geração que disputou a Série B nos anos 1980.
Para o confronto decisivo, porém, Waguininho Dias terá que improvisar. O artilheiro Wallyson, peça central no esquema ofensivo do time, cumpre suspensão e desfalca o ataque. O meia Geilson também está fora. Wellington Reis deve assumir a titularidade no meio-campo para compensar a ausência. A provável escalação tem Matheus Alves no gol; Lucas Marques, Edson, Wellington Carvalho e Dudu Mandai na defesa; Jonathan, Wellington Reis e Luiz Fernando no meio; João Pedro, Igor Bahia e Brunão no ataque.
No último compromisso antes das quartas, o time poupou peças e empatou em 1 a 1 com o Central, sinalizando que o foco estava inteiramente depositado nesta noite em Natal. Esse tipo de gestão de elenco — típica de clubes que sabem o que têm em mãos — é o sinal mais claro de que o ABC não veio à Copa do Nordeste 2026 apenas para participar.
A Juazeirense e o paradoxo do classificado mais frágil que ninguém quer enfrentar
Há uma máxima no boxe que diz que o lutador mais perigoso é aquele que não tem nada a perder. A Juazeirense, clube de Juazeiro da Bahia, chegou às quartas com apenas seis pontos na fase de grupos — a menor pontuação entre os oito classificados — e, exatamente por isso, entra na Arena das Dunas sem o peso da expectativa. O "Cancão" garantiu a vaga no sufoco, com um empate diante do ASA que foi suficiente para avançar, e chega ao duelo ainda abalado pela derrota por 2 a 0 para o CSA na Série D, no último domingo.
O técnico interino Zé Carijé terá desfalques significativos: Breno, com lesão no ligamento cruzado anterior, e Waguinho, com fratura no tornozelo, estão fora. Em contrapartida, os retornos de Arthur Caculé e Luan reforçam o elenco e podem aparecer desde o início. A provável formação tem Pedro Campanelli; Rafael Mandacaru, Zé Romário, Eduardo e Felipe; Bino, Douglas Nathan e Luan; Bravo, Adriano Pardal e Diki.
Segundo o técnico interino Zé Carijé, o grupo absorveu bem a derrota na Série D e o foco se voltou inteiramente para a Copa do Nordeste, competição em que a Juazeirense ainda não escreveu sua história mais importante.
O histórico direto entre ABC e Juazeirense em competições nacionais é escasso, o que torna a leitura do jogo ainda mais aberta. Sem referência estatística robusta de confrontos anteriores, cada time precisará construir a narrativa dentro de campo — e isso, paradoxalmente, favorece quem tem mais confiança acumulada. Neste momento, o ABC leva vantagem nesse quesito.
O que uma semifinal inédita representaria para o futebol potiguar e o peso do outro duelo no Barradão
O Rio Grande do Norte nunca teve um representante na semifinal da Copa do Nordeste. O ABC, clube mais tradicional do estado com 13 títulos estaduais, seria o pioneiro. Para contextualizar a dimensão do feito: o Nordestão existe desde 1994, e em mais de três décadas de competição, o futebol potiguar jamais chegou tão perto de uma semifinal. A comparação mais próxima foi o próprio ABC em edições anteriores, eliminado sempre nas primeiras fases do mata-mata.
Nas palavras do capitão Jonathan, referência do meio-campo do Elefante, o grupo sabe da responsabilidade histórica que carrega nesta quarta-feira e está preparado para honrar a camisa diante da torcida na Arena das Dunas.
Quem avançar desta chave enfrentará o vencedor do clássico entre Vitória e Ceará, marcado para as 21h30 no Estádio Manoel Barradas, em Salvador. O Vitória chega embalado pela goleada de 4 a 1 sobre o Coritiba na Série A, que o levou à 9ª colocação, e liderou o Grupo A com 10 pontos — campanha idêntica à do ABC no Grupo D. O técnico Jair Ventura, no entanto, enfrenta um departamento médico com 11 desfalques, incluindo o goleiro Gabriel Vasconcelos e o zagueiro Camutanga. Lucas Arcanjo deve defender o gol do Leão.
O Ceará, comandado por Mozart, chega à partida em busca de reabilitação após a derrota por 2 a 0 para o Sport na Série B. Vina e o goleiro Richard seguem indisponíveis. A principal novidade é o possível retorno do zagueiro Alex Silva aos relacionados, enquanto Pedro Henrique deve ganhar a vaga de Melk no ataque para trazer mais experiência ao setor em um jogo de pressão máxima.
A semifinal da Copa do Nordeste 2026 está prevista para a última semana de maio. Se o ABC superar a Juazeirense nesta quarta-feira, o clube potiguar terá até o dia 28 de maio para se preparar para o maior jogo de sua história recente — e para provar que a "Lampions League" também tem espaço para elefantes que não param de caminhar.










